Mortandade de abelhas é indicador biológico da saúde do meio ambiente: tudo pode estar contaminado

 

Mortandade de abelhas é indicador biológico: tudo pode estar contaminado. Entrevista especial com Dayson Castilhos

Patricia Fachin, IHU

A correlação entre o uso de agrotóxicos em lavouras agrícolas e a mortandade de abelhas é apontada em estudo recente, realizado por Dayson Castilhos, autor da tese de doutorado “Desaparecimento e morte de abelhas no Brasil, registrados no aplicativo Bee Alert”. A partir de análises toxicológicas em duas matrizes de abelhas africanizadas em seis estados brasileiros, Castilhos afirma que foram encontrados altos níveis de agrotóxicos. “Nas abelhas coletadas mortas encontramos uma frequência de contaminação de 92%, ou seja, este percentual estava contido nas amostras a nível letal. Nas abelhas coletadas vivas encontramos uma frequência de contaminação de 14%, sendo esse percentual quantificado a nível sub-letal”, informa. Segundo ele, a partir das análises realizadas foi possível “determinar o índice de mortalidade de colônias em todo o Brasil, com destaque para os estados mais impactantes como RSSCSPMS e MT. Nesses estados, dentre os apicultores que perderam abelhas o índice de perda de colônias chegou a 52%”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail para a IHU On-Line, o pesquisador menciona que “o uso do agrotóxico com controle preventivo de pragas no Brasil se tornou cultural. O produtor agrícola usa o agrotóxico mesmo sem necessitar, acreditando que vai prevenir a perda de produção, mas na maioria das vezes essas aplicações são desnecessárias”. No entanto, frisa, “o estudo das perdas de colônias de abelhas pelos agrotóxicos serve como indicador biológico da saúde do meio ambiente. Podemos pensar: se as abelhas estão contaminadas, então tudo mais também pode estar contaminado em maior ou menor nível de contaminação, como o solo, a produção agrícola, a pecuária, os humanos e os biomas”.

Dayson Castilhos é graduado em Engenharia Eletrônica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUC-RS, mestre em Meio Ambiente, Tecnologia e Sociedade – ATS pela Universidade Federal Rural do Semi-Árido – UFERSA e doutor em Ciência Animal pela mesma universidade.

 

Confira a entrevista.

IHU On-Line – É possível estimar desde quando está ocorrendo o processo de mortandade das abelhas no Brasil e o percentual de abelhas que já foram mortas?

Dayson Castilhos – A preocupação mundial a respeito das mortandades de abelhas se iniciou em 2006, quando houve uma grande mortandade de abelhas Apis mellifera nos EUA e Europa. Desse ano para cá vem-se fazendo levantamentos estatísticos periódicos sobre morte de abelhas. Aqui no Brasil os dados começaram a ser colhidos em 2013.

IHU On-Line – O que foi possível evidenciar acerca da morte das abelhas no Brasil a partir da sua pesquisa doutoral, intitulada “Desaparecimento e morte de abelhas no Brasil, registrado no aplicativo Bee Alert”?

Dayson Castilhos – A tese teve dois objetivos: analisar os relatórios enviados pelos participantes da pesquisa e a análise toxicológica das abelhas mortas coletadas nos apiários em que as mortandades aconteceram. Conseguimos determinar o índice de mortalidade de colônias em todo o Brasil, com destaque para os estados mais impactantes como RSSCSPMS e MT. Nesses estados, dentre os apicultores que perderam abelhas o índice de perda de colônias chegou a 52%. Na análise química conseguimos identificar e quantificar as contaminações ocorridas pelos inseticidas neonicotinoides e o fipronil.

IHU On-Line – Como o senhor chegou à conclusão de que a morte das abelhas no Brasil está relacionada ao uso de agrotóxicos na agricultura? Que percentual de agrotóxico encontrou junto às abelhas analisadas?

Dayson Castilhos – No caso do Brasil, especificamente, fizemos as análises toxicológicas em duas matrizes de abelhas africanizadas Apis mellifera. Nas abelhas coletadas mortas encontramos uma frequência de contaminação de 92%, ou seja, este percentual estava contido nas amostras a nível letal. Nas abelhas coletadas vivas encontramos uma frequência de contaminação de 14%, sendo esse percentual quantificado a nível sub-letal.

IHU On-Line – A sua pesquisa teve uma abrangência nacional e analisou a mortandade de abelhas nos estados de Mato Grosso do Sul, São Paulo, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Santa Catarina. Que semelhanças e diferenças pôde constatar ao analisar a situação das abelhas em diferentes estados do país?

Dayson Castilhos – Diferenças existem entre os manejos em diferentes biomas, com perdas regulares que não são significantes. O caso da grande seca do Nordeste de 2012 foi bem característico com grandes perdas devido ao calor excessivo e uma seca muito acentuada. As perdas de colônias devido ao ácaro Varroa destructor não são significantes no Brasil (em média 5% ao ano). A grande semelhança é que quando os apicultores instalam seus apiários próximo a grandes áreas agrícolas, elas morrem pela aplicação de agrotóxicos nas plantações.

IHU On-Line – Quais são os agrotóxicos que têm causado a morte das abelhas no Brasil?

Dayson Castilhos – Nós analisamos somente os sete neonicotinoides mais o fipronil, mas existem hoje no Brasil 646 (licenças antigas) mais 147 (licenças novas) de agrotóxicos comercializados. Sem contar com os “falsificados e ilegais” que se consegue encontrar.

IHU On-Line – Quais são as consequências ambientais da mortandade de abelhas no país?

Dayson Castilhos – Para a agricultura e a natureza, a consequência é a perda da polinização, com produção menor e de baixa qualidade. Para os apicultores, são a perda de tempo para reproduzir novas colônias, a perda de receita e, em muitos casos, o abandono da atividade apícola.

IHU On-Line – É possível reverter o atual quadro de mortandade de abelhas no país? Que tipo de ação seria preciso para reverter esse quadro?

Dayson Castilhos – Do ponto de vista técnico, é possível criar um protocolo de convivência entre agricultura e apicultura como fez o Canadá. Do ponto de vista político, não acredito que seja possível remediar esta situação.

IHU On-Line – É possível conciliar a produção agrícola em larga escala sem o uso de agrotóxicos?

Dayson Castilhos – O uso do agrotóxico com controle preventivo de pragas no Brasil se tornou cultural. O produtor agrícola usa o agrotóxico mesmo sem necessitar, acreditando que vai prevenir a perda de produção, mas na maioria das vezes essas aplicações são desnecessárias.

Estudos vêm sendo feitos já de longa data para substituir agrotóxicos pelo controle biológico. O controle biológico do que chamamos “pragas”, em alguns casos se mostram mais eficientes que os agrotóxicos.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Dayson Castilhos – O estudo das perdas de colônias de abelhas pelos agrotóxicos serve como indicador biológico da saúde do meio ambiente. Podemos pensar: se as abelhas estão contaminadas, então tudo mais também pode estar contaminado em maior ou menor nível de contaminação, como o solo, a produção agrícola, a pecuária, os humanos e os biomas. Estudo feito na Inglaterra revelou que 48% dos londrinos tinham resíduos de glifosato no sangue acima do nível aceitável pela OMS.

 

(EcoDebate, 02/05/2019) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.

[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

 

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