As missões jesuíticas guaranis e a sustentabilidade, Parte 4/4 (Final), artigo de Roberto Naime

 

artigo

 

[EcoDebate] AFONSO et. al. (2014) registram que um exemplo de projeto de sustentabilidade cultural, que tem produzido resultado nas aldeias guarani, é o Observatório Solar Indígena. O projeto foi muito bem-aceito por esse povo, que inclusive participou da sua elaboração e construção.

Essa aceitação se deu, principalmente, pela associação desta ferramenta de ensino do meio ambiente com a cosmovisão do Guarani (com o jeito de ser Guarani), pois, está relacionado com a origem de seus deuses, do mundo e de seus habitantes, um dos pilares da cosmologia Guarani.

Para os Guaranis, o Sol é o principal regulador da vida na Terra e tem grande significado religioso. Todo o cotidiano deles está voltado para a busca da força espiritual do Sol, que nomeiam Kuarahy, na linguagem do cotidiano e Nhamandu, na linguagem sagrada (religiosa).

Os indígenas brasileiros determinavam o meio-dia solar, os pontos cardeais e as estações do ano utilizando um dos mais simples e antigos instrumentos de astronomia: o gnômon vertical ou haste do relógio solar, que é chamado de Kuarahy Ra’anga, em guarani e Cuaracy Ra’angaba, em tupi antigo.

Ele consiste de uma haste cravada verticalmente no solo, da qual se observa a sombra projetada pelo Sol sobre um terreno horizontal. Em geral, a haste era feita de madeira ou de uma rocha grande, isolada, conhecida como monolito. Na cosmogonia guarani, Nhande Ru Ete (Nosso Pai Sagrado) criou quatro deuses principais que o ajudaram na criação da Terra e de seus habitantes.

A parte mais alta do céu (Zênite) representa Nhande Ru Ete e os quatro pontos cardeais representam esses deuses. O Norte é Jakaira Ru Ete, deus da neblina vivificante e das brumas que abrandam o calor, origem dos bons ventos. O Leste é Karai Ru Ete, deus do fogo e do ruído do crepitar das chamas sagradas. No Sul, Nhamandu Ru Ete, deus do Sol e das palavras, representa a origem do tempo-espaço primordial. No Oeste, Tupã Ru Ete é deus das águas, do mar e de suas extensões, das chuvas, dos relâmpagos e dos trovões.

Os pontos colaterais são domínios das esposas desses deuses, que foram criadas por eles. Os seixos representam ovos de Ema, que Nhande Ru Ete deixou para os quatro deuses auxiliares criarem a vida na Terra. A circunferência de seixos, em torno do Gnômon, representa a Terra, circular e plana, como era vista na antiguidade (AFONSO, 2005).

Muitos projetos de sustentabilidade indígena, viáveis na visão ocidental, não dão certo com os Guaranis, pois estão corroídos pelo etnocentrismo ocidental. Portanto, não estão de acordo com o “jeito de ser” Guarani, ou seja, com a maneira de ver e sentir do mundo dos Guaranis.

Quando se fala cada vez mais em sustentabilidade, os conhecimentos, modos de vida e a cosmovisão indígena, que pareciam destinados a permanecer no fundo das florestas, nas sombras do tempo e talvez a desaparecer com os povos que os geraram, ganham nova dimensão de importância e podem ser relevantes para que a civilização moderna aprenda com eles como viver em harmonia com a natureza, sem destruí-la e a si mesmos, mas a preservando para as próximas gerações.

No fundo se propõe algo análogo. Se chama de nova autopoiese, a busca de um novo equilíbrio para o arranjo civilizatório.

Isto se deve ao fato de que a questão ambiental representa uma síntese dos impasses que o modelo atual de civilização acarreta, chamada “crise civilizatória”.

Por isso se sabe que leis e normas não vão resolver os problemas. Mas são muito relevantes numa sociedade criada pela civilização humana que vive de direito positivado.

A civilização humana determinará nova autopoiese sistêmica, na acepção livre das concepções de Niklas Luhmann e Ulrich Beck, que contemple a solução dos maiores problemas e contradições exibidas pelo atual arranjo de equilíbrio.

Que é um sistema instável, muito frágil e vulnerável. Para sua própria sobrevivência, o “sistema” vai acabar impondo uma nova metamorfose efetiva. Que vai ter efeitos reais e substanciosos.

Um outro mundo é possível, mesmo dentro da livre iniciativa. Ocorre enfatizar que nada é contra a livre-iniciativa. Que sem dúvida sempre foi e parece que sempre será o sistema que melhor recepciona a liberdade e a democracia. E liberdade é fundamental.

E os movimentos sociais têm uma distorção sistêmica de articular mudanças ideológicas como se fossem soluções para questões ambientais. Mas uma nova autopoise sistêmica para o arranjo social, é urgente e precisa ser desenvolvida pela civilização humana.

Esta mudança deve começar logo, juntando as lutas singulares, os esforços diários, os processos de auto-organização e as reformas para retardar a crise, com uma visão centrada numa mudança de civilização e uma nova sociedade em harmonia com a natureza.

Não é preciso esperar catástrofe ecológica ou hecatombe civilizatória para determinar nova autopoiese sistêmica. Nada foi mais deletério em causar a maior catástrofe ambiental do planeta do que a falta de liberdade e imprensa livre dos ditos regimes socialistas.

Autopoiese pode ser nova cosmovisão. A natureza agradece aos guaranis.

Referências:

AFONSO, G. B., VELHO, L., AFONSO, Y. B., NADAL, Th. Cuaracy Ra’angaba: O Céu dos Tupi-Guarani. Documentário (III Etnodoc) IPHAN. 2014. Disponível em: www.youtube.com/watch?v=obuRxNgAh6c Acesso em: 22/06/2014.

AFONSO, G. B., SILVA, P. S. O Céu dos Índios de Dourados Mato Grosso do Sul. Dourados, MS: Editora UEMS, 2012.

AFONSO, G. B. Mitos e Estações no Céu Tupi-Guarani. Edição especial Scientific American Brasil, v. 14, p. 46-55, 2006.

COELHO JUNIOR, Nelson Ernesto. Ferenczi e a experiência da Einfühlung. Rio de Janeiro: Ágora (Rio J.) vol.7 no.1, 2004.

ELKINGTON, J. Cannibals with Forks: the Triple Bottom Line of 21st Century Business. Oxford: Capstone, 1997.

GALLOIS, D. T. Cultura “indígena” e sustentabilidade: alguns desafios. Campo Grande, MS: Tellus, ano 5, n. 8/9, p. 29-36, 2005.

GOLDMANN, L. Importância do conceito de consciência possível para a informação. In: Colóquios Filosóficos de Royaumont. O conceito de informação na ciência contemporânea. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1970.

GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes: o cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido pela Inquisição. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

MARTIN-BARBERO, J. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2001.

MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, p. 5-6, 1999.

RORTY, Richard. O intelectual humanista – onze teses. In GUIRARDELLI Júnior, Paulo. Filosofia da educação. Rio de Janeiro: DP&A, 2000.

AFONSO, Germano Bruno. MOSER, Alvino. AFONSO, Yuri Berri. COSMOVISÃO GUARANI E SUSTENTABILIDADE. Revista Meio Ambiente e Sustentabilidade Ed. Especial, vol. 7, n. 3, p. 753 – 765 jul – dez 2014

 

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

 

Nota da redação: recomendamos que leia, também, as partes anteriores desta série de artigos:

As missões jesuíticas guaranis e a sustentabilidade, Parte 1/4

As missões jesuíticas guaranis e a sustentabilidade, Parte 2/4

As missões jesuíticas guaranis e a sustentabilidade, Parte 3/4

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 09/10/2018

As missões jesuíticas guaranis e a sustentabilidade, Parte 4/4 (Final), artigo de Roberto Naime, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 9/10/2018, https://www.ecodebate.com.br/2018/10/09/as-missoes-jesuiticas-guaranis-e-a-sustentabilidade-parte-44-final-artigo-de-roberto-naime/.

 

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