As missões jesuíticas guaranis e a sustentabilidade, Parte 2/4, artigo de Roberto Naime

 

artigo

 

[EcoDebate] AFONSO et. al. (2014) assinala que para os ocidentais a natureza está a serviço do ser humano, por isso eles a estão exaurindo indefinidamente. Este é um conceito que vem do iluminismo.

O Iluminismo foi um movimento que surgiu na França no século XVII em reação ao longo domínio da Igreja Católica durante a alta e a baixa idade média que impôs uma visão teocêntrica. Segundo os filósofos iluministas, o movimento tinha o propósito de iluminar as trevas em que se encontrava a sociedade em função do longo domínio teocrático e teocêntrico que devia ser substituído pela racionalidade.

O principal resultado do Iluminismo é uma visão antropocêntrica em que o homem passa a ser o centro da sociedade, e a razão substitui questões dogmáticas então somente explicadas pela fé.

Os principais filósofos do iluminismo são homens que foram pilares para a edificação do direito moderno, tal qual hoje é reconhecido, como John Locke que argumenta sobre o governo civil e retoma de certa forma a tradição britânica de civilização que já havia se expressado com Thomas Hobbes. O francês Voltaire defendia ardorosamente o direito ao pensamento e criticava a intolerância religiosa. Rosseau, Diderot e Montesquieu, filósofos de extrema importância para o direito moderno completam o quadro.

O direito ambiental e o conjunto da legislação ambiental constituída por leis, portarias, resoluções do Conselho Nacional do Meio Ambiente e dos órgãos estaduais no Brasil e de outros órgãos normativos no mundo tem explicitado normas ambientais sempre tomando por premissa, ainda que não declarada e nem mesmo pensada, a concepção antropocêntrica do mundo.

Nesta visão não há sentido em proteger a natureza e os ecossistemas em função do próprio equilíbrio. Na concepção que evolui do iluminismo, onde o teocentrismo é substituído pelo antropocentrismo, só há sentido em proteger a natureza em função do homem. Mas esta ideia é equivocada, a natureza e o meio ambiente são um bem em si próprios e precisam ser protegidos. Não apenas para propiciar ao homem boa qualidade de vida. Mas se não forem protegidos, o desequilíbrio da natureza poderá cobrar o direito fundamental à vida do homem.

Mas, para os indígenas, o ser humano e a natureza estão ligados, ambos se cuidando. Eles consideram a natureza como um ser vivo, que deve ser preservada. Os indígenas, diferentemente dos ocidentais, não separam a natureza da cultura. Isso pode ser verificado, por exemplo, na famosa carta do chefe Seatte.

Em 1854, o cacique Noah Sealth, da tribo Duwamish, mais conhecido como Chefe Seattle, respondeu de uma forma muito especial à proposta do presidente dos Estados Unidos da América, Franklin Pierce, em criar uma reserva indígena e acabar com os confrontos entre índios e brancos. Significava a desapropriação de terras indígenas.

Com sua carta resposta ao presidente, Noah Sealth criou o primeiro manifesto em defesa do meio ambiente e da natureza, que tem perdurado ao longo do tempo. Em 1855, o Tratado de Point Elliott foi assinado e ocorreu com a tomada das terras indígenas. O chefe indígena Noah Sealth morreu no dia 07 de junho de 1866, com a idade de 80 anos.

Sua memória permanece no tempo e suas palavras continuam válidas até os dias de hoje, quando se fala em sustentabilidade. O nome da cidade de Seattle é em honra desse grande chefe, que acabou eternizado, como um exemplo de amor e respeito ao meio ambiente. Nada mais atual.

Essa foi a resposta do Chefe Seattle, “como é que se pode comprar ou vender o céu, o calor da terra? Essa idéia nos parece estranha. Se não possuímos o frescor do ar e o brilho da água, como é possível comprá-los? Cada pedaço desta que terra é sagrado para meu povo. Cada ramo brilhante de um pinheiro, cada punhado de areia das praias, a penumbra na floresta densa, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados na memória e experiência de meu povo. A seiva que percorre o corpo das árvores carrega consigo as lembranças do homem vermelho. Os mortos do homem branco se esquecem sua terra de origem, quando vão caminhar entre as estrelas. Nossos mortos jamais esquecem esta bela terra, pois ela é a mãe do homem vermelho. Somos parte da terra e ela faz parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs; o cervo, o cavalo, a grande águia, são nossos irmãos. Os picos rochosos, os sulcos úmidos nas campinas, o calor do corpo do potro, e o homem, todos pertencem à mesma família. Portanto, quando o Grande Chefe em Washington manda dizer que deseja comprar nossa terra, pede muito de nós. O Grande Chefe diz que nos reservará um lugar onde possamos viver satisfeitos. Ele será nosso pai e nós seremos seus filhos. Portanto, nós vamos considerar sua oferta de comprar nossa terra. Mas isso não será fácil. Esta terra é sagrada para nós. A água brilhante que escorre nos riachos e rios não é apenas água, mas o sangue de nossos antepassados. Se lhes vendermos a terra, vocês devem se lembrar de que ela é sagrada, e devem ensinar as suas crianças que ela é sagrada e que cada reflexo nas águas límpidas dos lagos fala de acontecimentos e lembranças da vida do meu povo. O murmúrio das águas é a voz de meus ancestrais. Os rios são nossos irmãos, saciam nossa sede. Os rios carregam nossas canoas e alimentam nossas crianças. Se lhes vendermos nossa terra, vocês devem lembrar e ensinar a seus filhos que os rios são nossos irmãos e seus também. E, portanto, vocês devem dar aos rios a bondade que dedicariam a qualquer irmão. Sabemos que o homem branco não compreende nossos costumes. Uma porção da terra, para ele, tem o mesmo significado que qualquer outra, pois é um forasteiro que vem à noite e extrai da terra tudo de que necessita. A terra não é sua irmã, mas sua inimiga, e quando ele a conquista, prossegue seu caminho. Deixa para trás os túmulos de seus antepassados e não se incomoda. Rapta da terra aquilo que seria de seus filhos e não se importa. A sepultura de seu pai e os direitos de seus filhos são esquecidos. Trata sua mãe, a terra, e seu irmão, o céu, como coisas que possam ser compradas, saqueadas, vendidas como carneiros ou enfeites coloridos. Seu apetite devorará a terra, deixando somente um deserto. Eu não sei, nossos costumes são diferentes dos seus. A visão de suas cidades fere os olhos do homem vermelho. Talvez seja porque o homem vermelho é um selvagem e não compreenda. Não há um lugar quieto nas cidades do homem branco. Nenhum lugar onde se possa ouvir o desabrochar de folhas na primavera ou o bater das asas de um inseto. Mas talvez seja porque eu sou um selvagem e não compreendo. O ruído parece insultar nossos ouvidos. E depois, o que resta da vida se um homem não pode ouvir o choro solitário de uma ave ou o debate dos sapos ao redor de uma lagoa, à noite? Eu sou um homem vermelho e não compreendo. O índio prefere o suave murmúrio do vento encrespando a face do lago, e o cheiro do próprio vento, limpo por uma chuva diurna ou perfumado pelos pinheiros. O ar é precioso para o homem vermelho, pois todas as coisas compartilham o mesmo sopro, o animal, a árvore, o homem, todos compartilham o mesmo sopro. Parece que o homem branco não sente o ar que respira. Como um homem agonizante há vários dias, é insensível ao mau cheiro. Mas se vendermos nossa terra ao homem branco, ele deve lembrar que o ar é precioso para nós, que o ar compartilha seu espírito com toda a vida que mantém. O vento que deu a nosso avô seu primeiro sopro de vida também recebe seu último suspiro. Se lhes vendermos nossa terra, vocês devem mantê-la intacta e sagrada, como um lugar onde até mesmo o homem branco possa ir saborear o vento açucarado pelas flores das campinas. Portanto, vamos considerar sua oferta de comprar nossa terra. Se decidirmos aceitar, imporei uma condição: o homem branco deve tratar os animais desta terra como seus irmãos. Sou um selvagem e não compreendo qualquer outra forma de agir. Vi mil búfalos apodrecendo na planície, abandonados pelo homem branco que os alvejou de um trem ao passar. Eu sou um selvagem e não compreendo como é que o fumegante cavalo de ferro pode ser mais importante que o búfalo, que sacrificamos somente para sobreviver. O que é o homem sem os animais? Se todos os animais se fossem o homem morreria de uma grande solidão de espírito. Pois o que ocorre com os animais, breve acontece com o homem. Há uma ligação em tudo. Vocês devem ensinar às suas crianças que o solo a seus pés é a cinza de nossos avós. Para que respeitem a terra, digam a seus filhos que ela foi enriquecida com as vidas de nosso povo. Ensinem as suas crianças o que ensinamos as nossas, que a terra é nossa mãe. Tudo o que acontecer à terra, acontecerá aos filhos da terra. Se os homens cospem no solo, estão cuspindo em si mesmos. Isto sabemos: a terra não pertence ao homem, o homem pertence à terra. Isto sabemos. Todas as coisas estão ligadas, como o sangue que une uma família. Há uma ligação em tudo. O que ocorrer com a terra recairá sobre os filhos da terra. O homem não teceu a teia da vida; ele é simplesmente um de seus fios. Tudo o que fizer ao tecido, fará a si mesmo. Mesmo o homem branco, cujo Deus caminha e fala com Ele de amigo para amigo, não pode estar isento do destino comum. É possível que sejamos irmãos, apesar de tudo. Veremos. De uma coisa estamos certos, e o homem branco poderá vir a descobrir um dia, nosso Deus é o mesmo Deus. Vocês podem pensar agora que O possuem, como desejam possuir a nossa terra; mas não é assim. Ele é o Deus do homem, e sua compaixão é igual para o homem vermelho e para o homem branco. A terra Lhe é preciosa, e feri-la é provocar o desprezo do seu criador. Os brancos também passarão, talvez mais cedo que todas as outras tribos. Contaminem suas camas, e uma noite serão sufocados pelos próprios dejetos. Mas vocês caminharão até a destruição, rodeados de glória, inspirados pela força do Deus, que os trouxe a esta terra e por alguma razão especial lhes deu o domínio sobre a terra e sobre o homem vermelho. Esse destino é um mistério para nós, pois não compreendemos porque os búfalos são exterminados, os cavalos bravios são domados, os recantos secretos da floresta densa são impregnados do cheiro de muitos homens, e obstrui a visão exuberante das colinas por fios que falam. Onde está o bosque? Destruído. Onde está a águia? Desapareceu. Termina a vida e começa a sobrevivência”.

Essa carta ajuda e entender a cosmovisão indígena e a sua relação com a natureza e a sustentabilidade.

Referências:

AFONSO, G. B., VELHO, L., AFONSO, Y. B., NADAL, Th. Cuaracy Ra’angaba: O Céu dos Tupi-Guarani. Documentário (III Etnodoc) IPHAN. 2014. Disponível em: www.youtube.com/watch?v=obuRxNgAh6c Acesso em: 22/06/2014.

AFONSO, G. B., SILVA, P. S. O Céu dos Índios de Dourados Mato Grosso do Sul. Dourados, MS: Editora UEMS, 2012.

AFONSO, G. B. Mitos e Estações no Céu Tupi-Guarani. Edição especial Scientific American Brasil, v. 14, p. 46-55, 2006.

COELHO JUNIOR, Nelson Ernesto. Ferenczi e a experiência da Einfühlung. Rio de Janeiro: Ágora (Rio J.) vol.7 no.1, 2004.

ELKINGTON, J. Cannibals with Forks: the Triple Bottom Line of 21st Century Business. Oxford: Capstone, 1997.

GALLOIS, D. T. Cultura “indígena” e sustentabilidade: alguns desafios. Campo Grande, MS: Tellus, ano 5, n. 8/9, p. 29-36, 2005.

GOLDMANN, L. Importância do conceito de consciência possível para a informação. In: Colóquios Filosóficos de Royaumont. O conceito de informação na ciência contemporânea. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1970.

GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes: o cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido pela Inquisição. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

MARTIN-BARBERO, J. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2001.

MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, p. 5-6, 1999.

RORTY, Richard. O intelectual humanista – onze teses. In GUIRARDELLI Júnior, Paulo. Filosofia da educação. Rio de Janeiro: DP&A, 2000.

AFONSO, Germano Bruno. MOSER, Alvino. AFONSO, Yuri Berri. COSMOVISÃO GUARANI E SUSTENTABILIDADE. Revista Meio Ambiente e Sustentabilidade Ed. Especial, vol. 7, n. 3, p. 753 – 765 jul – dez 2014

 

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

 

Nota da redação: recomendamos que leia, também, a parte anterior desta série de artigos:

As missões jesuíticas guaranis e a sustentabilidade, Parte 1/4

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 01/10/2018

As missões jesuíticas guaranis e a sustentabilidade, Parte 2/4, artigo de Roberto Naime, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 2/10/2018, https://www.ecodebate.com.br/2018/10/02/as-missoes-jesuiticas-guaranis-e-a-sustentabilidade-parte-24-artigo-de-roberto-naime/.

 

[CC BY-NC-SA 3.0][ O conteúdo da EcoDebate pode ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, à EcoDebate e, se for o caso, à fonte primária da informação ]

Inclusão na lista de distribuição do Boletim Diário da revista eletrônica EcoDebate, ISSN 2446-9394,

Caso queira ser incluído(a) na lista de distribuição de nosso boletim diário, basta enviar um email para newsletter_ecodebate+subscribe@googlegroups.com . O seu e-mail será incluído e você receberá uma mensagem solicitando que confirme a inscrição.

O EcoDebate não pratica SPAM e a exigência de confirmação do e-mail de origem visa evitar que seu e-mail seja incluído indevidamente por terceiros.

Remoção da lista de distribuição do Boletim Diário da revista eletrônica EcoDebate

Para cancelar a sua inscrição neste grupo, envie um e-mail para newsletter_ecodebate+unsubscribe@googlegroups.com ou ecodebate@ecodebate.com.br. O seu e-mail será removido e você receberá uma mensagem confirmando a remoção. Observe que a remoção é automática mas não é instantânea.

Um comentário em “As missões jesuíticas guaranis e a sustentabilidade, Parte 2/4, artigo de Roberto Naime

Comentários encerrados.

Top