As missões jesuíticas guaranis e a sustentabilidade, Parte 3/4, artigo de Roberto Naime

 

artigo

 

[EcoDebate] AFONSO et. al. (2014) detalham a cosmovisão dos Guaranis, motivada por uma mentalidade animista e religiosa, impede o desenvolvimento de uma economia baseada na noção de lucro privado, o que não é compreendido nem considerado pelo sistema capitalista.

A economia de subsistência dos Guaranis produz apenas para o consumo da própria família ou do grupo social, sem excedentes para o comércio. Nela, o sustento da vida, em sua maior parte, não é obtido por venda no mercado, inexistindo as leis da oferta e da procura.

Entretanto, não se trata somente de uma produção para o consumo, mas sim de produção para o valor de consumo, pois existem trocas no interior da sociedade; trocas, estas, envolvendo bens de natureza básica à existência (bens utilitários).

Uma produção para o valor de uso não exclui o aparecimento de uma rede de prestações na sociedade ou no interior da unidade doméstica, ao contrário, a produção para a “subsistência” prevê a realização de trocas, ainda que estas sejam realizadas com produtos de primeira necessidade.

No sistema socioeconômico Guarani, do tipo cooperativista, a feição doméstica e comunitária da produção e consumo faz com que o trabalho seja realizado pelo sentimento de solidariedade e não pelo de competição.

O conceito de sustentabilidade está relacionado ao termo “desenvolvimento sustentável”, definido como aquele que procura atender as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprirem as suas próprias necessidades.

Além disso, a atividade corporativa orientada pela lógica do desenvolvimento sustentável é aquela que, ao mesmo tempo, produz lucros, é socialmente justa e ambientalmente correta (ELKINGTON, 1997). Em relação à sustentabilidade indígena, GALLOIS (2005) escreve “considera-se a “sustentabilidade” como uma meta, um objetivo, não uma política pública.

Se existir alguma política de sustentabilidade, esta só pode ser uma política indígena. Formular uma política pública de “sustentabilidade indígena” nos levaria necessariamente a sérias contradições. No campo indigenista, as políticas públicas estão atualmente voltadas ao atendimento de demandas emergentes, praticando-se um assistencialismo que já demonstrou que é e continua sendo o principal causador da ruptura na sustentabilidade do modo de vida indígena. Por este motivo, prefere-se, neste texto, falar em sustentabilidade como meta, como também se considera a autonomia indígena como uma meta”.

Tudo indica que, em muitos casos, a “cultura de projetos” tenha incentivado a transformação dessa lógica numa equação muito mais simples. Receber apoio através de projetos sem meta precisa que não a elaboração do projeto seguinte (GALLOIS. 2005).

Portanto, quando se trata de sustentabilidade cultural dos indígenas entra-se num campo muito complexo. RORTY (2000) assinala que há uma linha divisória que divide as pessoas da seguinte forma, aquelas ocupadas em adequar-se ao bem compreendido critério de fazer contribuições ao conhecimento e aquelas pessoas que estão tentando expandir sua própria imaginação moral.

Transpondo o que RORTY (2000) afirma do ensino à sustentabilidade cultural, os que desejam comunicar-se com os indígenas, se humanistas forem, não irão vê-los por seus filtros culturais e intelectuais com seus critérios objetivos. Ao invés desse viés procurarão praticar a “Einfühlung”, isto é, a empatia.

A experiência do “sentir com” (tradução literal do alemão “Einfühlung”) já aparecia designada pelos gregos em seu vocábulo empatheia, origem de nossa expressão ‘empatia’, indicando a enigmática possibilidade de estar dentro, estar presente, viver com e como o outro o seu pathos, paixão, sofrimento e doença.

Indicando ora a possibilidade de projetar de modo imaginativo sua consciência e, assim, apreender o objeto contemplado, ora a capacidade de compreender os sentimentos e os pensamentos de um outro, colocando-se ‘em seu lugar’, a empatia possui múltiplas inserções na filosofia, na literatura e na história dos estudos estéticos e psicológicos (COELHO JUNIOR, 2004).

Trata-se de sentir junto com o outro, de procurar ver o mundo como o outro vê e ver o outro como ele se vê. Trata-se de realmente comunicar-se com o outro. Ora, a comunicação no sentido de haver reciprocidade não é algo simples. O processo de recepção, pelos indígenas, da comunicação com pessoas que querem ajudá-los ou que com eles desejam comunicar-se, pois a recepção ou resistência não depende apenas da forma da comunicação ou da apresentação dos recursos.

Podemos notar que os indígenas não percebem as mensagens dos que vivem uma cultura ocidental e racional de maneira passiva. Ao receberem as informações comunicadas eles as modificam e as moldam segundo sua consciência possível. GOLDMANN (1970) ao propor a aplicação do conceito de consciência possível, que pode ser aplicado e transposto à comunicação e à transmissão de informações entre os que desejam entrar em contato com os Guaranis, afirma, “trata-se do fato de que, em uma conversação, ou em uma transmissão de informações, não existe apenas um homem ou aparelho emissor das informações e um mecanismo transmissor, mas existe também um ser humano que as recebe.

Mesmo quando o caminho é longo e passa por desvios de uma cadeia de aparelhos e máquinas, no final há sempre um ser humano, e sabemos que sua consciência não pode “deixar passar” qualquer coisa (GOLDMANN, 1970).

No exemplo de GOLDMANN (1970), é o caso de pesquisadores que compartilham determinado paradigma e que se recusam a tomar conhecimento de teorias que questionem sua abordagem.

Esta é a situação que abordamos no presente exercício. Podemos fazer uma aproximação dessa resistência da consciência possível à mediação cultural. MARTIN-BARBERO (2001), ao tratar da receptividade da comunicação enfatiza o papel relevante da mediação cultural.

Em qualquer comunicação que seja há sempre a mediação cultural, (MARTIN-BARBERO, 2001) ou a mediação da consciência possível (GOLDMANN, 1970). Para que uma mensagem seja efetiva é necessário que haja uma receptividade que depende da cultura de cada pessoa.

Na questão da comunicação com os indígenas há uma que impede o entendimento ente os interlocutores, a diferença de cosmovisão.

Referências:

AFONSO, G. B., VELHO, L., AFONSO, Y. B., NADAL, Th. Cuaracy Ra’angaba: O Céu dos Tupi-Guarani. Documentário (III Etnodoc) IPHAN. 2014. Disponível em: www.youtube.com/watch?v=obuRxNgAh6c Acesso em: 22/06/2014.

AFONSO, G. B., SILVA, P. S. O Céu dos Índios de Dourados Mato Grosso do Sul. Dourados, MS: Editora UEMS, 2012.

AFONSO, G. B. Mitos e Estações no Céu Tupi-Guarani. Edição especial Scientific American Brasil, v. 14, p. 46-55, 2006.

COELHO JUNIOR, Nelson Ernesto. Ferenczi e a experiência da Einfühlung. Rio de Janeiro: Ágora (Rio J.) vol.7 no.1, 2004.

ELKINGTON, J. Cannibals with Forks: the Triple Bottom Line of 21st Century Business. Oxford: Capstone, 1997.

GALLOIS, D. T. Cultura “indígena” e sustentabilidade: alguns desafios. Campo Grande, MS: Tellus, ano 5, n. 8/9, p. 29-36, 2005.

GOLDMANN, L. Importância do conceito de consciência possível para a informação. In: Colóquios Filosóficos de Royaumont. O conceito de informação na ciência contemporânea. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1970.

GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes: o cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido pela Inquisição. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

MARTIN-BARBERO, J. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2001.

MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, p. 5-6, 1999.

RORTY, Richard. O intelectual humanista – onze teses. In GUIRARDELLI Júnior, Paulo. Filosofia da educação. Rio de Janeiro: DP&A, 2000.

AFONSO, Germano Bruno. MOSER, Alvino. AFONSO, Yuri Berri. COSMOVISÃO GUARANI E SUSTENTABILIDADE. Revista Meio Ambiente e Sustentabilidade Ed. Especial, vol. 7, n. 3, p. 753 – 765 jul – dez 2014

 

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

 

Nota da redação: recomendamos que leia, também, as partes anteriores desta série de artigos:

As missões jesuíticas guaranis e a sustentabilidade, Parte 1/4

As missões jesuíticas guaranis e a sustentabilidade, Parte 2/4

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 04/10/2018

As missões jesuíticas guaranis e a sustentabilidade, Parte 3/4, artigo de Roberto Naime, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 4/10/2018, https://www.ecodebate.com.br/2018/10/04/as-missoes-jesuiticas-guaranis-e-a-sustentabilidade-parte-34-artigo-de-roberto-naime/.

 

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