As monoculturas da mente, Parte 3/3, artigo de Roberto Naime

 

Dr. Vandana Shiva. Foto: http://vandanashiva.com

 

[EcoDebate] Continuando a digressão de Vandana Shiva, física, escritora e ativista ambiental, o entrevistador Barsamian reflete que ela está empregando cada vez mais a terminologia da violência e da guerra, ao que ela argumenta que “a questão da violência é importante porque todo o paradigma da tecnologia como tem emergido e o paradigma econômico da globalização estão baseados na guerra. Você começa a desenvolver geneticamente uma semente. Onde isso começa? Com armas genéticas. Você produz organismos geneticamente manipulados matando genes com uma arma genética. Toda a linguagem da engenharia genética é uma linguagem de guerra. Empresas utilizam a linguagem da guerra para falar sobre como impedir que as abelhas se apoderem do pólen. É uma guerra contra os polinizadores. Se usa a linguagem de criação de safras resistentes a herbicidas para prevenir ervas daninhas, que em nossa visão significam diversidade e biodiversidade essenciais à nossa saúde, ao nosso alimento, a fontes de vitamina A; eles chamam isso de “roubar a luz do sol”. É uma guerra contra as ervas daninhas. É uma guerra pela luz do sol, a qual nunca foi restrita, pois é fornecida em quantidades abundantes. Todo o regime da Organização Mundial do Comércio (OMC) é baseado em um único conceito de guerras comerciais, fazendo com que o comércio, que sempre foi um acordo cooperativo e mútuo de compra e venda do que você realmente precisa, se torne um acordo coercitivo, ser forçado a comprar algo de que você não precisa e ser forçado a vender o que você deveria usar domesticamente. A Índia está sendo forçada a vender milhões de toneladas de grãos”.

Ela continua “acordos globalizados estão impedindo a Índia de fornecer comida aos povos que realmente precisam dela. Os famintos estão morrendo. Os agricultores estão cometendo suicídio. As empresas do mundo ganham subsídios do Estado porque isso é permitido no sistema globalizado. Muito mais importante do que isso, um sistema de tecnologia e economia que torna grandes números de pessoas dispensáveis e comete tal violência contra a Terra e suas espécies merece ter uma resposta. Os britânicos tiveram uma resposta. Durante a luta pela independência, tivemos movimentos de camponeses. Quando os britânicos tentaram nos forçar a aceitar uma lei que tornaria a produção de sal um monopólio, Gandhi e seus seguidores foram para a praia de Dandi e produziram sal. Eles disseram “Não, nós não vamos obedecer às suas leis. Faremos nossas próprias leis”. Teremos uma reação. Conforme a reação chega, vimos isso em Seattle, Praga, Gothenburg e outros locais, os sistemas que decidiram que o planeta é sua propriedade e monopólio e que o mundo inteiro vive para seu modelo de comércio têm forçado estados que não são militarizados, como a Suécia e a Suíça, a criar novas leis em que a ação cívica está sendo redefinida como terrorismo. É um sistema que cria violência. Ele cria uma guerra por parte daqueles que decidiram que eles devem se apropriar e roubar como um direito. Está desencadeando uma reação violenta porque as respostas democráticas não estão sendo ouvidas”.

Questionada se o Partido Bharatiya Janata (PBJ), que é o partido que governa a Índia com raízes na doutrina fundamentalista hindu teve sua ascensão conectada com a globalização explanou “antes de a globalização chegar à Índia, o PBJ tinha exatamente duas cadeiras no Parlamento indiano. Conforme a globalização começou a destruir mais meios de subsistência, destruir a economia de pequena escala, destruir o setor agrícola, o PBJ, como qualquer outro partido fundamentalista de direita, pôde jogar com a insegurança das pessoas. Isso é o que acontece quando a democracia eleitoral é esvaziada da democracia econômica. Os países perdem a capacidade de tomar decisões econômicas para beneficiar seu povo. As eleições não podem mais ser disputadas em cima de como você fornece saúde, educação e empregos. Começam a ser disputadas sobre como você consegue mobilizar o ódio e o medo contra outra comunidade de uma outra religião ou raça ou que fale uma língua diferente. A globalização, ao tomar decisões econômicas sem levar em consideração as comunidades e os países, deixa nas mãos dos fundamentalistas um enorme banco de votos que eles podem explorar”.

Qualquer semelhança com situações que se conhece provavelmente não serão mera coincidência.

Quando perguntada sobre se vê a possibilidade de uma aliança entre formações de direita, como o PBJ e seus sósias nos EUA responde que “isso já aconteceu. Quando o presidente Bush anunciou seu programa de mísseis, o único país que realmente acolheu a ideia foi a Índia. A Índia de Buda, a Índia de Gandhi, até mesmo a Índia de Nehru, foi subitamente se aliando, no momento errado na história, às piores forças imperialistas militarizadas do mundo.

Provocada sobre o fato do governo indiano ter detonado armas nucleares, levando um mês depois a explosões similares no Paquistão e sobre como a globalização influencia este cenário, manifestou “a nuclearização de um subcontinente provê um senso de grandiosidade em um período em que as pessoas estão tendo uma profunda sensação de perda. Uma explosão nuclear foi usada como uma mostra substituta de poder masculino. Interessantemente, quando a Índia chamou sua bomba de “bomba hindu” e os paquistaneses chamaram sua bomba de “bomba islâmica”, elas eram as mesmas bombas. Um motivo pelo qual lancei Mulheres pela Diversidade, que é um movimento global de mulheres pela diversidade e pela paz, foi porque senti que estávamos nos acostumando com o estranho fenômeno dos homens no poder usando bombas como seus pequenos joguetes para mostrar que “Eu sou o mais esperto”, “Eu sou o mais forte”, “Eu sou o gênio científico”. Mas isso são totalmente monoculturas da mente”

Assim como as monoculturas agrícolas e outras variantes de monoculturas,

Sobre as declarações que os armazéns da Índia estão cheios, mas ao mesmo tempo houve um aumento da fome e incidentes com aqueles que têm fome. Parece contraditório. Armazéns cheios, pessoas famintas, ela revela que “começando com a globalização e com as pressões pela liberalização do comércio, a Índia foi impedida de permitir que os alimentos chegassem ao seu povo. Os gastos do governo com a movimentação e o transporte de grãos pelo país, das áreas que produzem muito para as que não produzem tanto, foram tratados como um subsídio que precisava acabar. Infelizmente, como resultado disso, os gastos do governo diminuíram, porque o Banco Mundial alterou o direito universal de ter acesso a alimentos em um esquema de estabelecimento de alvos. Estabelecer alvos é uma estratégia aficionada do Banco Mundial, dizendo que o esquema universal subsidiava os ricos. Você não deve subsidiar os ricos. Então vamos até aqueles pobres, realmente pobres. Isso fez aumentar o preço da comida a ponto de as pessoas não poderem pagar por ela. Como elas não compram comida, o chamado “off-take”, que significa ter de comprar dos armazéns, diminui e a movimentação dos grãos para. A armazenagem de 60 milhões de toneladas é o resultado de pessoas comprando menos. Mais e mais pessoas estão passando fome. Previmos isso quatro anos atrás”.

Não bastasse a questão de falta de renda, considerar custo de transporte como subsídio é de envergonhar.

O entrevistador David Barsamian é autor de vários livros, o último deles intitulado “Cultura e resistência” editado pela Ediouro.

Sobre o fato de ser descrita como “ecofeminista”, assevera Shiva que “nunca me senti muito bem com rótulos. O ecofeminismo mistura as coisas. É muito elegante, do meu ponto de vista. Ele deixa de lado muitos outros aspectos da minha pessoa e do que eu faço. Deixa de lado a parte do legado de casta lutadora dos meus pais. Meu nome, Shiva, foi dado por meus pais para apagar sua identidade de casta. Hoje, onde quer que eu ache discriminação por casta, eu vou lutar contra ela. Em nossa organização, nós nos certificamos de que temos muçulmanos, hindus e cristãos trabalhando juntos, não permitindo que quaisquer inflexibilidades mutilem nosso potencial como grupo. Mas, em um certo nível, realmente não me importo com o rótulo do ecofeminismo porque acho que a combinação do feminismo com a ecologia cria dois potenciais. Em primeiro lugar, vi o feminismo que não é ecológico tornar-se um novo opressor. Vi o ambientalismo que não é feminista o bastante, também se tornar um novo elitismo. O ecofeminismo previne essas duas novas formas de elitismo ao dizer “Não, o ecofeminismo trata da sociedade e da natureza. É sobre outros modos de pensar”. Não é possível ter apenas algumas mulheres no poder.”

Continua ela “veja a privatização da água nos EUA. Está sendo conduzida por grupos ambientalistas, só porque eles não pensam na sociedade. Eles pensam em uma espécie e dizem “OK, se puderem comprar a água daquele rio e salvar as espécies desta garganta em particular, por mim podem comprar que está tudo bem”. Eles não percebem como, nesse processo, estão criando todo um acordo político e social em torno de recursos naturais que será abusivo a milhões de outras espécies e, é claro, a milhões de nossos irmãos e irmãs neste planeta. Assim, o ecofeminismo, por estar intrinsecamente ligado à justiça social e aos limites ecológicos, é um bom termômetro para os tipos de problemas que vemos”.

Arguida sobre onde estão as brechas em que os ativistas possam entrar e deixar marcas mais profundas, ela manifestou que “a militarização é uma posição fraca. Geralmente a militarização é vista como uma força poderosa. Mas acredito que qualquer tipo de poder violento é fraco em última análise. Estou dizendo literalmente que, em termos de como eu pessoalmente experimento a vida, ela é a forma mais brutal de violência contra alguém como pessoa ou como comunidade e, assim, é sempre o jeito mais fácil de ser enfrentada porque acaba sendo extremamente rígida e perde sua flexibilidade, seu poder moral, sua base democrática. Essa é sua fraqueza. O segundo ponto fraco é estar tão distante da realidade que as projeções para o futuro de quanto comércio, crescimento e riqueza haverá são completamente erradas. Há mais doenças, mais fome, mais desemprego e essa realidade vivida é um barômetro que as pessoas têm em suas vidas. Quanto mais o sistema dominante imprime falsidade à sua fala e a experiência real das pessoas acontece de maneira diferente, a fraqueza do sistema de dominação aumentará”.

Sobre a necessidade de recuperar as propriedades públicas, explica que “as propriedades públicas são os espaços que precisamos manter como sistemas compartilhados, como sistemas de responsabilidade e direitos comuns, para fazer com que a vida se torne possível. Ecologicamente, sempre precisamos da água. Precisamos da biodiversidade. Os camponeses precisam de pastos. Os povos do Terceiro Mundo precisam de florestas e madeira para delas retirar matéria-prima e combustível. Esses são os sistemas que foram as propriedades públicas em termos de recursos naturais. Muito claramente, cada uma dessas propriedades públicas está sendo contida”.

Prossegue ela “minha luta contra o patenteamento e a engenharia genética é uma luta contra a extinção das propriedades públicas intelectuais e biológicas que são a base da sobrevivência da grande maioria dos povos do mundo. São também a base da diversidade e da riqueza cultural. A água está sendo contida por meio da privatização, e ela é uma propriedade pública. A atmosfera é uma propriedade pública que foi privatizada pela poluição dos combustíveis fósseis e pelas empresas produtoras de petróleo. Eles estão tomando para si o que não lhes pertence, e o usando como seu esgoto particular. Estão desestabilizando o clima para todos nós. Precisamos recuperar tudo isso como propriedades públicas sobre as quais temos controle coletivo. Estocar sementes é uma recuperação das propriedades públicas. Manter o conhecimento fora do domínio privatizado, o conhecimento de como usar o nim, o tamarindo, a pimenta e o arroz basmati é uma luta pela propriedade pública. A água é uma propriedade pública. Empresas possuem um lago em Maharashtra. Estão impedindo que as tribos, a cujo lago pertence, tenham acesso a ele para ter água potável”.

Para finalizar, o que lhe dá esperanças a ativista encerra “uma parte da esperança vem do fato de que os caminhos que foram traçados por essas monoculturas da mente monopolizadoras são tão não sustentáveis que algo terá de acontecer. Quando você industrializa e planta muito, há surtos de doenças. As pessoas quererão alimentos orgânicos, locais, como uma forma de fornecimento seguro. As alternativas são construídas na própria lógica do sistema porque este foi designado para falhar e conduzirá a uma catástrofe ambiental. O segundo motivo pelo qual eu tenho esperança é o trabalho que estamos fazendo. Começamos com passos pequenos. Onde quer que haja iniciativas para construir sistemas democráticos, justos e sustentáveis, eles estarão se espalhando rapidamente. As pessoas querem um outro mundo, e elas estão construindo esse outro mundo. O amor das pessoas pela liberdade é mais poderoso que qualquer autoridade coercitiva”.

Deseja se manifestar que embora se concorde com a dimensão existencial da abordagem, não se acredita que o socialismo possa resolver isto. A falta de democracia no socialismo do leste da Europa produziu uma das maiores hecatombes ambientais da história. Se divulga que a Alemanha ocidental, na época investiu dezenas de bilhões de marcos na recuperação ambiental da chamada Alemanha oriental,

A autopoiese sistêmica dominante necessita ser alterada. Pois hoje só o consumismo garante a manutenção dos círculos virtuosos da sociedade. Aumento de consumo gera maiores tributos e maior capacidade de intervenção estatal. E também maior lucratividade organizacional e manutenção das taxas de geração de ocupação e renda. Mas o esgotamento dos recursos naturais que a economia clássica insiste em denominar de “externalidades” faz com que o consumismo precise ser substituído pela idéia de satisfazer as necessidades dentro de ciclos.

Um outro mundo é possível, com a manutenção da livre iniciativa. Nada é contra a livre-iniciativa. Que sem dúvida sempre foi e parece que sempre será o sistema que melhor recepciona a liberdade e a democracia.

Mas uma nova autopoise sistêmica para o arranjo social, no sentido de novo arranjo de equilíbrio social, na acepção livre das concepções de Niklas Luhmann e Ulrich Beck é urgente e inadiável. Que corrija todas estas mazelas do consumismo como mola propulsora da sociedade. Conforme a própria encíclica papal sobre meio ambiente já diagnosticou.

A tradução é de Danielle Sales e a revisão de Daniela Álvares e a fonte original o site http://www.radicallivros.com.br

Referência: http://ideiaweb.org/?p=1131

 

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

Nota da Redação – Leiam, ainda, o artigo anterior desta série:

As monoculturas da mente, Parte 1/3

As monoculturas da mente, Parte 2/3

 

 

in EcoDebate, 12/08/2016

[cite]

 

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