O meio ambiente através da poética pantaneira de Manoel de Barros em Poesia Completa, artigo de Elissandro dos Santos Santana

resenha

O meio ambiente através da poética pantaneira de Manoel de Barros em Poesia Completa

Elissandro dos Santos Santana1

[EcoDebate] A Poesia Completa, obra de Manoel de Barros, o grande poeta pantaneiro, está repleta de elementos que possibilitam ao leitor reflexões acerca das questões ambientais do Pantanal e, também, em torno da situação pela qual passa a natureza em outras partes do Brasil e do mundo.

A maior lição, talvez, que se pode obter a partir da obra em baila é a necessidade de religação do homem com a grande Mãe Terra, haja vista que toda a poesia em torno desse livro é construída pelo entrosamento entre homem e terra como elemento central para a poética da vida e da existência.

A partir de Poesia Completa, verifica-se que o processo de criação literária de Barros sofreu influências de sua empiria e vida no Pantanal. Foi a partir das experiências do poeta que toda a poesia se costurou em coadunação com as cores locais do Pantanal. Poesia Completa e toda a obra de Barros comportam um saber local que serve como ponte para saberes globais, pois por meio da realidade pantaneira é possível pensar o mundo.

Levando-se em conta a Poesia Completa, constata-se que a região pantaneira foi matéria para a poesia do grande poeta do chão. Através e, pelos olhos do Pantanal, Barros produziu os Poemas concebidos sem pecado, o Compêndio para uso dos pássaros, a Gramática expositiva do chão, Arranjos para assobio, Livro de pré-coisas, O guardador de águas, Concerto a céu aberto para solos de ave, Poemas rupestres, Menino do Mato, Escritos em verbal de ave, Exercícios de ser criança, O fazedor de amanhecer, Cantigas por um passarinho à toa e tantos outros.

A poesia do referido poeta é reveladora de saberes ambientais, sociais, geográficos, históricos, políticos e antropológicos.

Em Gramática Expositiva do Chão, por exemplo, são muitas as reflexões que se podem fazer em torno das questões ambientais, discussões urgentes para um mundo em crise socioambiental. Na referida gramática, tem-se o Protocolo Vegetal, no qual o eu-lírico discorre acerca do que se trata o próprio protocolo, mencionando que é um episódio que possibilitou a descoberta de um caderno de poemas. Nessa construção poética pantaneira, segundo o eu-lírico presente na obra, 29 escritos para conhecimento do chão através de São Francisco de Assis, Protocolo Vegetal, Retrato do artista quando coisa, A criatura sem o criador e Você é um homem ou um abridor de lata.

Nos 29 escritos para conhecimento do chão através de São Francisco de Assis, o eu-lírico, de forma simples e profunda, mostra a relação do homem com a natureza, desconstruindo a noção equivocada de que o homem estaria dissociado do meio ambiente, apresentando as interações, intersecções homem-bicho, bicho-homem, homem-bicho-natureza.

Alguns versos em Gramática expositiva do chão que retratam a interseção homem-bicho, bicho-homem, homem-bicho-natureza:

Em III. Páginas 13, 15 e 16 dos “29 escritos para conhecimento do chão através de S. Francisco de Assis”:

O chão viça do homem

no olho

do pássaro, viça

nas pernas

do lagarto

e na pedra

Na pedra

o homem empeça

de colear

Colear

advém de lagarto

e não incorre em pássaro…

O homem se arrasta

de árvore

escorre de caracol

nos vergéis

do poema

O homem se arrasta

de ostra

nas paredes

do mar

O homem

é recolhido como destroços

de ostras, traços de pássaros

surdos, comidos de mar

O homem

se incrusta de árvore

na pedra

do mar.

Nos versos acima, o eu-lírico demonstra consciência de que na natureza tudo se integra, de que tudo é parte de um todo, arvorado na teoria da complexidade.

Em II. O homem de lata, o leitor depara-se com um eu-lírico crítico e cônscio das transformações que o homem provoca na terra, mas, também, de forma esperançosa, que o homem, ao passo que destrói, também pode construir e cooperar com a natureza da qual se serve.

Fragmentos de O homem de lata

O homem de lata

arboriza por dois buracos

no rosto

O homem de lata

é armado de pregos

e tem natureza de enguia

O homem de lata

traz para a terra

o que seu avô

era de lagarto

o que sua mãe

era de pedra

e o que sua casa

estava debaixo de uma pedra

O homem de lata

é uma condição de lata

e morre de lata

Poesia Completa, de Manoel de Barros, por todos os saberes que abarca e revela, possui relação direta com o que afirma Barthes (1980, p. 18) em torno dos saberes e dimensão da literatura: A literatura assume muitos saberes. Num romance como Robinson Crusoé, há um saber histórico, geográfico, social (colonial), técnico, botânico, antropológico (Robinson passa da natureza à cultura). Se, por não sei que excesso de socialismo ou de barbárie, todas as nossas disciplinas devessem ser expulsas do ensino, exceto numa, é a disciplina literária que devia ser salva, pois todas as ciências estão presentes no monumento literário. Em Poesia Completa há essas passagens, do homem à natureza e vice-versa, das simbologias da cultura do povo local na construção da natureza do Pantanal e, em especial, do papel da natureza na construção do homem e da sociedade pantaneira.

A obra em questão é uma oportunidade para compreender o próprio papel da literatura na construção da sociedade e do meio ambiente no qual essa sociedade se insere. Acerca da relação literatura, sociedade e meio ambiente, um livro bastante interessante e importante que ajuda a entender o que é a literatura e qual a sua importância para a sociedade é Literatura e Sociedade. Nessa obra, no capítulo A literatura na evolução de uma comunidade, Candido (2011, p. 147) tece algumas considerações que ajudam na compreensão não somente do termo literatura, mas, também, na concepção do que é o texto literário, quando pontua: Com efeito, entendemos por literatura, neste contexto, fatos eminentemente associativos; obras e atitudes que exprimem certas relações dos homens entre si, e que, tomadas em conjunto, representam uma socialização dos seus impulsos íntimos. Toda obra é pessoal, única e insubstituível, na medida em que brota de uma confidência, um esforço de pensamento, um assomo de intuição, tornando-se uma “expressão”. A literatura, porém, é coletiva, na medida em que requer certa comunhão de meios expressivos (a palavra, a imagem), e mobiliza afinidades profundas que congregam os homens de um lugar e de um momento, para chegar a uma “comunicação”. Assim, não há literatura enquanto não houver esta congregação espiritual e formal, manifestando-se por meio de homens pertencentes a um grupo (embora ideal), segundo um estilo (embora nem sempre tenham consciência dele); enquanto não houver um sistema de valores que enforme a sua produção e dê sentido à sua atividade; enquanto não houver outros homens (um público) aptos a criar ressonância a uma e outra; enquanto, finalmente, não se estabelecer a continuidade (uma transmissão e uma herança), que signifique a integridade do espírito criador na dimensão do tempo.

Cotejando-se o que apregoa Candido com Poesia Completa, de Manoel de Barros, para além das construções que Candido faz em torno da relação literatura-sociedade, pode-se perceber que no processo de criação literária de Manuel de Barros, o poeta capta uma relação estreita entre o próprio fazer da literatura com o homem e a terra. Na obra em questão, humanidade, sociedade e natureza são tomadas como dimensões coletivas de um todo e a natureza é sempre o elemento central de partida para a construção do próprio homem que, ao habitar o Pantanal, o transforma, a partir das construções e empirias culturais no próprio lócus do qual faz parte.

Referências bibliográficas

BARTHES, Roland. Aula. São Paulo: Cultrix, 2013.

CANDIDO, Antonio. Literatura e Sociedade. Estudos de Teoria e História Literária. 12. ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2011.

1 Especialista em sustentabilidade, desenvolvimento e gestão de projetos sociais, especialista em gestão educacional, especialista em linguística e ensino de línguas, especialista em metodologia de ensino de língua espanhola, licenciado em letras, habilitado em línguas estrangeiras modernas, espanhol e membro editorial da Revista Letrando, ISSN 2317-0735.

Contato: lissandrosantana@hotmail.com

 

in EcoDebate, 12/08/2016

[cite]

 

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