Pagamos tanto por lixo quanto por alimentos, artigo de Raimundo Nonato Brabo Alves

 

Quando a maioria das prefeituras não cumpriu o prazo para o cumprimento da Política Nacional de Resíduos Sólidos a sociedade continua a ser a crescente mina de rejeitos

 

artigo

 

[EcoDebate] Este assunto já foi tema de crônica anterior de minha autoria em A SOCIEDADE PLASTIFICADA em que relato minha experiência com a transição da vida simples numa cidade considerada periférica – sem produção de lixo – para a sociedade “de consumo”.

Segundo conceitos de marketing, o primeiro impulso de consumo do homem é visual e as embalagens representam hoje um componente importante de valorização de um produto, podendo mesmo representar o seu sucesso ou insucesso de vendas no mercado, exercendo forte influencia no comportamento do consumidor. A importância das embalagens aumentou mais ainda quando as empresas perceberam que havia um mercado espetacular ávido por consumo até então inexplorado: o mercado infantil.

As embalagens deveriam ser um meio e não um fim pelo fato de não ser o produto em si, mas apenas um recipiente do produto final, este sim objeto das necessidades e desejos do consumidor. Contudo a maioria dos consumidores não sabe que embutido no preço do produto, vai uma parcela significativa dos custos equivalente as embalagens, algumas vezes superando o valor do produto propriamente dito. Com o consumo exacerbado, o que o consumidor não sabe é que o preço desta conta é pago em dobro: pelo valor da embalagem diretamente embutida no custo do produto e pela coleta do lixo decorrente do descarte desta embalagem.

O fracionamento de produtos eleva o seu custo. Por exemplo, o consumo de um produto em frascos de 100 a 300 ml pode ficar até 10% mais caro, que se consumido em frascos de 1.000 a 5.000 ml. Um exemplo é o consumo de água mineral. Além de elevar o custo aumenta a produção de lixo com as embalagens “descartáveis”.

As embalagens “modernas” permitiram que a produção de alimentos passasse ao controle de poucas empresas no mundo, eliminando a prática salutar da maioria dos pequenos agricultores de fornecer seus produtos diretamente aos consumidores, como era feito no passado. Embalagens provocativas que estimulam de imediato o consumo, muitas vezes de produtos não tão saborosos e nutritivos como os anúncios dizem ser, permitiram sua distribuição nas regiões mais remotas da Amazônia. Hoje no meio rural e nas pequenas cidades da região o lixo já é um fato e a obesidade um problema de saúde pública.

Vejamos o que acontece com os produtos de consumo massificados. No refrigerante de R$ 3,00, 90% é custo do líquido, 10% é embalagem. Na água mineral com preço de R$ 1,00, 20% é custo do líquido 80% é embalagem. Uma grande embaladora de leite afirma que a embalagem corresponde a 17% do custo de um litro do leite longa vida.

Segundo afirma Andrea Vialli em matéria no Estado de São Paulo, a produção de lixo no Brasil cresceu em 2010 6,8% em relação a 2009, enquanto que a coleta seletiva apenas 1,6%. A consequência é o descarte inadequado do lixo em aterro a céu aberto. Em plena região metropolitana de Belém, o lixão do Aurá é uma verdadeira bomba relógio, ameaçando com a contaminação de chorume os mananciais que abastecem de água toda a região metropolitana.

Pagamos um preço muito caro pelas embalagens, considerando a efemeridade em que elas nos são útil e seu longo período para degradação no meio ambiente. Principalmente agora com a ameaça a saúde dos seres vivos com uma substância componente dos plásticos conhecida como Bisfenol A, já proibida no Canadá, Dinamarca, Costa Rica e em alguns estados nos Estados Unidos. Segundo pesquisas esta substância de tamanho nanométrico entra na corrente sanguínea e se confunde com o estrogênio, confundindo todo o sistema hormonal do ser humano. As mesmas pesquisas revelam que os peixes também confundem o Bisfenol A com o plâncton no mar.

De copos descartáveis a sacolas plásticas de supermercados. Do isopor de proteção de geladeiras a fibras sintéticas de proteção de eletrodomésticos. É muito lixo gerado diariamente nas grandes cidades, onerando o orçamento das prefeituras, subtraindo investimentos em saúde e educação. A concepção moderna de um plano de marketing deve continuar levando em conta todos os impulsos do consumidor. Mas principalmente uma nova condição biodegradável da embalagem deve ser objeto de pesquisas, considerando a sua adequação ao meio ambiente, evidentemente sem deixar de perseguir a redução de seu custo no produto final. A coleta seletiva é cara e de difícil organização logística e a reciclagem é consumidora de energia.

Raimundo Nonato Brabo Alves é Pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental

 

Publicado no Portal EcoDebate, 10/11/2014


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Um comentário em “Pagamos tanto por lixo quanto por alimentos, artigo de Raimundo Nonato Brabo Alves

  1. Uma coisa que seria muito legal seria se no Brasil existisse a cultura da embalagem retornável. Havia quando eu era criança, pelo menos para refrigerantes e cervejas, mas hoje em dia, já não se vê mais. A possibilidade de retornar a embalagem e se ter um desconto no produto final diminuia a quantidade de lixo, e poderia ser usada para muitas coisas… não só refrigerantes e cervejas, mas também para leite, água (se bem que a melhor água é a da torneira com um bom filtro, sem embalagem nenhuma), detergentes… quase todos os líquidos. Se a idéia de se comprar farinhas e produtos secos em vidros trazidos de casa pegasse no país também seria uma boa.

    Isso beneficiaria a natureza (pela diminuição do lixo), o consumidor (que teria desconto no produto, pois não seria necessário pagar pela embalagem, só pela recolha e lavagem das mesmas), e para a empresa (como cada embalagem é diferente, a fidelização do cliente é garantida). Sei que a parte de redistribuição e lavagem de embalagens é um tanto complicada na logística, mas gostaria de ver empresas brasileiras investindo nisso, e elas teriam uma chance muito maior que as outras de receberem meu dinheiro.

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