Lula e Dilma só vêem o que querem no São Francisco, artigo de Ruben Siqueira

O deputado Ciro Gomes, o presidente Lula, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, e o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, durante visita às obras de integração do São Francisco Foto: Ricardo Stuckert/PR
O deputado Ciro Gomes, o presidente Lula, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, e o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, durante visita às obras de integração do São Francisco Foto: Ricardo Stuckert/PR

[EcoDebate] A visita de Lula e Dilma pelas obras da revitalização e da transposição do rio São Francisco confirma as suspeitas sobre as razões político-eleitorais destes projetos. E não é só pelo grande séquito de políticos acompanhantes, entre os quais oito governadores, e o pelotão de jornalistas convidados, entre os quais muitos estrangeiros. Adiada, bem preparada, a visita está sendo chamada de “Coluna” pela imprensa, numa suspeita evocação da “Coluna Prestes” dos anos 30. E não falta repórter que lembre JK em inspeção de obras nos anos 50. Em Pernambuco, a dupla vai dormir em acampamento de peões e sortear casas para famílias desalojadas pelos canais.

Mas, ontem em Buritizeiro-MG, um grupo de 50 manifestantes que questionavam as obras tiveram seus panfletos e faixas apreendidos por órgãos de segurança e só puderam se juntar aos que assistiam ao comício depois de serem fichados. A irritação de Lula era visível diante dos gritos “Lula, que traição, o povo não quer transposição!”. O cancelamento da visita a Pirapora, do outro lado do rio, teve razões que não eram o alegado “excesso de compromissos”: lá está a única estação de tratamento de esgoto concluída na calha do rio, mas o prefeito é do DEM e duas outras obras do PAC estão empacadas…

Evidente cada vez mais que Lula quer muito além do que só fazer sua sucessora à difícil Dilma, quer mandar por longo período, o suficiente para se tornar o maior mito político da história do Brasil, país que é a sua cara… Para tanto, o popularíssimo presidente, ex-retirante da seca e grande liderança dos trabalhadores e da esquerda vai “resolver o problema da seca”, um dos nós do país. É quase como mudar a natureza… A vistosa obra da transposição é um “achado” do ponto de vista do marketing e da costura política e econômica. Não só cabala votos, mas encanta as ainda poderosas oligarquias nordestinas e atrai abastados doadores de campanha como as empresas envolvidas na construção e no usufruto do projeto público, poderosas empreiteiras e aquelas não menos do agro e do hidronegócio.

Lula está atrás de uma perigosa unanimidade, vende os “benefícios” dela à direita e à esquerda e ao populacho “nunca antes na história deste país” tão deseducado politicamente… O perigo está também em que o mais ou menos sutil cerceamento da liberdade de opinião e manifestação se torne dura repressão. “Pais da Pátria” quase sempre acabam ditadores.

Ruben Siqueira, Sociólogo, Agente Pastoral da CPT na Bacia do Rio São Francisco, colaborador e articulista do EcoDebate.

EcoDebate, 16/10/2009

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8 comentários em “Lula e Dilma só vêem o que querem no São Francisco, artigo de Ruben Siqueira

  1. É lamentável que se permita que um governante use o cargo para fazer campanha política.
    Cada vez que vejo uma propaganda da prefeitura, do governo do estado ou do governo do país na televisão em horário nobre, fico pensando em como esse dinheiro seria muito melhor aplicado se usado em finalidades mais nobres.
    No entanto, há que se separar o joio do trigo. A visita de Lula e de Dilma às obras do PAC, não obstante seu inegável caráter eleitoreiro, tem também o objetivo de mostrar a presença do estado em obras de importância.
    Durante a construção de Brasília, JK ia quase todos os dias ao canteiro de obras da futura capital. Como se dizia antigamente, “o olho do dono engorda o gado”.
    Quanto às suspeitas de que a transposição do rio São Francisco seria uma obra eleitoreira, quero fazer o meu mais veemente protesto.
    Tal qual a construção de Brasília, que fez parte dos planos dos inconfidentes, mas só foi concretizada em 1960, os estudos para a transposição de águas do rio São Francisco para o Nordeste Setentrional foram iniciados oficialmente em 1847, mas há relatos de que D. João VI, quando esteve com sua corte no Brasil, encomendou estudos nesse sentido e somente agora estão se concretizando.
    É inimaginável que um projeto que foi tão combatido e que enfrentou tantos problemas na Justiça antes de ter autorizada sua execução tivesse propósitos apenas eleitorais. Não é uma obra para “resolver o problema da seca”, pois seria o mesmo que tentar resolver o problema do gelo no polo Norte. Trata-se de uma obra que pretende criar condições para fixar o nordestino em seu torrão natal. Quanto à crítica de que a obra “atrai abastados doadores de campanha como as empresas envolvidas na construção e no usufruto do projeto público”, quero fazer apenas uma observação. As críticas ao projeto tiveram um lado positivo: chamaram a atenção do TCU para o projeto. Não me recordo de ter visto uma obra tão fiscalizada não apenas pelo TCU, mas por ONGs, movimentos populares, Controladoria Geral da União, Congresso Nacional, partidos de oposição, ambientalistas e dos eternos opositores de qualquer governo.

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