Seca X Enchente. Quem causa maior dano a geo economia do RN, artigo de Eugênio Fonseca Pimentel

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[EcoDebate] A concepção antiga e ainda acreditada por muitos, de que a ocorrência periódica da “seca” é o principal entrave para o desenvolvimento do Rio Grande do Norte e também outros estados nordestinos, é uma concepção arcaica, errônea e deve ser modificada. De um modo simples e pragmático podemos deduzir que esta concepção não é correta respondendo de forma simples e resumida as seguintes indagações:

O turismo no qual o nosso RN possui extraordinário potencial e que nos últimos anos tem contribuído bastante para o bom desempenho social e econômico do RN no cenário nordestino se coaduna com a presença de chuvas em período de tempo longo? Não. Chovendo muito as atividades turísticas em todo estado diminui consideravelmente. Assim sendo, a ocorrência periódica das secas não é o entrave para o desenvolvimento desta importante atividade econômica que é responsável, direta e indiretamente pela geração de milhares de emprego e renda para a população potiguar. Esta atividade econômica que distribui recursos financeiros e cultura desponta como a de maior capacidade para se gerar emprego e renda para o RN.

A produção de Sal do qual o RN é responsável por cerca de 90% da produção brasileira se coaduna com a presença de chuvas? Também não. Nos períodos chuvosos, Janeiro a Abril na região, a produção de sal diminui consideravelmente. Se chover muito e por um período de tempo prolongado, a intensa insolação diminui consideravelmente, acarretando com isso a diminuição da produção deste produto que na sua produção gera emprego e renda muito maior em época de estiagem. Por seguinte a ocorrência do fenômeno natural das secas periódicas não é problema para o desenvolvimento desta importante atividade econômica que gera expressivo volume de divisa para o RN.

A produção de frutas tropicais se coaduna com a presença abundante de chuvas? Também não. Chovendo, as plantações de melões, principal fruto para exportação de nossa região tem que ser pulverizadas com defensivos agrícolas, principalmente fungicidas, aumentando com isso os custos de produção. A seca não é o entrave para o desenvolvimento desta também importante atividade econômica do RN. Muito pelo contrário, as empresas deste ramo de atividade, paralisam sua produção nos meses chuvosos que são os primeiros quatro meses do ano. Nosso Estado exporta expressiva quantidade de frutas tropicais para outros Estados do Brasil e paises da América do Norte e Europa, gerando com isso, divisa, emprego e renda para a população do nosso pequeno RN.

A produção de produtos cerâmicos tais como tijolos, telhas, lajotas etc. da qual o RN exporta para outros Estados nordestinos se coaduna com chuvas? Também não, em períodos chuvosos a produção cai consideravelmente. Assim sendo a seca não constitui um problema que possa inibir a produção de produtos cerâmicos. Muito pelo contrario a produção anual aumenta quando da presença de uma estiagem.

A produção mineral em garimpo a céu aberto, tais como scheelita, tantalita-columbita, berilo, água marinha, feldspato, caulim entre outras jazidas minerais se coaduna com a presença abundante de chuvas? Também não. Em períodos chuvosos os garimpo a céu aberto ficam cheios d’água impossibilitando a sua exploração através da simples garimpagem. Os garimpo necessitam de água para a sua exploração, mas não em grande volume. A seca não é problema para produção de minérios.

A carcinicultura – Criação de camarão em cativeiro que contribui significa mente para o desempenho da pauta de exportação do RN, gerando emprego e renda para a região da certo com abundancia de chuva? Também não. Quando começa a chover muito os carcinicultores ficam apreensivos temendo destruição dos tanques e mesmo se o volume das chuvas não seja suficiente para destruir os tanques há uma diminuição da produção de camarão nos anos de inverno rigorosos. Os carcinicultores rezam para que a barragem do Açu não sangre com cota superior a 2 metros.

A produção pesqueira, especialmente a pesca da lagosta e peixes no litoral depende da presença de chuva para a sua produção? Também não. O RN exporta lagosta, atum, camarões em considerável quantidade para o exterior. A seca também não é problema para produção pesqueira, que gera emprego e renda para as populações litorâneas potiguar.

A produção de pó extraído da palha da carnaúba se coaduna com a presença abundante de chuvas? Também não, em períodos chuvosos esta atividade é impraticável, uma vez que, para as palhas secarem há necessidade da energia calorífica do sol. A carnaúba necessita de chuvas para sobreviverem, mas não em demasia. Meu pai sócio gerente da Carvalho & Cia exportava pelo porto de Fortaleza, na década de 60, apreciável quantidade deste produto genuinamente do nordeste do Brasil para os Estados Unidos. Atualmente o RN exporta para o Ceará, que depois daí é exportado para o exterior.. A seca até certo ponto não é problema para produção de cera de carnaúba.

A produção de petróleo e gás natural no qual o RN é o segundo produtor nacional depende da presença de chuvas? Também não. A produção de petróleo independe da presença de chuvas e se comporta de forma indiferente. As enchentes até certo ponto atrapalham um pouco esta produção, uma vez que alguns “cavalos de pau ou mecânicos” situados no leito do rio Açu param devido a presença de correnteza d”água em uma enchente, deixando assim de extrair petróleo e diminuindo a produção nacional.

A produção de produtos artesanais depende da presença de chuvas? Também não. A seca não é problema para esta atividade econômica que gera milhares de emprego e renda para nossa região.

As atividades Industriais que segundo o IPEA, Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada, 1999, corresponde a 43,27% do PIB do RN depende da abundancia de chuvas para o seu desenvolvimento? Também não. Essa atividade econômica se comporta de um certo modo indiferente. Todavia de uma certa forma as intensas chuvas atrapalham um pouco o desempenho das industrias.

As atividades Comerciais e Serviços que segundo o IPEA corresponde a 47,29% do PIB do RN dependem de chuvas para se desenvolver? Também não. Essas atividades econômicas se comportam de um certo modo indiferente. Mas de uma certa forma as intensas chuvas atrapalham um pouco o desempenho desta importante atividade econômica.

A agricultura/Pecuária que segundo dados do IPEA, corresponde a apenas 9.44% do PIB do RN depende da regularidade das chuvas para o seu desenvolvimento? Sim. A agricultura e pecuária dependem bastante da regularidade das chuvas para o seu desenvolvimento, mas, todavia não depende da transposição.

Josué de Castro, médico pernambucano, reconhecido mundialmente, no seu celebre livro Geografia da Fome, Editora Brasiliense, 1967, 10º edição, pagina 242, na época desta edição, proibida de circular nas livrarias brasileira pelo então regime da Ditadura Militar, descreve as seguintes linhas que eu considero de fundamental importância para a ciência da população brasileira, que se interessa em conhecer em maior profundidade o nosso nordeste brasileiro:

Pelo Brasil afora se tem a idéia apressada e simplista que o fenômeno da fome no Nordeste é produto exclusivo da irregularidade e inclemência de seu clima. De tudo é causado pela secas que periodicamente desorganizam a economia da região. Nada mais longe da verdade. Nem todo o Nordeste é seco, nem a seca é tudo, mesmo na área do sertão. Há tempos que nós batemos para demonstrar, para incutir na consciência nacional o fato que a seca não é o principal fator de pobreza ou da fome nordestina. Que é apenas um fator de agravamento da situação, cujas causas são outras. São causas mais ligadas ao arcabouço social do que aos acidentes naturais e as condições ou bases físicas da região.

A população rural do RN, que corresponde apenas a 26.71% da população total do estado RN que é segundo censo IBGE-2000 de apenas 2.770.730 habitantes, ou seja, a metade da população do município do Rio de Janeiro que foi no censo2000 de 5.551.965 habitantes. É importante lembrar que a população rural que sobrevive da agricultura e pecuária é a que mais sofre com os efeitos da seca. Só que a construção por parte do governo de uma cisterna de placa com 16 m3 (16.000 litros), como esta incentivando as Cáritas Brasileiras, em uma residência ou uma perfuração de um poço em uma propriedade rural traria muito mais benefício a estes cidadãos do que a polemica transposição em questão. A perfuração de poços e construção de cisternas empregam pessoas muitas vezes desempregadas da região. A caritas brasileira, órgão da igreja católica, esta desenvolvendo no nordeste brasileiro um excelente trabalho no que diz respeito a incentivação da construção de um milhão cisternas de placas. Essas cisternas são praticas e funcionais, pois ficam ao lado das residências dos cidadãos ruralistas. Segundo dados do Banco do Nordeste do Brasil estas cisternas com capacidade de armazenamento em média de 16 mil litros, conseguem suprir a necessidade básica de uma família de sete pessoas por um período de tempo de um ano de água potável para consumo humano. As mesmas são baratas, custam entre R$ 1.000,00 e 1.500,00 reais. É importante lembrar que no nordeste em um período de um ano sempre há ocorrência de chuva. Nunca passou um ano sem chover nesta região. Pode chover pouco, mas chove anualmente.

No que diz respeito a perfuração de poços artesianos ou profundos, um metro linear de um poço perfurado e revestido, ou seja, um poço pronto por uma empresa privada, seja esse poço perfurado em rochas ígneas do embasamento ou sedimentares das bacias sedimentares custa em média, atualmente, R$ 200,00 (duzentos reais reais). Seu efeito é imediato no que tanje a obtenção de água. Acrescentando mais informação, quase totalidade de poços antigos efetuados pelo DNOCS em território geologicamente situado no embasamento cristalino possui no RN uma profundidade média em torno de 60 a 70 metros.

Para a exploração dos poços artesianos ou profundos, os proprietários rurais teriam que gastar com energia seja essa energia elétrica ou não. Se for com energia elétrica o governo deve arrecadar ICMS pela energia gasta na exploração aqui no nosso território. Na transposição seria o contrario, o estado do RN é que teria que pagar a quantia de cinco (cinco) centavos por cada m3 ou 1.000 litros d’água importado, conforme trabalho publicado no jornal Diário de Natal em 13/01/99 efetuado por João Abner Guimarães Júnior, hidrólogo, Phd, professor de Hidrologia e Irrigação da UFRN, na qual tive a oportunidade de discutir sobre este mesmo assunto.

SINOPSE PRELIMINAR DO ASPECTO GEO ECONOMICO DO RN
Eugênio Fonseca Pimentel
Geólogo pesquisador da Agenda 21 Local
Gestor Ambiental e Agente Ambiental Voluntário do RN – AAV

EcoDebate, 14/07/2009

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