A saída da crise é pela agricultura, artigo de Celso Marcatto

[O Globo] O racionamento de comida em mercados norte-americanos e os impactos sentidos em vários países, como distúrbios no Haiti, pelo aumento do custo da cesta básica são indicadores da gravidade da crise mundial de alimentos. Em termos globais, os preços dos alimentos sofreram um aumento médio de 40%. A redução dos estoques internacionais de trigo (-9,9%), milho (-4,8%) e soja (-22,0%) indicam que a produção atual — ainda que venha aumentando ano a ano — não tem sido suficiente para atender à demanda mundial.

As causas vão desde o aumento do custo de produção devido ao preço do petróleo até condições climatológicas adversas. Uma das razões está relacionada com o crescimento econômico na China, na Índia, no Brasil e em outros países. Com a ampliação do poder aquisitivo, um expressivo contingente de famílias passou a consumir mais alimentos, como grãos e carnes.

Soma-se às causas a crescente utilização de grãos, como milho e soja, para produção de agrocombustíveis. Hoje no Brasil existem 7 milhões de hectares destinados ao plantio da cana-de-açúcar.

Até 2015 deverão ser 12 milhões, também em função de investimentos pesados na produção de etanol e de biodiesel.

É evidente que tais investimentos vão provocar impactos ecológicos e sociais igualmente violentos.

Sob o aspecto do desenvolvimento humano, o aumento mundial dos preços dos alimentos põe em risco a segurança e a soberania alimentar de uma parcela significativa da população mundial, comprometendo os poucos avanços conquistados até agora na redução do número de 854 milhões de pessoas que passam fome. Sob esse ponto de vista, a crise atual deixa claro o quanto o mundo está vulnerável e quanto os objetivos do Milênio podem estar comprometidos, inclusive no Brasil, um dos poucos países a cumprir antecipadamente o objetivo de reduzir em 50% o número de pessoas abaixo da linha da pobreza: de 14 milhões para 7,5 milhões de pessoas.

Mas a resposta para a presente crise não está na simples ampliação da produção global de alimentos.

O acesso aos alimentos disponíveis ainda é uma questão central a ser equacionada, principalmente nos países em desenvolvimento. Com exceção de regiões que passam por revoluções, guerras e catástrofes naturais (maremotos, furacões, enchentes, secas etc.), parte considerável das pessoas que estão na condição de insegurança alimentar no mundo não está por falta de alimentos disponíveis, mas por falta de recursos — dinheiro, terra e meios de produção — que permitam acesso a esses alimentos — adquirir, produzir, trocar.

A chamada “revolução verde”, modelo de produção agrícola — baseado na produção em grandes propriedades de monocultivos para exportação, a partir da utilização intensiva de insumos industriais, como adubos químicos, venenos e sementes de alta produtividade — não tem conseguido dar resposta à questão do acesso aos alimentos. Ao contrário, onde o modelo se implantou, ocorreu aumento da concentração da renda e dos meios de produção, com reflexos significativos na ampliação da insegurança alimentar e nutricional da população pobre. Há exemplos de impactos econômicos, sociais e ambientais negativos, substituição das florestas por monocultivos, erosão de solos e assoreamento de rios e lagos, contaminação de águas e alimentos com agroquímicos, empobrecimento dos pequenos produtores e das comunidades que vivem da agricultura familiar.

A revolução realmente necessária no mundo atual é aquela que amplie a produção sustentável e diversificada de alimentos, ao mesmo tempo que facilite o acesso a esses alimentos. Nesse sentido, os números da agricultura familiar no Brasil são impressionantes: dados do Ministério do Desenvolvimento Agrário mostram que os 4 milhões de estabelecimentos rurais familiares, ocupando uma área de cerca de 100 milhões de hectares, são responsáveis pela produção de mais de 60% dos alimentos consumidos internamente no Brasil.

Com o devido incentivo de crédito, acesso a terras, à tecnologia, aos demais meios de produção e aos mercados, a agricultura familiar pode promover ainda mais um conjunto de serviços que vão além da produção de alimentos. Sua característica de distribuição de renda e de geração de empregos possibilita que milhões de pessoas tenham acesso aos alimentos. Além disso, contribui com os processos de conservação de solos e águas, manejo sustentável da biodiversidade, produção de biomassa, cujo valor para as gerações presentes e futuras é incalculável.

Para que os pequenos agricultores exerçam melhor suas múltiplas funções estratégicas para a sociedade é preciso dar-lhes condições e fortalecê-los enquanto produtores. No passado, continentes inteiros, como a Europa, foram reerguidos do pós-guerra com a ativa contribuição da agricultura familiar. Hoje, a agricultura familiar se apresenta como a resposta mais sustentável à crise mundial de alimentos.

Artigo originalmente publicado pelo O Globo, 01/05/2008.

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