A propósito da interligação do setor elétrico brasileiro

 

A propósito da interligação do setor elétrico brasileiro, artigo de João Suassuna

A água é um bem natural comum e essencial à vida, cuja busca deve ocorrer com muito planejamento e o seu uso realizado com a devida parcimônia

usina de xingó

Hidrelétrica do Xingó. Nota-se, a esquerda da barragem, o espaço físico para a complementação da motorização da usina. Imagem do Google. 

Atualmente, o sistema brasileiro de geração de energia via hidrelétricas é todo interligado. Essa prática, extremamente importante para tentar suportar os períodos de baixa capacidade nos reservatórios, tão comuns em tempos de estiagem, consiste na entrada, no sistema, de hidrelétricas que estejam com volume suficiente de água acumulada para isso e em condições satisfatórias de operação, enquanto reservatórios situados em regiões anteriormente problemáticas recuperam suas reservas hídricas e voltam a contribuir com o sistema.

A existência dessa via de mão dupla – demanda x hidrologia – vem transmitindo, às autoridades brasileiras, porém, a ideia de que a interligação do sistema elétrico é a alternativa mais plausível para os graves problemas de geração de energia que vêm ocorrendo com certa frequência, em todo território nacional. Mas não é isso o que a prática, vem demonstrando. Falta aos responsáveis pelo nosso setor elétrico, uma maior sensibilidade no trato com as questões climáticas, sobretudo em relação às estiagens prolongadas, que anteriormente se restringiam ao Nordeste do país e que, agora, se manifestam em todo o território nacional.

O clima brasileiro vem mudando de forma assustadora e o Brasil padecendo por isso! A prova é o atual cenário dos reservatórios das hidrelétricas do Sudeste/Centro-Oeste, as mais importantes do país em termos de geração de energia, com capacidade para acumular 70% dos volumes das hidrelétricas brasileiras, e que, atualmente, (07/04/2021), no final da quadra chuvosa daquelas regiões, apresentam percentual de acumulação da ordem de 35,55%, apenas, com tendência a caírem até o final de outubro, período no qual se inicia novo período chuvoso.

O baixo nível dos reservatórios não é resultado, apenas, da ocorrência de estiagens prolongadas na região, mas, sim, de uma sucessão de problemas. No caso em questão, além dos ditames climáticos, há de se colocar em discussão, também, na complicada equação, a gestão hídrica dos volumes acumulados nos reservatórios, dentre os quais os da bacia do Rio São Francisco são emblemáticos.

Após a construção da represa de Sobradinho, em finais dos anos 70 do século passado, as vazões do Rio São Francisco se tornaram artificiais e dependentes da abertura e do fechamento de comportas dos reservatórios. A manobra tornou obrigatória a existência de gestão hídrica eficiente na condução do processo, o que, na prática, não vem ocorrendo, acarretando, inclusive, reflexos negativos na geração de energia pela Chesf.

Em 2011, publiquei um artigo no portal da Fundação Joaquim Nabuco, intitulado “Potencialidades volumétricas atuais do Rio São Francisco para o atendimento aos seus múltiplos e conflituosos usos”, tratando, dentre outros assuntos, de um encontro promovido pela FUNDAJ sobre as questões energéticas do Nordeste. Na ocasião, o Engenheiro João Paulo Maranhão Aguiar, então assessor da presidência da Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf), fez uma palestra sobre a “Geração elétrica do Nordeste: presente e futuro”. No evento mencionou que, desde o ano de 2005, a Chesf não vem conseguindo gerar toda energia necessária para o atendimento das demandas do Nordeste, citando como exemplo que, em 2010, o complexo Chesf havia gerado 6.000 MW médios, quando a demanda da região foi de cerca de 8.000 MW médios. Por falta de volumes no São Francisco, esses 2.000 MW médios foram importados de outro sistema de geração.

Em 2013, publiquei um artigo no EcoDebate, intitulado “A hidrelétrica de Riacho Seco faz jus ao nome que tem”, no qual, dentre outros assuntos, tratei da questão da ineficiente gestão hídrica existente na bacia do Rio São Francisco, embasando meu texto com dados levantados por Célio Bermann, professor da área de Energia da USP, bem como com os referentes às limitações volumétricas no rio para a geração de energia, dados esses que comprovavam a impossibilidade de construção de novas unidades geradoras no caudal.

Segundo Bermann, “A Usina de Xingó foi projetada para abrigar dez turbinas de 500 MW, de forma a possuir uma capacidade instalada total de 5.000 MW. Entretanto, atualmente, apenas seis turbinas estão instaladas. Trata-se, portanto, de 2.000 MW que poderiam ser acrescentados se as outras quatro turbinas previstas fossem instaladas. A Usina de Itaparica também apresenta condições semelhantes. Projetada inicialmente com dez turbinas de 250 MW, ela conta atualmente com apenas seis turbinas, perfazendo 1.500 MW. Outros 1.000 MW poderiam ser acrescentados se as turbinas fossem instaladas. Com respeito às duas usinas no rio São Francisco, continua Bermann, a Companhia Hidrelétrica do São Francisco alega que houve um superdimensionamento nos dois projetos e que não existe água suficiente para efetivar a complementação da motorização de ambas.

Os usos sem critérios dos volumes da Transposição do Rio São Francisco, em alguns dos trechos do projeto, também são outra questão merecedora de comentários. O Ramal Apodí, no Rio Grande do Norte, por exemplo, em fase de negociação para a sua construção, passa por situação bem pitoresca: o poder público vem conduzindo as obras do Ramal, contando com volumes que não foram programados para aquele trecho da Transposição. A outorga oficial concedida para os eixos Leste e Norte do projeto foi de 26,4 m³/s e os responsáveis pelo Ramal Apodi estão trabalhando com a possibilidade de contar com cerca de 40 m³/s. Se isso for concretizado, será o caminho mais curto para ampliação dos problemas, já tão evidentes, de limitações hídricas do Rio São Francisco. A verdade é que o Velho Chico não possui volumes suficientes para o atendimento dessa nova demanda.

Sem deixar de reconhecer o esforço dos responsáveis pelo setor elétrico do país, no trabalho realizado para a interligação do mesmo, não podemos deixar de alertar, no entanto, sobre os inesperados resultados negativos alcançados pelos usuários da energia. Afinal, os problemas continuam a acontecer nas hidrelétricas do país. Como consequência, os brasileiros vêm pagando as tarifas de energia na modalidade “bandeira vermelha”, a energia continua cara (devido ao acionamento de termelétricas) e, infelizmente, não há perspectiva de solução, pelo menos a curto e médio prazos.

Diante das atuais circunstâncias, alternativas interessantes que visam minimizar, de forma significativa os problemas existentes no setor, estão sendo postas em prática. As opções dizem respeito a investimentos em energias limpas, principalmente com a inclusão, na matriz energética, de sistemas solares e eólicos, onde o Nordeste se destaca em termos de contribuição, devido à força dos ventos existentes e de uma significativa insolação. Atualmente, esses sistemas têm contribuído fundamentalmente para a ocorrência de recordes de geração, suplantando, inclusive, o potencial gerador da Chesf, que instalou ao longo dos anos, em seu complexo de hidrelétricas, um potencial de cerca de 10 mil MW, atualmente sem possibilidades de expansão. Já as usinas eólicas, possuem um potencial de cerca de 19 mil MW, estando em franca ampliação.

Portanto, é necessário que haja mais compreensão das autoridades no que diz respeito a uma gestão hídrica eficiente em nosso país. Também é imprescindível se manter a preocupação com a implantação do “pacto das águas” da Nação brasileira, que deve ser empreendido sem as polarizações políticas tão comuns nos dias de hoje, negociado de forma democrática e apartidária e levando-se em conta o indispensável apoio da sociedade civil organizada.

Afinal, a água é um bem natural comum e essencial à vida, cuja busca deve ocorrer com muito planejamento e o seu uso realizado com a devida parcimônia.

João Suassuna – Engenheiro Agrônomo e Pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco

Artigo enviado pelo Autor e originalmente publicado em seu blogue pessoal.

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 12/04/2021

 

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