Covid-19: Pandemia é pior para mulheres, pretos e pardos e classes mais baixas, mostra pesquisa

 

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Covid-19: Pandemia é pior para mulheres, pretos e pardos e classes mais baixas, mostra pesquisa

– Em comparação aos homens, mulheres ficaram mais estressadas com relação a questões financeiras e se sentem mais sozinhas; 49% disseram sentir-se solitárias, contra 38% dos respondentes do sexo masculino

– 61% dos pretos e pardos do país tiveram a renda familiar reduzida, contra 54% dos brancos; e 48% precisaram adiar pagamentos ou renegociar dívida, versus 40% dos brancos

– 43% dos brasileiros hoje desempregados perderam o emprego durante a pandemia da Covid-19; os residentes do sul do Brasil e das cidades do interior foram os mais afetados

Por Ivelise Cardoso

Os efeitos negativos da pandemia da Covid-19 são mais sentidos por mulheres, pretos e pardos e estratos com menor renda da população brasileira, revela pesquisa encomendada pelo C6 Bank ao Datafolha. O estudo, conduzido a fim de entender os impactos da pandemia sobre a população, mostra que as questões psicológicas, profissionais e financeiras advindas da crise afetam mais esses grupos do que os demais. A pesquisa ouviu 1.503 pessoas das classes A, B, C, D e E de todo o Brasil. As entrevistas foram realizadas por telefone entre 6 e 10 de julho, e a margem de erro é de 3 pontos porcentuais.

Embora o estresse provocado pela pandemia acometa a maior parte dos brasileiros, a intensidade com que ele se manifesta varia, em muitos casos, conforme renda, escolaridade, cor da pele e gênero.

Quando o assunto é dinheiro, por exemplo, as mulheres estão mais estressadas que os homens: 71% das brasileiras dizem estar mais ansiosas por conta de questões financeiras, contra 63% dos homens. São elas também que estão mais estressadas no trabalho. Com base apenas na PEA (População Economicamente Ativa), 59% das mulheres afirmam estar mais ansiosas por questões profissionais, versus 49% dos homens.

A pesquisa também mostra que, ao mesmo tempo em que as obrigações com a família aumentaram para as mulheres brasileiras, elas experimentam mais solidão neste período de pandemia do que eles. Enquanto 49% das mulheres se sentem muito isoladas e solitárias, 38% dos homens brasileiros relatam o mesmo. A diferença se amplia quando se observa quem tomou medicamento durante a pandemia para combater a ansiedade: 19% de mulheres versus 9% de homens.

O estresse com relação às finanças e o sentimento de solidão também é maior entre os autodeclarados pretos e pardos e as pessoas de menor remuneração. Cerca de metade dos integrantes das classes D e E se sente muito solitária e isolada, versus 24% da classe A, uma diferença de 26 pontos porcentuais.

Quando a pergunta é sobre redução da renda familiar, 61% dos pretos e pardos, 60% da classe C e 61% das camadas D e E afirmam que essa é a realidade para eles, enquanto 54% dos brancos e 50% das classes A e B reportam o mesmo.

Dívidas: um problema maior para pretos e pardos

O cenário é semelhante quando a pergunta é: “precisou adiar pagamentos ou renegociar dívidas?”. Enquanto metade dos brasileiros da classe C disse que atrasou pagamentos ou renegociou dívidas, 34% das pessoas das classes A e B tiveram de se preocupar com isso. Essa proporção sobe para 48% entre pretos e pardos, contra 40% dos brancos. Considerando a base total de entrevistados, 69% dos brasileiros cortaram ou reduziram gastos pessoais ou gastos com a família.

A necessidade do corte de despesas pode ter razões que vão além da pandemia. “Historicamente, pessoas com menor renda já enfrentam, além das dificuldades para atender às necessidades básicas da família, acesso restrito à educação financeira. Isso torna difícil planejar-se até mesmo para as pequenas emergências do dia a dia, como um acidente ou problema de saúde”, diz Liao Yu Chieh, educador financeiro do C6 Bank. “Com uma pandemia agravada por uma retração econômica, esse é o grupo que vai sentir na pele e no bolso todos os efeitos da crise.”

A pesquisa do Datafolha/C6 Bank também mostra que 43% dos brasileiros hoje desempregados perderam o emprego durante a pandemia da Covid-19. Os residentes do sul do Brasil e das cidades do interior e os entrevistados com renda entre um e cinco salários mínimos foram os mais afetados.  

A porcentagem é igualmente relevante quando observada a redução de salário dos trabalhadores brasileiros. Cerca de um terço da população economicamente ativa assalariada passou a receber menos de seu empregador, o que representa 9% da população acima de 16 anos. Essa situação é mais frequentemente relatada por assalariados com ensino básico e pelos integrantes das classes C, D e E. Enquanto nesses grupos a porcentagem dos que tiveram o salário reduzido chega quase a 40%, nas classes A e B e no ensino superior essa fatia cai para cerca de 20%.

Autônomos e freelancers: trabalho paralisado

O peso da crise provocada pela pandemia se faz presente de maneira relevante também entre autônomos, profissionais liberais, empresários e freelancers. Quase oito em cada dez profissionais dessa categoria relataram que a quantidade de trabalho diminuiu em relação às demandas que recebiam antes da pandemia, e esse grupo representa 18% da população brasileira.

O trabalho foi totalmente paralisado para 45% deles, segundo o estudo. Essa fatia aumenta mais de cinco pontos porcentuais entre pretos e pardos, profissionais com renda de até cinco salários mínimos e moradores de regiões metropolitanas do país.

“O impacto da pandemia sobre o mercado de trabalho aprofunda desigualdades, ?ao lançar, proporcionalmente, mais pretos, pardos e pobres ao desemprego e à informalidade”, diz Alessandro Janoni, diretor de pesquisas do Datafolha.

Desde 2019, o C6 Bank conduz uma série de pesquisas para entender os hábitos financeiros do brasileiro e contribuir para o debate sobre cidadania financeira no país. Desta vez, em razão do contexto da pandemia, o banco resolveu ampliar o escopo da pesquisa a fim de compreender melhor o impacto da crise sanitária na população não só no âmbito financeiro, mas também na saúde mental e na vida profissional dos brasileiros.

 

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in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 12/08/2020

 

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