Seria uma boa ideia termos um cientista na Presidência da República?

 

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Ser cientista, apenas, não basta para ser presidente

Em um texto publicado originalmente no Monitor Mercantil, no dia 24 de julho deste ano, o professor Isaac Roitman fez uma intrigante pergunta: “Seria uma boa ideia termos um cientista na Presidência da República?” Achamos tão pertinente tal questionamento que tomamos a iniciativa de respondê-la. Contudo, assim como quase sempre ocorre na ciência, as respostas podem ser muito mais complexas do que uma simples afirmação ou negação. Sim, seria uma ótima ideia termos um cientista na Presidência da República. Mas, apenas isso não seria suficiente. É certo que um sujeito da ciência almejando o posto de presidente seria algo natural e desejável. Afinal, já tivemos inúmeros chefes do executivo com as mais variadas profissões: advogado, engenheiro, médico, militar, metalúrgico e cientista social. Por que não um outro cientista? No entanto, entendemos que “apenas” ser cientista não é o bastante para liderar o executivo nacional.

É verdade que o conhecimento e as habilidades que aquele profissional carrega consigo são importantíssimos para o entendimento e a transformação da realidade. Mas isso não quer dizer que os sujeitos de uma sociedade – dotados de uma racionalidade que os moldam – carreguem – apenas por serem cientistas – valores que podem ser tidos como neutros ou imparciais e que por isso seriam destituídos de vieses ou de interesses particulares, dando a eles melhores condições de exercer a liderança de uma nação. Justamente por estarmos inseridos em uma sociedade, existem interesses distintos postos em constante conflito e disputa. Aí se situa a política, mas também uma camada ideológica que influencia o comportamento dos sujeitos. Até mesmo o de um cientista, por mais brilhante que ele seja.

Entendemos que talvez não seja essa uma condição sine qua non para tal pretensão. De fato, há uma sub-representação política do setor científico no Brasil. Por isso, seria importante elevar a participação dos cientistas no parlamento. Mas a baixa representatividade não seria um problema em si mesmo. A elevação da representação política de um determinado setor é importante pela ampliação do debate de ideias mais do que pela possibilidade deste setor tornar hegemônicas suas formas de pensar e agir. Ademais, é preciso entender que “política científica” não se faz apenas institucionalmente. Se o objetivo for valorizar o conhecimento derivado da investigação rigorosa da realidade, é fundamental que haja atuação engajada dos cientistas em vários lugares: nas ruas, nas praças, nas escolas, nas universidades e, obviamente, também no congresso. Dito de outra forma, é preciso que haja maior atuação política do cidadão-cientista, não traduzida obrigatoriamente numa atuação partidária.

Tal atuação dos pesquisadores junto à sociedade civil em diferentes esferas é condição mais que necessária para que haja maior representatividade da ciência no mundo político. Talvez até mais importante do que termos um cientista carregando a faixa presidencial. Para além de ter proximidade com (e valorizar) o conhecimento científico, espera-se que o ocupante da cadeira presidencial de um país como o Brasil ao menos compreenda a dimensão dos desafios que lhe esperam, muitos dos quais estruturais e decorrentes do processo histórico que nos formou enquanto sociedade. Falamos isso porque o cientista pleiteante ao cargo de Presidente precisa entender que a nossa realidade se apresenta diante de problemas graves e urgentes como a fome, a desigualdade social, a carência de saneamento básico ou o elevado desemprego, para citar alguns exemplos. O cada vez mais limitado orçamento destinado à pesquisa nacional é outro problema grave. Que fique claro: nós advogamos que seja ofertado o devido valor à ciência nacional. Esta, inclusive, pode ser a chave que destrava soluções para aqueles graves problemas apontados. Mas tudo isso envolve decisões políticas, as quais podem e devem se basear em critérios técnicos e científicos, mas que, no final, serão sempre políticas. E as melhores decisões políticas são tomadas a partir do conhecimento profundo – também obtido com a ciência – daquelas mazelas. Se a formação científica ajuda bastante nesta tarefa, apenas ela não é suficiente.

Para nós, causa surpresa saber que apenas uma pequeníssima parcela dos parlamentares dos chamados “países desenvolvidos” ou do norte global possuem doutorado, mesmo muitas destas nações possuindo orçamentos robustos destinados à ciência e à tecnologia, mas também à cultura de uma forma geral. Tal constatação demonstra o desafio que está posto para aqueles países no sentido de ampliar a participação política de cientistas nos seus parlamentos. E estamos falando de uma realidade que dista bastante da brasileira. Muitas destas nações – em grande medida devido aos pesados investimentos em ciência e da tecnologia – já não sofrem com os mesmos graves problemas que afligem os brasileiros há alguns séculos. Valorizar a ciência, para além de termos um cientista ocupando a cadeira presidencial, é o que tentamos argumentar nessa resposta àquela pergunta inicial. É preciso construir uma cultura científica no país que extrapole os limites da universidade ou que não caminhe apenas para dentro do congresso nacional. Ao tomar a ciência a partir deste valor, tanto doutores e pesquisadores quanto outras parcelas da população com diferentes graus de escolaridade formal; todos seremos sujeitos dotados de pensamento crítico que privilegia a coletividade e não apenas a interesses particulares. Afinal, as decisões políticas devem caminhar no sentido de atender aos interesses da coletividade, e não apenas àqueles da ciência e dos cientistas.

Da mesma forma que o professor Roitman, nós também acreditamos que a ciência é uma importante bússola, apesar de não ser a única. Mas no navio Estado que navega nos mares turbulentos das políticas públicas, não precisamos necessariamente de comandantes cientistas, desde que o condutor da embarcação saiba a importância que o conhecimento científico tem para seguir caminhos que tragam como resultado melhores condições de vida para toda a tripulação. Tal comandante deve ter sensibilidade para entender os problemas da sociedade e ser solidário com questões mais urgentes, sobretudo aquelas que são explicadas pelo (e resultantes do) nosso processo de formação social em um contexto periférico. Para tanto, é importantíssimo que pautemos a construção de uma sociedade cientificamente alfabetizada. Pois só assim teremos – dentro e fora da política institucional – sujeitos carregando consigo a ciência como um valor que transborda no debate de ideias e na construção do conhecimento crítico. Se isso acontecesse, nosso presidente ter ou não doutorado, ser ou não cientista, seria apenas uma formalidade.

Thiago Jucá. Petroleiro, biólogo e doutor em bioquímica (UFC). Ex-colunista do portal Nossa Ciência. Autor do livro: Afinal, por que a ciência é uma janela aberta de leitura do mundo?

Rérisson Máximo. Arquiteto e urbanista, pesquisador do LabHab (USP), doutorando em habitat (USP) e professor do IFCE campus de Quixadá.

Leia também:

Monitor Mercantil – Seria uma boa ideia termos um cientista na Presidência da República?

Texto publicado originalmente no Jornal de Notícias da SBPC (Edição 6452, de 29 de julho de 2020) na seção de Cartas do Leitor. O texto contém pequenas modificações em relação ao original, as quais foram realizadas pelos próprios autores.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 30/07/2020

 

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Um comentário em “Seria uma boa ideia termos um cientista na Presidência da República?

  1. O melhor resultado apresentado até o presente momento, foi um ex-sindicalista do ABC.

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