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A região Centro-Oeste tem a segundo estrutura etária mais rejuvenescida

 

A região Centro-Oeste, embora ainda apresente a segunda estrutura etária mais rejuvenescida do país, já iniciou a fase de declínio da população em idade ativa

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

O Brasil está passando por uma rápida e profunda mudança da sua estrutura etária. No século XXI, pela primeira vez na história, haverá mais idosos (60 anos e +) do que crianças e adolescentes (0-14 anos). O envelhecimento populacional será a principal tendência demográfica dos anos 2000. Mas o ritmo de avanço tem sido diferenciado para as Grandes Regiões do país.

O gráfico abaixo, com dados dos Censos Demográficos de 1970 a 2022, do IBGE, mostra o Índice de Envelhecimento (IE) para o Brasil e as Grandes Regiões. O Brasil tinha um IE de 12 idosos de 60 anos e mais para cada 100 crianças e adolescentes de 0-14 anos, passando para 16 idosos para cada 100 jovens em 1980, para 29 em 2000, 45 em 2010 e 80 idosos 60+ para cada 100 jovens de 0-14 anos em 2022.

As regiões Sul e Sudeste possuem IE acima da média nacional e as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste possuem IE abaixo da média nacional. A região Norte apresenta a estrutura etária mais jovem, com um IE que passou de 8 idosos para cada 100 jovens em 1970 para 41 idosos para cada 100 jovens em 2022. A região Sudeste tem o maior Índice de Envelhecimento, passando de 15 idosos por 100 jovens em 1970 para 98 idosos de 60+ por 100 jovens de 0-14 anos em 2022. Portanto, até 2022, havia mais jovens do que idosos em todas as regiões, embora haja quase um empate na região Sudeste.

índice de envelhecimento do Brasil e Regiões

O gráfico abaixo, com dados dos censos demográficos do IBGE, mostra a evolução das percentagens de alguns grupos etários selecionados entre 1970 e 2022. O grupo etário de jovens 0-14 anos era de 42% da população brasileira em 1970 e caiu para menos da metade (19,8%) em 2022. O grupo etário de 15-59, que corresponde grosso modo à população em idade economicamente ativa, subiu de 52,7% em 1970 para 65,1% em 2010, significando que a janela de oportunidade demográfica estava se abrindo.

Porém, o percentual de pessoas entre 15-59 anos diminuiu para 64,4% em 2022, significando que a janela de oportunidade começou a se fechar. Não é o fim absoluto do 1º bônus demográfico, mas significa que o Brasil precisa investir nas outras janelas de oportunidade, ou seja, no 2º bônus (da produtividade) e o 3º bônus (da longevidade).

A população 50+ era de 10,7% em 1970, ultrapassou os jovens de 0-14 anos por volta de 2012 e chegou a 27,7% em 2022. A população 60+ era de 5,1% em 1970 e chegou a 15,8% em 2022, se aproximando do percentual da população jovem. A população 70+ era de 1,8% em 1970 e chegou a 7% da população total do Brasil em 2022.

O gráfico abaixo, com dados da região Centro-Oeste permite comparar com a média nacional do gráfico anterior. A proporção de jovens de 0-14 anos no Centro-Oeste é maior do que a proporção brasileira. Era de 45,1% da população do Centro-Oeste em 1970 e caiu para 20,9% em 2022. O grupo etário de 15-59, que corresponde grosso modo à população em idade economicamente ativa, subiu de 51,3% em 1970 para 66,7% em 2010, proporção maior do que a média nacional e também significando que a janela de oportunidade demográfica estava se abrindo.

Porém, o percentual de pessoas 15-59 anos diminuiu para 65,9% em 2022, significando que a janela de oportunidade começou a se fechar. Não é o fim absoluto do 1º bônus demográfico, mas significa que o Brasil precisa investir nas outras janelas de oportunidade, ou seja, no 2º bônus (da produtividade) e o 3º bônus (da longevidade).

A população do Centro-Oeste de 50+ era de 7,9% em 1970, ultrapassou os jovens de 0-14 anos em 2019 e chegou a 24,7% em 2022. A população 60+ era de 3,4% em 1970 e chegou a 13,2% em 2022, se aproximando do percentual da população jovem. A população do Centro-Oeste de 70+ era de 1,1% em 1970 e chegou a 5,6% da população em 2022.

percentagem da população por grupos etários centro oeste

A região Centro-Oeste ocupa uma posição singular na dinâmica demográfica brasileira. Embora ainda apresente a segunda estrutura etária mais rejuvenescida do país, já iniciou a fase de declínio da população em idade ativa, sinalizando o avanço da transição demográfica. Ao mesmo tempo, por ser o principal polo produtor de commodities agropecuárias e minerais, continua atraindo imigrantes jovens de outras regiões. Essa combinação de envelhecimento incipiente com forte migração seletiva cria um quadro híbrido, repleto de desafios estruturais e oportunidades estratégicas.

Os principais desafios são:

Esgotamento gradual do bônus demográfico. A queda da população em idade ativa indica que o bônus demográfico está se aproximando do fim. Se a produtividade não crescer suficientemente, o dinamismo econômico pode desacelerar nas próximas décadas.

Dependência de setores intensivos em capital e pouco intensivos em trabalho. A produção de commodities, especialmente no agronegócio moderno, é altamente mecanizada. Isso limita a absorção de mão de obra e pode gerar um descompasso entre o volume de migrantes jovens e as oportunidades de emprego de qualidade.

Urbanização acelerada e pressão sobre cidades médias. O fluxo migratório pressiona infraestrutura urbana, habitação, saneamento, mobilidade e serviços públicos, especialmente em cidades médias que crescem rapidamente, muitas vezes sem planejamento adequado.

Desigualdades sociais e territoriais. O crescimento econômico baseado em commodities não garante, automaticamente, distribuição de renda. Persistem bolsões de informalidade, trabalho precário e exclusão social, sobretudo entre migrantes recentes.

Vulnerabilidade às oscilações do mercado internacional. A forte especialização produtiva torna a região sensível a choques externos, variações de preços e mudanças climáticas, o que pode afetar emprego e arrecadação.

As principais oportunidades são:

Renovação demográfica via migração interna. A atração contínua de jovens atenua os efeitos do envelhecimento e do declínio da população ativa, funcionando como um “amortecedor demográfico” frente à transição em curso.

Aumento da produtividade e inovação no agronegócio. A presença de trabalhadores jovens pode impulsionar a adoção de tecnologias digitais, agricultura de precisão, biotecnologia e práticas sustentáveis, elevando a produtividade total dos fatores.

Diversificação da base econômica. O dinamismo do setor primário cria encadeamentos produtivos em logística, agroindústria, serviços avançados, pesquisa e desenvolvimento, abrindo espaço para maior geração de empregos urbanos.

Consolidação de cidades médias como polos regionais. O crescimento populacional e econômico fortalece cidades médias, que podem se tornar centros de inovação, educação superior e serviços especializados, reduzindo a dependência das metrópoles tradicionais.

Preparação antecipada para o envelhecimento. Por ainda contar com população relativamente jovem, o Centro-Oeste tem uma janela de oportunidade para estruturar políticas de previdência, saúde e cuidados de longo prazo antes que o envelhecimento se intensifique.

A dinâmica demográfica do Centro-Oeste reflete uma transição intermediária: o bônus demográfico já não cresce, mas a migração jovem ainda sustenta o dinamismo regional. O grande desafio é converter crescimento econômico baseado em commodities em desenvolvimento sustentável, diversificado e inclusivo. Se bem administrada, essa fase pode permitir ao Centro-Oeste manter sua vitalidade econômica, reduzir desigualdades e se preparar de forma mais equilibrada para o inevitável envelhecimento populacional nas próximas décadas.

José Eustáquio Diniz Alves
Doutor em demografia, link do CV Lattes:
http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

Referências:

ALVES, JED. Os quatro bônus demográficos e a nova dinâmica populacional global, Ecodebate, 01/10/25

https://www.ecodebate.com.br/2025/10/01/os-quatro-bonus-demograficos-e-a-nova-dinamica-populacional-global/

ALVES, JED. O envelhecimento populacional é uma conquista histórica, Ecodebate, 14/05/2025

https://www.ecodebate.com.br/2025/05/14/o-envelhecimento-populacional-e-uma-conquista-historica/

ALVES, JED. A importância da longevidade saudável e ativa para as pessoas e a economia, Ecodebate, 28/05/2025 https://www.ecodebate.com.br/2025/05/28/a-importancia-da-longevidade-saudavel-e-ativa-para-as-pessoas-e-a-economia/

ALVES, JED. Diversidade etária e Economia Prateada, Ecodebate, 04/06/2025

https://www.ecodebate.com.br/2025/06/04/diversidade-etaria-e-economia-prateada/

ALVES, JED. As Ondas do envelhecimento populacional brasileiro, Ecodebate, 14/07/2025

https://www.ecodebate.com.br/2025/07/14/as-ondas-do-envelhecimento-populacional-brasileiro/

ALVES, JED. Demografia e Economia nos 200 anos da Independência do Brasil e cenários para o século XXI (com a colaboração de GALIZA, F), ENS, maio de 2022

https://prdapi.ens.edu.br/media/downloads/Livro_Demografia_e_Economia_digital_2.pdf

 

Citação
EcoDebate, . (2026). A região Centro-Oeste tem a segundo estrutura etária mais rejuvenescida. EcoDebate. https://www.ecodebate.com.br/2026/05/13/a-regiao-centro-oeste-tem-a-segundo-estrutura-etaria-mais-rejuvenescida/ (Acessado em maio 13, 2026 at 08:25)

in EcoDebate, ISSN 2446-9394

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