Ana Maria Primavesi: a pioneira semeadora da Agroecologia, por Sucena Shkrada Resk

 

A construção da história se tece com ícones. Quando se trata da Agroecologia, a personagem que emerge é da engenheira agrônoma e Doutora em Cultura de Solos e Nutrição Vegetal Ana Maria Primavesi, que partiu para o outro plano, aos 99 anos, no último dia 5 de janeiro, deixando um importante legado para a atual e as próximas gerações: o ensinamento prático e teórico de como é possível cultivar e manejar o solo em consonância com a conservação socioambiental. Premiada inúmeras vezes, ao longo de sua carreira, o que é digno de nota é que sempre se manteve humilde e solícita para compartilhar seus conhecimentos.

Ana Primavesi

A natureza é perfeita como Deus criou e não como o homem quer” (Ana Primavesi).

De origem austríaca, aos 22 anos, Ana Maria se formou na Universidade Rural para Agricultura e Ciências Florestais. Segundo ela, o seu encantamento por este modelo de agricultura que já se constituía como princípios da futura Agroecologia, se deu durante este período, no qual em intensas pesquisas práticas estudava o entrosamento entre o solo, as plantas e a micro-população que o compõe. Uma grande fonte de inspiração, segundo ela, foi ter a oportunidade de atuar em trabalho de campo com o professor Johannes Görbing, que defendia uma agricultura sustentável.

“O segredo da vida é o solo, porque do solo dependem as plantas, a água o clima e a nossa vida. Tudo está interligado. Não existe ser humano sadio se o solo não for sadio” (Ana Primavesi).

Mas bem antes disso, durante a Segunda Guerra Mundial, a jovem engenheira agrônoma teve de aprender a lidar com a terra e os extremos. Carpia, recolhia esterco, colhia e semeava. A fome e a desnutrição deixaram um impacto importante que a acompanharia, como um dos propósitos de desafios a serem superados, nas suas pesquisas posteriores, que envolvia o conceito de alimentação saudável. Ana Maria se mostrou uma mulher e profissional resiliente também ao ter de enfrentar uma prisão injustificável durante o período de guerra. Todas estas circunstâncias lapidaram uma característica que a acompanhou: a persistência em seus objetivos.

Já casada com o também engenheiro agrônomo Artur e com o primeiro filho chegam ao Brasil no ano de 1948. É a partir daí que sua história se solidifica por aqui. Ambos seguiram por muitos anos a carreira acadêmica na Universidade de Santa Maria, RS. Foi um período no qual Ana Maria demonstrou a sua versatilidade, ao realizar pesquisas e dar aulas sobre produtividade de solos, deficiências minerais, além de dirigir o laboratório de biologia e análise de solos. Mais um pioneirismo em sua biografia é o de desenvolver um projeto de transformar a dinâmica da vida do solo em desenho animado de longa-metragem. Um feito considerado o primeiro do mundo.

“…Peguemos nossa pá, perguntemos à nossa terra o que lhe está faltando e tratemo-la depois convenientemente dentro dos limites que a natureza nos impõe, e a antiga exuberância voltará aos nossos campos e a prosperidade aos nossos lares.” (Ana Primavesi)

Já com três filhos, ficou viúva em 1977 e aí decidiu seguir para um sítio em Itaí, no interior paulista, onde se enveredou nas pesquisas mais profundas. Os desafios de solos hipoteticamente improdutivos e doentes eram o que a movia. Foram 32 anos de dedicação. No ano de 1980, lança a sua grande obra – Manejo Ecológico do Solo. Em 85, quando perde seu filho Artur em um acidente, se envereda mais ainda em palestras e pesquisas no Brasil e no exterior. Nesta carreira dinâmica, trabalhou por 20 anos na Fundação Mokiti Okada. Mais uma obra importante para a Agroecologia que lançou foi a Cartilha do Solo, que recebeu o nome de Manual do Solo Vivo, pela editora Expressão Popular (republicado em 2006).

Ana Maria Primavesi

Em 2012, Ana Maria Primavesi vai morar em São Paulo com sua filha Carin. Eu tive a oportunidade de conhecê-la, em 2013, quando participou de um evento no Ibirapuera, no qual foi homenageada. Nesta ocasião, fiquei encantada em observar sua resiliência diante do passar dos anos e iniciei meu primeiro contato com ela, sedenta por conhecer sua trajetória. A segunda entrevista se concretizou em sua casa e foi publicada à época no site da Editora Horizonte, na qual eu era editora-assistente. Depois a reencontrei em 2017, na Feira da Reforma Agrária, no Parque da Água Branca.  Desta relação, nasceu um respeito que sempre manterei por esta mulher e profissional arrojada que fez a diferença em sua passagem.

Em 2019, ela teve ainda a oportunidade de ver lançado o seu livro Manejo Ecológico de Pastagens em regiões tropicais e subtropicais. No ano anterior, Manejo Ecológico de Pragas e Doenças. Em 2017, foi a vez de Algumas plantas indicadoras: como reconhecer os problema de um solo. No ano anterior, foi publicada sua biografia Ana Primavesi: Histórias de Vida e Agroecologia, de autoria de Virgínia Mendonça Knabben, como também A Convenção dos Ventos: agroecologia em contos. No ano de 2014, lançou Pergunte ao Solo e às Raízes. Nos anos 90, Agricultura Sustentável: manual do produtor rural Agroecologia, Ecosfera, Tecnosfera e Agricultura. Uma extensa bibliografia consolidada.

*Sucena Shkrada Resk – jornalista, formada há 28 anos, pela PUC-SP, com especializações lato sensu em Meio Ambiente e Sociedade e em Política Internacional, pela FESPSP, e autora do Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk (https://www.cidadaosdomundo.webnode.com), desde 2007, voltado às áreas de cidadania, socioambientalismo e sustentabilidade.

 

* Artigo enviado pela Autora e originalmente publicado no Blog Cidadãos do Mundo.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 21/01/2020

[cite]

 

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