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Artigo

Declínio e Ascensão: O encontro de Trump com Xi Jinping em 2026

 

Pequim começa a aumentar seus compromissos, mas de forma geoeconômica (Cinturão e Rota) em vez de apenas militar. Eles compram o porto antes de precisar enviar o navio de guerra

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

A China já foi a maior economia do mundo, entrou em declínio ao longo do “século da humilhação” (após as Guerras do Ópio) e voltou a ser uma superpotência disputando a hegemonia internacional com os Estados Unidos da América (EUA). A relação entre os dois países é complexa.

O presidente Richard Nixon (1913-1994) visitou a China de Mao Tsé Tung (1893-1976) em 1972. Naquele momento, os EUA eram a superpotência incontestável, mas estavam atolados na Guerra do Vietnã e queriam isolar a URSS. Nixon foi a Pequim com uma estratégia de abrir as portas para uma China reclusa, pobre e rural, vendo-a como um “peão útil” na batalha contra os soviéticos.

A visita de Nixon, de certa forma, simbolizou o início da globalização e o fim da Guerra Fria. De lá para cá, muita coisa mudou. A visita de Donald Trump a Xi Jinping em maio de 2026 ocorre em uma correlação de forças completamente diferente entre os dois países.

O gráfico abaixo, com dados do World Economic Outlook (WEO), do FMI, de abril de 2026, mostra o PIB dos EUA e da China, em poder de paridade de compra (ppp), como percentagem do PIB mundial. Nota-se que em 1980, a economia da China representava cerca de 2% do PIB global e a economia americana representava mais de 20% do PIB global. Ou seja, a economia dos EUA era 11 vezes maior do que a economia da China.

Em 2016, o valor agregado da produção de bens e serviços da China ultrapassou o valor do PIB dos EUA. Para 2026, o FMI estima que o PIB chegará a 19,9% do PIB global na China e 14,5% nos EUA. Para 2031, a estimativa é de uma percentagem chinesa de 20,4% e de 13,7% para os EUA. Portanto, quando medido em ppp, a economia da China, em ascensão, já é maior do que a dos EUA, em declínio.

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Acompanhando o crescimento do PIB, a China conseguiu retirar cerca de 1 bilhão de habitantes da extrema pobreza, ampliou o sistema educacional, superou os EUA em número de patentes e na publicação de artigos científicos, a expectativa de vida ao nascer passou de 64 anos em 1980 para 79 anos em 2026, houve uma rápida urbanização e uma grande transformação das cidades com enormes redes de metrô, a construção de uma enorme extensão de trens de alta velocidade e uma economia de baixa inflação e que foi capaz de gerar um superávit comercial de US$ 1,2 trilhão em 2025.

Mas um ponto de semelhança é que os dois países já possuem uma dívida pública bruta acima de 100% do PIB. O gráfico abaixo, também com dados do FMI, mostra que a dívida bruta dos EUA era de 53,5% do PIB em 2001, passou para 126% em 2026 e deve chegar a 142% do PIB em 2031. No mesmo período, a dívida bruta da China passou de 24,3% do PIB, para 107% e deve chegar a 127% do PIB em 2031.

Embora os números sejam semelhantes, as causas e as consequências para o futuro de cada país são bem distintas. Nos EUA, o endividamento é impulsionado por déficits crônicos, gastos com defesa e o envelhecimento da população (Previdência e Medicare). O custo dos juros agora consome uma fatia maior do orçamento do que o próprio gasto militar. Isso limita a capacidade do governo de investir em infraestrutura e tecnologia.

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Como o Tesouro americano é a base do sistema financeiro internacional, se os investidores exigirem juros maiores para financiar essa dívida, o custo do crédito sobe no mundo inteiro. O risco não é o “calote” (já que os EUA imprimem o dólar), mas a inflação ou a desvalorização da moeda se o mercado perder a fé na sustentabilidade fiscal americana.

Na China, a dívida é reflexo de décadas de estímulos via infraestrutura e um setor imobiliário agora em crise. Grande parte do problema está nas províncias, que se endividaram para construir cidades e pontes que nem sempre dão retorno econômico. Para pagar ou estabilizar a dívida, Pequim precisa reduzir estímulos. Isso significa que a era de crescimentos anuais de 6% ou 7% ficou no passado.

O futuro pode reservar um mundo de crescimento medíocre, com as duas locomotivas do planeta precisando “apertar o cinto” para gerenciar suas dívidas, havendo menos capital disponível para investimentos globais e uma maior vulnerabilidade a novos choques (como pandemias ou conflitos). A grande ironia é que, enquanto os dois países disputam a hegemonia global, ambos estão presos na mesma armadilha: o excesso de passivo (dívida) comprometendo o investimento no futuro.

Porém há uma diferença importante em relação às duas dívidas. Nos EUA, cerca de 25% a 30% está nas mãos de estrangeiros (Japão e China são os maiores, seguidos pelo Reino Unido). A vasta maioria da dívida interna (70% a 75%) pertence aos próprios americanos: fundos de pensão, bancos, investidores privados e, principalmente, o Federal Reserve (o Banco Central dos EUA). A vantagem é que a dívida americana é emitida em dólares, a moeda de reserva mundial. Se os EUA precisarem, eles podem tecnicamente “imprimir” para pagar, embora isso gere inflação.

Na China, quase 100% dívida é doméstica, quase inteiramente detida por bancos estatais e investidores domésticos. Isso dá a Pequim um controle absoluto. O governo pode simplesmente ordenar que os bancos estatais refinanciem as dívidas ou baixem os juros. Não há risco de uma “fuga de capitais estrangeiros” quebrar o país de um dia para o outro. Além disto a China possui ativos gigantescos (empresas de energia, bancos, telecomunicações).

A China tem um Patrimônio Líquido (Ativos menos Dívidas) muito alto porque o Estado é dono de quase tudo (terras, indústrias). Isso dá uma margem de manobra enorme. Nos EUA, o Estado é “pobre” em ativos comparado à China, mas tem sido um porto seguro do capital global. A China tem mais ativos para vender, mas os EUA têm a “impressora de dólares” e uma certa confiança do mercado global. Assim, a China poderia enfrentar uma crise de crescimento lento (deflação), enquanto os EUA correm o risco de uma crise de inflação e juros altos.

Todavia, há um ponto de grande contraste entre os dois países. Enquanto os EUA dependem da “boa vontade” do resto do mundo para financiar seu consumo, a China usa seu excedente para comprar ativos e influência global.

Os EUA operam com déficits em transações correntes (importam mais do que exportam e gastam mais do que ganham no exterior) há décadas. A China acumulou trilhões de dólares vendendo produtos para o mundo. Antigamente, ela guardava esse dinheiro apenas em títulos americanos (financiando seu rival). Agora, a estratégia mudou com a Iniciativa Cinturão e Rota (Belt and Road). Em vez de apenas adquirir papel (dólares), a China investe em infraestrutura real (portos, ferrovias, minas) na África, América Latina e Ásia. Isso torna a China a maior credora oficial do mundo. Muitos países agora devem diretamente a Pequim, e não mais ao FMI ou ao Banco Mundial.

O gráfico abaixo, também com dados do FMI, mostra um enorme contraste entre os dois países, com os EUA tem déficits elevados em transações correntes e a China tendo superávits expressivos. Na média do período 1997 a 2031, o déficit dos EUA representa 3,4% do PIB ao ano e o superávit da China representa 3,1% do PIB ao ano. O déficit americano já chegou em torno de 6% do PIB na primeira década do século XXI, período que o superávit chinês chegou a 10% do PIB. Na atual década, o déficit em transações correntes dos EUA está próximo de 4% e o superávit chinês próximo de 3,5% do PIB.

Transações correntes (como percentagem do PIB), EUA e China: 1997-2031

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Fonte: IMF/WEO April 2026 https://data.imf.org/en/datasets/IMF.RES:WEO

Desta forma, a situação chinesa é mais sólida por dois motivos principais: 1) A China não depende de capital estrangeiro para funcionar. Pelo contrário, o mndo depende do capital chinês e 2) Quando a China financia um porto no Sri Lanka ou uma ferrovia na África e o país não paga, Pequim muitas vezes assume o controle do ativo por 99 anos. Assim, eles estão trocando dinheiro “fiduciário” por controle geopolítico e recursos naturais.

Se olharmos para a economia como uma empresa, a China tem um fluxo de caixa positivo e está comprando os vizinhos, enquanto os EUA estão vivendo no cheque especial, contando com o fato de que são “donos do banco” (o sistema do dólar). Essa transição da China de “compradora de títulos americanos” para “investidora em infraestrutura global” é, talvez, a maior mudança de poder econômico do século XXI.

Para agravar a situação, o excesso de gastos militares está acelerando a descrença na política americana e enfraquecendo a dominância do dólar no Oriente Médio. O conflito entre EUA-Israel contra o Irã (especialmente após as ofensivas de fevereiro de 2026 e o bloqueio do Estreito de Ormuz) funcionou como um catalisador para tendências que vinham se arrastando há anos. Por 50 anos, o acordo implícito era: os EUA garantiam a segurança do Golfo e, em troca, o petróleo era vendido em dólares.

O conflito atual quebrou essa lógica. Em resposta às sanções e ao conflito, o Irã começou a cobrar taxas de trânsito no Estreito de Ormuz em Yuan (CNY). Isso transforma um ponto vital de passagem em um laboratório vivo de desdolarização. A Arábia Saudita, percebendo que a proteção americana traz consigo o risco de ser arrastada para guerras regionais, acelerou a aceitação de outras moedas. O reino agora opera como um “árbitro”, vendendo para o Ocidente em dólares, mas aceitando moedas locais para o comércio com o bloco BRICS+.

A expansão do grupo BRICS em 2025 (incluindo Irã, Emirados Árabes e Arábia Saudita) criou um bloco que controla mais de 40% da produção global de petróleo. Com a descrença na política de sanções de Washington, o uso do sistema mBridge (moedas digitais de bancos centrais) explodiu. Cerca de 95% dessas transações já ocorrem em Yuan digital, ignorando o sistema SWIFT controlado pelo Ocidente. Para esses países, sair do dólar não é apenas uma escolha econômica, mas uma estratégia de sobrevivência política para evitar que suas reservas sejam congeladas como aconteceu com a Rússia.

Enquanto os EUA se desgastam militar e financeiramente no conflito, a China adota uma postura de “diplomacia de baixo risco”. A China se posiciona como quem constrói a infraestrutura que o conflito destrói. O discurso chinês de “segurança comum” começa a soar mais atraente para as monarquias do Golfo do que as alianças militares tradicionais com os EUA, que agora são vistas como instáveis. Como a China é o maior comprador de petróleo da região, ela tem o poder de ditar a moeda da transação. Se o maior cliente quer pagar em Yuan, o vendedor (pressionado pela guerra) acaba aceitando.

Em síntese, os EUA possuem um “poder de fogo” financeiro baseado na confiança e na dívida, enquanto a China possui um poder baseado em ativos reais e superávits. O que estamos vendo em 2026 não é a queda repentina do dólar, mas a sua marginalização. O dólar está deixando de ser a “única opção” para se tornar “uma das opções”, enquanto o Oriente Médio gira seu eixo econômico definitivamente para o Oriente.

Os Estados Unidos estão presos no que os historiadores chamam de “sobre-extensão imperial”. Ao se envolverem diretamente em conflitos (como o atual com o Irã ou o apoio à Ucrânia), os EUA gastam bilhões de dólares em hardware militar que é “destruído” no campo de batalha. Isso não gera retorno financeiro, apenas aumenta a dívida. Ao usarem o dólar e as sanções como armas de guerra, os EUA forçam o resto do mundo a criar alternativas. É a vitória de Pirro: eles punem o inimigo, mas destroem a utilidade global da sua própria moeda a longo prazo.

A China está colocando em prática os ensinamentos de Sun Tzu: “A suprema arte da guerra é derrotar o inimigo sem lutar”. A China está vencendo através da criação de uma cadeia global de valor e da dependência econômica. Quando ela constrói um porto na Grécia, uma ferrovia na África ou uma rede 5G no Oriente Médio, ela cria uma infraestrutura que o mundo precisa usar. Ao mediar acordos (como a reaproximação entre Irã e Arábia Saudita em 2023 e as negociações de 2026), a China se apresenta como a “adulta na sala”, enquanto os EUA aparecem como o “policial exausto”. Enquanto os EUA acumulam promessas de pagamento (dívida), a China acumula ativos reais (commodities, portos e tecnologia).

Nos meses de março e abril de 2026 a China bateu recordes de exportações de equipamentos e tecnologia da transição energética: baterias elétricas, energia eólica e solar e veículos elétricos. A diferença na forma como as duas potências projetam influência é profunda:

  • O poder americano no século XX foi construído sobre a proteção das rotas marítimas de petróleo e a aliança com produtores de óleo. A “segurança energética” para Washington significa garantir que o fluxo de barris não seja interrompido, o que exige uma presença militar constante no Golfo Pérsico, fortalecendo o Petroestado.

  • A China percebeu que não pode competir com os EUA no controle dos mares e do petróleo. Então, ela mudou as regras do jogo. Ao dominar a fabricação de painéis solares, turbinas eólicas e, crucialmente, o refino de minerais para baterias (lítio, cobalto, grafite), ela faz com que o futuro da energia passe obrigatoriamente por Pequim, fortalecendo o Eletroestado.

Enquanto o negacionismo climático e ambiental dominam o governo Trump, a China contribui para fortalecer o Acordo de Paris, considerando não é apenas uma questão de benevolência ambiental, mas de estratégia industrial. A China escala a produção de tal forma que o custo da energia renovável despenca globalmente. Isso torna “irresistível” para outros países (especialmente os em desenvolvimento) adotar a tecnologia chinesa. No futuro, a dependência do mundo não será mais de quem tem o poço de petróleo, mas de quem tem a tecnologia de armazenamento e a rede de transmissão. A China está construindo a “Global Energy Interconnection”, uma proposta de rede elétrica mundial de alta voltagem que conectaria continentes e garantiria o abandono dos combustíveis fósseis.

Sem dúvida, a China está transformando a crise climática em uma oportunidade de hegemonia. Se o mundo precisa descarbonizar para sobreviver, e a China é quem detém os meios para isso, ela se torna indispensável. A grande ironia histórica é que o capitalismo americano financiou a ascensão chinesa, e agora a infraestrutura “comunista” chinesa está fornecendo os meios para salvar o planeta que o consumo ocidental colocou em risco.

Neste quadro, os presidentes Xi Jinping e Donald Trump se reuniram em Pequim nos dias 14 e 15 de maio de 2026. A reunião avaliou os riscos de conflito entre os dois países e acenos para cooperação em diversos setores. O encontro aconteceu no Grande Salão do Povo na Praça da Paz Celestial. Trump foi recebido com um desfile militar e uma apresentação de crianças chinesas que carregavam bandeiras dos dois países, além de flores. Logo no início, Xi falou sobre a instabilidade internacional e disse que Estados Unidos e China têm mais interesses em comum do que diferenças. Xi alertou sobre o perigo da “Armadilha de Tucídides” (como abordei em entrevista de 2018, disponível no link abaixo).

Enquanto Trump pediu ajuda da China para manter aberto o Estreito de Ormuz ao comércio internacional, Xi Jinping disse: “Devemos ser parceiros, não rivais. Devemos ajudar uns aos outros a ter sucesso, prosperar juntos e encontrar a forma adequada para que grandes países convivam na nova era”, mas alertou para o risco de confronto caso a questão de Taiwan não seja conduzida de forma adequada.

A Cúpula de Pequim não resolveu os problemas do desequilíbrio internacional entre as duas superpotências, mas ela pode ser considerada importante na medida em que os dois países possam estabelecer pontos de convivência em comum, ainda que limitados. Diversos outros capítulos desta ciranda diplomático devem acontecer nos próximos anos, enquanto a disputa econômica será marcada pela batalha do dia a dia pela liderança científica e tecnológica de cada modo de produção e da administração macroeconômica de suas economias.

Mesmo com a presença dos CEOs das principais empresas de tecnologia que acompanharam Trump a Pequim, incluindo Elon Musk, da Tesla, Jensen Huang, da Nvidia, e Tim Cook, da Apple, parece que não houve nenhum grande avanço nesta área. A estratégia da China de desenvolver sua própria tecnologia e capacidade nessa área é bem conhecida, com o recente 15º Plano Quinquenal do governo estabelecendo seu compromisso com a inovação e com suas próprias empresas nacionais.

Em artigo recente “The Trump-Xi Summit: Behind the Curtain”, Graham Allison considera que a Cúpula de Pequim será lembrada como a cúpula “de negócios” na qual a economia foi elevada a uma posição de igualdade com a geopolítica e a ‘estratégia diplomática empresarial’ passa a desempenhar um papel maior na diplomacia: “Isso é simbolizado pela presença de um coro que inclui o empresário mais rico do mundo (Elon Musk), o CEO da maior empresa de gestão de ativos do mundo (Larry Fink) e os líderes de duas das únicas quatro empresas no mundo a atingirem avaliações de US$ 4 trilhões (o CEO da Apple, Tim Cook, e o CEO da NVIDIA, Jensen Huang), anunciando os benefícios mútuos de um negócio “ganha-ganha” entre as duas maiores economias do mundo. Se o Saturday Night Live fizesse um esquete sobre a cúpula, poderia se chamar ‘Faça Riqueza, Não Guerra’”.

Contudo, os Estados Unidos estão gastando bilhões de dólares para perder uma guerra no Irã que está enriquecendo seus oligarcas, empobrecendo seus cidadãos, sabotando suas alianças e fortalecendo seus inimigos. O governo americano propôs um orçamento militar de US$ 1,5 trilhão em 2027, enquanto corta gastos com assistência social.

Como mostrou Paul Kennedy no livro “Ascensão e Queda das Grandes Potências” (1989), o declínio de um império começa quando os custos de manter a segurança global (seus compromissos militares) superam a capacidade da sua base econômica de financiá-los sem autodestruição. Os EUA entraram em um ciclo onde a “Capacidade Econômica” está sendo canibalizada pelos “Compromissos Militares”.

Para manter a presença no Oriente Médio, Leste Europeu e no Pacífico simultaneamente, os EUA emitem dívida em um ritmo que supera o crescimento do seu PIB. Cada bilhão de dólares gasto em um porta-aviões estacionado no Golfo é um bilhão que deixa de ser investido em infraestrutura doméstica ou em chips de última geração — áreas onde a China está investindo agressivamente. Kennedy diria que os EUA estão “esticados” demais. A base produtiva americana não consegue mais sustentar o nível de projeção de força exigido pela sua política externa sem gerar uma crise fiscal.

A China seguiu a cartilha de Kennedy ao inverso: primeiro, construiu uma base econômica colossal e, agora, começa a convertê-la em poder político e militar, mas de forma muito mais cirúrgica. Durante décadas, a China evitou conflitos diretos, focando 100% na “Capacidade Econômica”. Isso permitiu que ela se tornasse a maior credora do mundo e a principal parceira comercial de quase todos os países. Agora que a economia está consolidada, Pequim começa a aumentar seus compromissos, mas de forma geoeconômica (Cinturão e Rota) em vez de apenas militar. Eles compram o porto antes de precisar enviar o navio de guerra.

Em última análise, o encontro de maio de 2026 em Pequim sela mais do que um armistício corporativo sob o lema pragmático de “Faça Riqueza, Não Guerra”; ele cristaliza a inversão histórica das forças globais iniciada no século passado. Enquanto Donald Trump lidera uma superpotência sitiada pela própria sobre extensão imperial, assistindo ao dólar ser marginalizado nos laboratórios de desdolarização do Oriente Médio, Xi Jinping consolida o “Eletroestado” chinês através de uma teia intrincada de infraestrutura real e liderança tecnológica na transição energética.

A ironia geopolítica contemporânea reside no fato de que os EUA continuam a financiar o seu ocaso por meio de um cheque especial internacional fundamentado em promessas de pagamento, ao passo que a China estende seu domínio convertendo superávits tangíveis em hegemonia silenciosa. Ao fim e ao cabo, a Cúpula de Pequim não evitou a transição de poder, mas regulou os seus termos: o século XXI testemunha o esgotamento do policial exausto que esbanja o seu futuro no campo de batalha, abrindo alas para o investidor cirúrgico que, sem disparar um único tiro, reconstrói os alicerces do planeta à sua própria imagem.

José Eustáquio Diniz Alves
Doutor em demografia, link do CV Lattes:
http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

Referências:

ALVES, JED. A ascensão da China, a disputa pela Eurásia e a Armadilha de Tucídides. Entrevista especial com José Eustáquio Diniz Alves, IHU, Patrícia Fachin, 21 Junho 2018
http://www.ihu.unisinos.br/159-noticias/entrevistas/580107-a-ascensao-da-china-a-disputa-pela-eurasia-e-a-armadilha-de-tucidides-entrevista-especial-com-jose-eustaquio-diniz-alves

ALVES, JED. China, nova potência mundial Contradições e lógicas que vêm transformando o país. Revista do Instituto Humanitas Unisinos (IHU), China, nova potência mundial: Contradições e lógicas que vêm transformando o país. São Leopoldo, Nº 528, Ano XVIII, 17/9/2018 pp 51-58
http://www.ihuonline.unisinos.br/media/pdf/IHUOnlineEdicao528.pdf

ALVES, JDE. Os 70 anos da Revolução Comunista na China, Ecodebate, 27/09/2019
https://www.ecodebate.com.br/2019/09/27/os-70-anos-da-revolucao-comunista-na-china-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ALVES, JED. Saldo comercial da China ultrapassa US$ 1 trilhão em 2025, Ecodebate, 10/11/2025

https://www.ecodebate.com.br/2025/11/10/saldo-comercial-da-china-ultrapassa-usdollar-1-trilhao-em-2025/

Graham ALLISON. The Trump-Xi Summit: Behind the Curtain, National Interest, May 13, 2026

https://nationalinterest.org/feature/the-trump-xi-summit-behind-the-curtain

KENNEDY, Paul. Ascensão e queda das grandes potências: transformação econômica e conflito militar de 1500 a 2000. Rio de Janeiro: Campus, 1989.

 

Citação
EcoDebate, . (2026). Declínio e Ascensão: O encontro de Trump com Xi Jinping em 2026. EcoDebate. https://www.ecodebate.com.br/2026/05/18/declinio-e-ascensao-o-encontro-de-trump-com-xi-jinping-em-2026/ (Acessado em maio 18, 2026 at 12:46)

 
in EcoDebate, ISSN 2446-9394
 

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