Natureza sistêmica da realidade e sustentabilidade, Parte 2/3, artigo de Roberto Naime

artigo

[EcoDebate] CÓRDULA (2011) assinala que para uma visão mais ampla do mundo em que se vive, há uma necessidade de rompimento das barreiras dos modelos científicos cartesianos e reducionistas, que prendem a mente em processos cognitivos limitados e lineares (CAPRA, 2006). “Em última análise, esses problemas precisam ser vistos, exatamente, como diferentes facetas de uma única crise, que é uma crise de percepção” (CAPRA, 1996, p.23).

Cada ser humano possui este ritmo vital, uma bioenergia que interage com as pessoas a nossa volta, tanto de forma harmônica como desarmônica. O que não se aprendeu ainda, é lidar com este ritmo, saber sua sintonia e como ele afeta as demais pessoas, de forma neutra, negativa ou positiva.

Quando se aprender a lidar com o ritmo vital, daremos um enorme passo para se aprender a tolerar, a respeitar, a mudar o ideal humano (CAPRA, 2006), em um processo de cura da humanidade do ser humano para a preservação das futuras gerações (BOFF, 1999).

Um entrelaçamento semelhante de ritmos parece ser responsável pela vinculação entre os bebês e suas mães e, muito provavelmente, entre as pessoas apaixonadas. Por outro lado a oposição, a antipatia e a desarmonia surgem quando os ritmos de dois indivíduos não estão em sincronia (CAPRA, 2006, p. 296).

Esta ritmicidade bioenergética se traduz em um pensamento sistêmico que poucas pessoas no planeta ao longo da história, em comparação com a população de mais de 6 bilhões de seres humanos, conseguiram desenvolver, pois se desapegaram dos problemas diários impostos por este modo de vida que consome a essência humana (VERNIER, 1994).

Sendo assim, conseguiram encontrar um meio de interagir de forma salutar com os demais seres vivos e o ambiente à sua volta (BOFF, 1999).

O reconhecimento de que é necessária uma profunda mudança de percepção e de pensamento para garantir a nossa sobrevivência ainda não atingiu a maioria dos líderes de nossas corporações, nem os administradores e os professores de nossas grandes universidades (CAPRA, 1996, p. 24).

Mas se imagine um abandono maciço deste modo de vida. Uma mudança radical destas provocaria um impacto caótico ao sistema socioeconômico global, desencadeando problemas ainda mais graves do que já existem. As mudanças devem ser planejadas, lentas e perseverantes.

O que deve haver é uma mudança progressiva, mas contínua, da tecnologia em nosso modo de vida, para uma tecnologia sustentável (DIAS, 2002), caso contrário nunca alcançaremos uma modelo de desenvolvimento tão desejado (DIAS, 2004).

A partir do ponto de vista sistêmico, as únicas soluções viáveis são as soluções “sustentáveis”. O conceito de sustentabilidade adquiriu importância-chave no movimento ecológico e é realmente fundamental (CAPRA, 1996, p. 24).

É nosso dever modificar a percepção do mundo, nosso ritmo bioenergético de viver, de ser influenciado por banalidades a que damos tanto valor. Se deve caminhar para uma cura afetiva da humanidade (BOFF, 1999), e em busca de satisfação pessoal que se refletirá em vários níveis da existência social e ambiental (MATURANA; VARELA, 1997).

Com isto, se passará a ver holisticamente as pessoas, para uma coexistência em uma verdadeira sociedade no sentido epistemológico, integrada ao planeta e a tudo e a todos que nele estão. (CÓRDULA, 2011).

Encarar estes problemas como se fossem separados e não-relacionados conduz a soluções de curta duração e pouco alcance, que muito frequentemente criam mais problemas ambientais de longo alcance, que os que são resolvidos (TANNER, 1978, p.18).

Cabe a cada um de nós decidir o que se quer para o planeta e para nós mesmos, nesta e nas futuras gerações (CAPRA, 1996; TANNER, 1978; DIAS, 2004).

É preciso um tempo onde os desequilíbrios que afligem o ser humano não mais existam, e se busque um novo arranjo de equilíbrio social privilegiando um desenvolvimento harmônico, prospero e de plenitude de nossa espécie no planeta (CÓRDULA, 1999).

Uma sociedade sem medo do futuro, mais voltada para o presente e para celebração da vida em todas as suas formas. É necessário entrar em equilíbrio sistêmico com a nossa própria espécie e com o meio ambiente (CÓRDULA, 2009).

A humanidade busca incessantemente pela evolução tecnológica ao longo dos séculos, numa competição ilusória de poder e hegemonia que influenciou gerações, e que foram levadas a esquecerem de evoluir espiritualmente e socialmente, nas relações interpessoais, o que garantiria uma humanidade mais sustentável (BOFF, 1999).

À medida que o século se aproxima do fim, as preocupações com o meio ambiente adquirem suprema importância. Defrontamo-nos com toda uma série de problemas globais que estão danificando a biosfera e a vida humana de uma maneira alarmante, e que pode logo se tornar irreversíveis (CAPRA, 1996, p. 23).

O aquecimento global é ainda motivo de preocupação para muitos cidadãos conscientes e para a comunidade científica, mas para poucos governantes da economia mundial, que articulam propostas e metas, mas, na prática, pouco se tem feito de concreto, rumo à sustentabilidade da humanidade (CAPRA, 2006; CÓRDULA, 2010).

Um outro mundo é possível, mesmo dentro da livre iniciativa. Que sem dúvida sempre foi e parece que sempre será o sistema que melhor recepciona a liberdade e a democracia. Mas uma nova autopoiese sistêmica para o arranjo social, é inadiável.

BOFF, L. Saber Cuidar: Ética do humano – compaixão pela terra. 16ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 199 p., 1999.

CARSON, R. Primavera Silenciosa. 2ª ed. Tradução de Raul de Polillo. São Paulo: Melhoramentos, 304 p., 1969.

CAPRA, F. A Teia da Vida. Tradução de Newton Roberval Eichemberg. São Paulo: Cultrix, 255 p., 1996.

______. O Ponto de Mutação. Tradução Álvaro Cabral. São Paulo: Cultrix, 445 p., 2006.

CÓRDULA, E. B. L. Ou um Novo Mundo?. In: GUERRA, R. A. T. Educação Ambiental: textos de apoio. João Pessoa, PB: Ed. Universitária da UFPB, p. 46-47, 1999.

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______. Meio Ambiente, Ser Humano e Aquecimento Global.       Revista Eletrônica Educação Ambiental em Ação, n° 34, Ano IX, 05 dez. 2010. Disponível em: http://www.revistaea.org/artigo.php?idartigo=922&class=02. Acesso em 05 dez. 2010b.

______. O Futuro da Humanidade. Jornal da Paraíba, Cidades, João Pessoa, PB, 26 jan. 2011, p. 05.

DIAS, G. F. Iniciação à Temática Ambiental. São Paulo: Gaia, 110 p., 2002.

DIAS, G. F. Educação Ambiental: princípios e práticas. São Paulo: Gaia, 555 p., 2004.

LOVELOCK, J. A Vingança de Gaia. Tradução de Ivo Korytowski. Rio de Janeiro: Intrínseca, 159 p., 2006a.

LOVELOCK, J. Gaia: cura para um planeta doente. Tradução Aleph T. Eichemberg, Newton R. Eichemberg. São Paulo: Cultrix, 192 p., 2006b.

MATURANA, H.; VARELA, F. De Máquinas e Seres Vivos: autopoiese – a organização do vivo. 3ª ed. Tradução de Juan Acuña Llorens. Porto Alegre, RS: Artes Médicas, 138p., 1997.

RIDENOUR, A. New Research Indicates the Earth May Be Cooling. National Policy Analises, 2002. Disponível em: http://www.nationalcenter.org/NPA388.html. Acesso em: 20 jan. 2011.

VERNIER, J. O Meio Ambiente. 2ª ed. Tradução de Maria Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1994.

TANNER, R. T. Educação Ambiental. São Paulo: Summus e EDUSP, 1978.

CÓRDULA, Eduardo Beltrão de Lucena, A Natureza Sistêmica da Realidade: em busca de uma percepção sustentável para a humanidade, Revista de Educação Ambiental Número 36, Ano X. Junho-Agosto/2011. (http://revistaea.org/pf.php?idartigo=1049)

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

Nota da Redação: Leia, também, a parte anterior desta série de artigos:

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in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 29/08/2018

"Natureza sistêmica da realidade e sustentabilidade, Parte 2/3, artigo de Roberto Naime," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 29/08/2018, https://www.ecodebate.com.br/2018/08/29/natureza-sistemica-da-realidade-e-sustentabilidade-parte-23-artigo-de-roberto-naime/.

 

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