A questão ambiental entre a ciência e a ideologia, Parte 2/7, artigo de Roberto Naime

 

artigo

 

[EcoDebate] SILVA et al (1997) asseveram que este período “revolucionário” que a imagem do mundo, tal como a conhecemos hoje, foi construída e deve-se, em grande parte, à Galileu Galilei (1564-1642).

Para ele, a realidade sensível era inteligível, contanto que se realizassem as análises necessárias e se aperfeiçoasse o instrumento matemático, como ocorreu com os trabalhos do físico Isaac Newton (1643-1727).

René Descartes (1596-1650) deu continuidade ao processo de mudanças iniciado por Copérnico e Galileu, sendo considerado o filósofo fundador da modernidade (CHÂTELET, 1994).

A respeito do projeto moderno de dominação racional da natureza pelo homem, Descartes afirma: “conhecendo a força e as ações do fogo, da água, do ar, dos astros, dos céus e de todos os outros corpos que nos cercam, tão distintamente como conhecemos os diversos misteres de nossos artifícios, poderíamos empregá-los da mesma maneira em todos os usos para os quais são próprios, e assim nos tornar como que senhores e possuidores da natureza” (Descartes, 1966:64).

A partir do método cartesiano, a cisão entre homem/natureza e corpo/espírito passou a ser “doutrinária”, ou seja, a visão de separação e dominação tornou-se predominante no mundo ocidental. Esta concepção modula a ciência fracionada que se vive até hoje.

A revolução dos conceitos aceitos perdura ate hoje. Embora a pretensão de tornar o homem “senhor e possuidor da natureza” tivesse se mostrado, nos séculos seguintes, nem tão possível, nem tão boa, o pensamento cartesiano ficou profundamente enraizado na cultura ocidental, desde a sociedade iluminista até os tempos atuais.

Por isso quando se analisa qualquer coisa, não se consegue com facilidade impor abordagem holística.

Dois aspectos importantes destacam-se no pensamento cartesiano, a racionalidade e o antropocentrismo. Conseqüentemente, a natureza dessacralizada pela separação homem-sujeito de um lado e natureza-objeto do outro, resultou em “novas” possibilidades científicas e tecnológicas, libertando definitivamente a ciência das concepções teológicas herdadas do mundo medieval.

Abrem-se diferentes perspectivas no pensamento filosófico, político, econômico e surge a industrialização que deu origem a profundas transformações na sociedade.

A partir do século XVIII, elementos inovadores são introduzidos. Dentre os mesmos, a concentração de capitais, a apropriação das forças produtivas e as novas técnicas, máquinas e matérias-primas.

As indústrias instalam-se, destruindo ou redefinindo o meio rural, produzindo ou ampliando as aglomerações urbanas, modificando as formas de apropriação dos recursos naturais e os modos de relacionamento com o ambiente natural original.

Os impactos ambientais não devem ser associados exclusivamente com a grande indústria, dominante a partir das primeiras décadas deste século. Já no século XVIII, o seu modo de operar se fazia sentir, alterando a natureza, devido, principalmente, a dois elementos fundamentais do relacionamento entre atividades produtivas e meio ambiente, a escala e a intensidade dos impactos (COSTA, 1989). É a partir deste período que ciência e tecnologia tornam-se inseparáveis.

No domínio específico da ciência, observa-se a continuidade da fragmentação do conhecimento científico. A experiência cotidiana permite atestar que embora os órgãos de fomento a pesquisa no país estejam consolidados e representem marcos de competência e idoneidade, estão totalmente comprometidos com estas abordagens científicas totalmente fragmentadas.

Com a valorização da filosofia positiva, no século XIX, a especialização disciplinar vai se estabelecendo como paradigma. Moscovici afirma que “a individualização dos atos, dos interesses e das relações humanas, deram vigoroso impulso à oposição sociedade e natureza. Em física, em biologia, em economia, em filosofia, em toda parte o indivíduo é a unidade de referência e a sociedade só poderia ser um estado antagonista” (MOSCOVICI, 1977:75).

Este constituiu o modelo do projeto racional para o mundo, em que a ciência e a técnica são identificadas como ideais de progresso e felicidade. E está se descobrindo escancaradamente que não é assim.

Apesar da crença progressista na ciência e na tecnologia, a exploração predatória dos recursos naturais é sentida e questionada por alguns grupos. O movimento romântico europeu, por exemplo, possibilitou o surgimento de “novas sensibilidades” em relação ao mundo natural, “o início do período moderno de fato engendrou essa sensibilidade cindida, da qual a civilização sofre até hoje” (THOMAS, 1989:339).

De certa maneira condicionada a esta herança, surge, no século XX, a crítica ao projeto moderno de compreensão e dominação da natureza. As incertezas, os paradoxos e a dificuldade para explicar os novos fenômenos vão conduzindo a ciência a buscar novos rumos.

A “nova física”, proposta por I. Prigogine, demonstra-nos que os fenômenos são dependentes da historicidade, que há imprecisão nos instrumentos e nas observações objetivas da ciência, causando perplexidades.

Assim, Prigogine & Stengers consideram que “as descobertas experimentais inesperadas que marcaram a física tais como instabilidade das partículas elementares, estruturas de não-equilíbrio apontam para a necessidade de ultrapassar a negação do tempo irreversível, herança deixada pela física clássica para a relatividade e a mecânica quântica” (PRIGOGINE & STENGERS, 1992:13).

Deste modo, busca-se compreender a emergência dos sistemas evolutivos e uma nova visão de mundo vai se delineando. Até alcançar os paradoxos de hoje, onde parece que nem ideologia e nem nova ciência salvam a civilização. Apenas nova autopoiese sistêmica civilizatória, mas que não se vislumbra a partir de onde poderá ser construída.

 

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

 

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Nota da Redação: Sugerimos que leia, também, a parte anterior desta série de artigos:

A questão ambiental entre a ciência e a ideologia, Parte 1/7

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 24/07/2018

A questão ambiental entre a ciência e a ideologia, Parte 2/7, artigo de Roberto Naime, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 24/07/2018, https://www.ecodebate.com.br/2018/07/24/a-questao-ambiental-entre-a-ciencia-e-a-ideologia-parte-27-artigo-de-roberto-naime/.

 

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