Saúde e meio ambiente na globalização, Parte 2/2 (Final), artigo de Roberto Naime

 

artigo

 

[EcoDebate] RIGOTTO (1998) explicitando o que apropria como “assimetria” destaca que sob a cortina de um mundo globalizado, de uma suposta “aldeia global” homogeneizada pela superação dos limites do espaço e tempo, se esconde um processo estruturalmente assimétrico. Ele designa papeis e limites específicos a cada segmento ou geografia, mediante nova divisão internacional do trabalho, que aprofunda as desigualdades inter e intranacionais.

Os países industrializados passaram a ser exportadores de tecnologia cientifica e muitos “países subdesenvolvidos” passaram a ser os “novos países industrializados”, num processo desigual tanto do ponto de vista socioeconômico quanto ambiental, no tocante à distribuição dos riscos ambientais e ocupacionais (RODRIGUES apud SOBRAL, 1997).

0 Brasil, como outros países periféricos, está buscando seu ajuste a esta nova ordem mundial, de acordo com suas possibilidades (BACELAR, 1997).

De fato, tendo como base concreta a incorporação de inovações tecnológicas e organizacionais à esfera produtiva, esta revolução abre possibilidades técnicas muito importantes, como é a fantástica ampliação da comunicação humana em tempo real, representada hoje pela internet.

Mas a questão é mais complexa e precisa ser contemplada também por outros ângulos. A reestruturação produtiva rompe com a hegemonia do Estado e a política de bem-estar do pós-guerra e afeta o interior do processo produtivo, a divisão do trabalho, o mercado de trabalho, o papel dos sindicatos, as negociações coletivas.

Tendem a prevalecer, até o momento, os interesses de se rearranjar por maior competitividade, questionando direitos e conquistas dos trabalhadores e das sociedades democráticas (MATTOSO, 1995).

Surgem, assim, novos problemas para o mundo do trabalho como os efeitos sobre o nível e composição dos empregos, sobre as qualificações requeridas ao trabalhador, o valor dos salários e sua relação com a massa de lucro apropriada pelas empresas, as condições de trabalho, a gestão e controle da mão de obra e as relações sindicais (DIEESE, 1994).

Esta alteração produz o desemprego estrutural, resultante da desregulação da concorrência e dos mercados, da ausência de políticas macroeconômicas apropriadas, dos efeitos da globalização financeira sobre o investimento e o crescimento econômico (MATTOSO, 1995).

Se consolida um brutal aprofundamento da fragmentação da classe trabalhadora, que sofre retalhamento em segmentos com perfis de vida muito diferenciados.

Parece, assim, que mais duas características ou tendências devem ser acrescentadas à Reestruturação Produtiva, pela forma como vem sendo conduzida em especial nos países periféricos:

Ocorre a consolidação de segmentos com pouca mobilidade entre si, com níveis de vida muito desiguais, ao tempo em que, pela ampliação estrutural do desemprego, se condena parte considerável da população à condição de desnecessária ao mercado de trabalho e de consumo. São os excluídos.

Agravam-se os mecanismos geradores de desigualdades entre os segmentos sociais, ao aprofundar o abismo entre ricos e pobres. Em 1991, um “quinto mais rico da população do mundo apropriava-se de 84,7% do PIB mundial, enquanto um quinto mais pobre estava reduzido a 1,4%. Em 30 anos, a disparidade das rendas entre estes dois extremos passou, de 30 por um, para 60 por um” (SACHS,1995).

Este quadro aponta para o aumento da heterogeneidade no interior das macrorregiões, coexistindo áreas dinâmicas e “integradas” com outras estagnadas (BACELAR, 1997).

A saúde humana é profundamente marcada pela forma como se vive, no Brasil e no mundo. O processo de globalização e de reestruturação produtiva é mediado pelas mudanças urbanas, as transformações no processo de trabalho e a difusão ampliada dos riscos industriais e ambientais. 0 modo de vida desenhado por este modelo redefine os padrões de saúde-doença das populações:

“A incorporação de milhares de novas substâncias químicas, o aumento das plantas industriais, dos volumes produzidos e transportados e da aplicação de diversas formas de energia trouxeram, indubitavelmente, a ampliação da grandeza e do alcance dos impactos sócio ambientais das atividades humanas nas sociedades contemporâneas. Assim, os padrões de produção e consumo passaram a definir, cada vez mais profundamente, tanto o estado das águas, do ar, dos solos, da fauna e flora, quanto as próprias condições da existência humana: seus espaços de moradia e de trabalho, seus fluxos migratórios, as situações de saúde e de morte.” (FRANCO e DRUCK,1997 p.25)

Estas autoras apontam que, nos espaços urbano-industriais, que hoje concentram mais de dois terços da população, rompem-se as fronteiras entre o ambiente intra e extra-fabril, como demonstram os acidentes industriais de grande porte.

Os riscos gerados na atividade produtiva expandem seu raio de ação, se movimentam pelo espaço geográfico por meio de dutovias e outros meios de transporte, ampliando a população a eles exposta. A biotecnologia e novos materiais geram novos meios de agressão aos mecanismos de regulação da biosfera e lesam os organismos humanos com efeitos cumulativos que podem resultar em mutagênese, teratogênese, carcinogênese (FRANCO e DRUCK, 1997).

Por outro lado, as doenças infectocontagiosas emergentes e as re-emergentes, como a tuberculose, a dengue e a cólera se associam às doenças crônico-degenerativas e ao crescimento das causas externas, como a violência, os acidentes de trânsito e de trabalho e as intoxicações de origem ambiental ou ocupacional. É o registro, no corpo das pessoas, da perversa sobreposição de padrões de pobreza e miséria aos padrões “modernos” de desgaste da saúde (MINAYO, 1995).

Retrocesso nas políticas sociais, como tem sido visto na questão da previdência social ou do financiamento do Sistema Único de Saúde (SUS), com sérios impactos sobre a qualidade da atenção prestada à saúde da população.

Ocorre tendência à “privatização” do controle ambiental, relegado às leis do mercado e à iniciativa privada, sem participação do Estado ou da sociedade civil, como no caso dos sistemas de certificação ISO 14000 e 9000 (SOBRAL, 1997; VILELA & IGUTI, 1997).

Também ocorre tendência ao crescimento da violência, pelo agravamento da questão social, com os seus reflexos sobre o perfil de morbi-mortalidade da população com assaltos, homicídios, dependência de drogas, gangues urbanas, delinquência juvenil e acidentes de trânsito.

Com a introdução de inovações tecnológicas e, em especial, de novas formas de organizar o trabalho, surge a exigência de um novo perfil do trabalhador. 0 saber já possuído por ele não interessa mais, há demanda de aquisição permanente de novos conhecimentos, somada à exigência de polivalência.

RIGOTTO (1998) indica que o medo da demissão assola os trabalhadores e gera profunda insegurança quanto ao futuro. Ele sobrepõe-se à preocupação permanente em “garantir-se” no emprego, num clima de “salve-se quem puder” que deteriora as relações humanas no trabalho e submete os trabalhadores a um cotidiano estressante.

Tendência à redução da jornada de trabalho, com repercussões sobre tempo de lazer, convivência familiar e social, hábitos culturais.

Possibilidade de reflexo sobre o perfil de morbi-mortalidade: acentuar tendência já verificável de aumento das doenças mentais, psicossomáticas, cardiovasculares e crônico-degenerativas.

Não seria correto cair no determinismo tecnológico e execrar as novas tecnologias como os demônios responsáveis por nossos males. Os impactos das tecnologias dependem das políticas sociais que acompanham sua implantação (NEVES, 1991).

A vida torna-se uma fatalidade. “A do desemprego, da marginalidade opressiva, da solidão, da ociosidade, da angústia, da neurose, ou a da cultura, da criação, da pesquisa, da reinvenção do meio ambiente, do enriquecimento dos modos de vida e de sensibilidade” (GUATTARI, 1990).

Um outro mundo é possível. Ocorre enfatizar que nada é contra a livre-iniciativa. Que sem dúvida sempre foi e parece que sempre será o sistema que melhor recepciona a liberdade e a democracia. Mas uma nova autopoise sistêmica para o arranjo social, é urgente. Como está explicitamente mais do que demonstrado.

Referências:

BACELAR, Tânia. Herança de Diferenciação e Futuro de Fragmentação. Estudos Avançados. São Paulo, 11(29): 7-36, 1997.

CARVALHO, Alba M. Pinho. 0 Processo de Globalização e seus Rebatimentos no Estado. Conferência proferida no I Congresso de Assistência Social da Amazônia. Belém do Para, 1997.

CARVALHO, Alba M. Pinho. A Globalização e o Desafio da Questão Social. Conferência proferida no XIV Congresso Brasileiro de Economia Doméstica. Fortaleza, 1997.

DIAS, Elizabeth; LINO, Domingos. Globalização e a Saúde e Segurança dos Trabalhadores. Boletim LEAD Brasil. São Paulo, nº 6, jan-mar 1996.

DIEESE. Trabalho e Reestruturação Produtiva: 10 Anos de Linha de Produção. São Paulo: DIEESE, 1994.

FRANCO, T.; DRUCK, G. A degradação do trabalho e os riscos industriais no contexto da Globalização, Reestruturação Produtiva e das políticas Neoliberais. In: FRANCO, T. (org.).Trabalho, riscos industriais e meio ambiente: rumo ao desenvolvimento sustentável?Salvador: EDUFBA/CRH/FFCH/ UFBA, 1997. pp. 15-32.

FERREIRA, C.G. 0 fordismo, sua crise e o caso brasileiro. Cadernos do CESIT- Texto para discussão nº 13. Campinas: CESIT, 1993.

FREIRE, P. Globalização Ética e Solidariedade. In: DOWBOR, L; IANNI, 0; RESENDE, P.E. Desafios da Globalização. Petrópolis: Vozes, 1997. pp. 248-251.

GONÇALVES, Carlos Augusto. Reestruturação Produtiva e Ação Sindical. São Paulo: DESEP/CUT, s.d. mimeo.

GUATTARI, Felix. As Três Ecologias. Campinas: Papirus, 1990.

HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos – o breve século XX. São Paulo: Cia. das Letras, 1995.

MATTOSO, Jorge. A Desordem do Trabalho. São Paulo: Página Aberta, 1995.

MINAYO, M.C.S. (org.). Os muitos Brasis – Saúde e População na década de 80. São Paulo: Hucitec, Rio de Janeiro: ABRASCO, 1995.

NEVES, Magda. Mudanças Tecnológicas e Organizacionais e os Impactos sobre o Trabalho e a Qualificação Profissional. Palestra proferida na 6ª Conferencia Brasileira de Educação. São Paulo, 1991. mimeo.

NEVES, Magda. Reestruturação Produtiva e Estratégias no Mundo do Trabalho: as Conseqüências para os Trabalhadores. Belo Horizonte: s.d. mimeo.

RATTNER, Henrique. Tecnologia e saúde: Um Convívio Sustentável? Boletim LEAD Brasil. São Paulo: nº 4, out-dez 1995.

RATTNER, Henrique. Globalização: em direção a um mundo só? In: BECKER, Bertha; MIRANDA, Mariana (orgs). A Geografia Política do Desenvolvimento Sustentável. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ: 1997. pp. 127-148.

SACHS, I. Em busca de Novas Estratégias de Desenvolvimento. Estudos Avançados USP. São Paulo: vol. 9, nº 25, set/dez, 1995.

SOBRAL, H.R. Globalização_ e Meio Ambiente. In: DOWBOR, L; IANNI, 0; RESENDE, P.E. Desafios da Globalização. Petrópolis: Vozes, 1997. pp. 140-146.

VILELA, R.; IGUTI, M. (1997). Uma análise crítica da ISO 14000. Piracicaba, mimeo.

United Nations Development Programm. Human Development Report. N. York, Oxford: Oxford Univ. Press, 1990.

RIGOTTO, Raquel Maria. SAÚDE DOS TRABALHADORES E MEIO AMBIENTE EM TEMPOS DE GLOBALIZAÇÃO E REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, 93/94: 9-20, dez. 1998

 

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

 

* Nota da Redação: sugerimos que leiam, também, a primeira parte deste artigo – Saúde e Meio Ambiente na Globalização, Parte 1/2

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 06/03/2018

Saúde e meio ambiente na globalização, Parte 2/2 (Final), artigo de Roberto Naime, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 6/03/2018, https://www.ecodebate.com.br/2018/03/06/saude-e-meio-ambiente-na-globalizacao-parte-22-final-artigo-de-roberto-naime/.

 

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