Saúde e meio ambiente na globalização, Parte 1/2, artigo de Roberto Naime

 

artigo

 

[EcoDebate] RIGOTTO (1998) se questiona sobre quais os rebatimentos da globalização e da consequente reestruturação produtiva sobre a saúde dos trabalhadores e o meio ambiente.

Para identificar as principais tendências neste sentido, RIGOTTO (1998) atribui a incorporação de novas tecnologias e novas formas de organizar o trabalho, a flexibilização, a focalização da produção a desterritorialização do capital, a financeirização da economia, a emersão de novos atores globais e a crise do estado nacional.

Descreve as conseqüências deste processo no mundo do trabalho, enfatiza a fragmentação da classe trabalhadora e o agravamento da exclusão social. Relaciona as mudanças urbanas, as transformações no processo de trabalho e a difusão ampliada dos riscos industriais-ambientais como mediadoras dos rebatimentos da Globalização e da Reestruturação Produtiva sobre a saúde humana e o meio ambiente.

Se contempla, como fruto da modernidade, nesta virada de milênio, o espetáculo dos avanços científicos e tecnológicos da civilização humana. A população mundial cresceu, a maioria é melhor alimentada, mais alta e mais pesada, mais longeva. Somos muito mais capazes de produzir bens e serviços. A humanidade é muito mais culta (HOBSBAWM, 1995).

O projeto de modernidade para resolver problemas fundamentais da humanidade, tem limitações. Mesmo sabendo que a avalanche de números muitas vezes banaliza os problemas e oculta o sofrimento humano, vale lembrar que mais de um bilhão de pessoas vivem em pobreza absoluta, 900 milhões de adultos são analfabetos, 100 milhões de pessoas não tem casa, 150 milhões de crianças menores de 5 anos são desnutridas conforme a “United Nations Development Programm/UNDP”, 1990.

Existem ainda os problemas ambientais gerados pela sociedade urbano-industrial, como o efeito estufa, a destruição da camada de ozônio, as chuvas ácidas, a produção de milhares de poluentes da água, do solo e do ar, o acúmulo de lixo tóxico e a exploração intensiva de recursos naturais não-renováveis.

RIGOTTO (1998) traça que é exatamente neste cenário de modernização conservadora (MATTOSO, 1995) que surgem mudanças profundas na vida social e nos processos de trabalho, as quais vem sendo estudadas como reestruturação produtiva, ou reconversão econômica, ou Nova Ordem Econômica Mundial, ou ainda Terceira Revolução Industrial.

Falar em Terceira Revolução Industrial pode invocar em nosso imaginário uma paisagem arrojada e futurista, com robôs, maquinas de comando numérico, manufaturas e desenhos ajudados por computador, programas de controle de qualidade, ISO 9000 e reengenharia.

Está claro que a reestruturação produtiva é um processo econômico, político e cultural em curso, de grande dinamismo e alta complexidade, acontece em escala planetária e em ritmo intenso, exigindo a inserção de todos.

Estruturalmente vinculada à Globalização, estes dois processos tem sido conduzidos pelas forças hegemônicas em âmbito internacional, representando a mais recente configuração.

E que aponta para profundas repercussões sobre a vida social (CARVALHO, 1997). Dai a importância de estudar este processo, verificar suas reais dimensões; identificar, em essência, suas potencialidades, para buscar interferir nele. A seguir apresentam-se algumas das características ou tendências que já se configuram:

RIGOTTO (1998) revela que ocorre apropriação dos avanços da microeletrônica e da incorporação da informática aos processos de produção para garantir produtos de melhor qualidade e maior competitividade no mercado.

Isto modifica as rígidas formas taylorista e fordista de organizar o trabalho nas empresas, sob forte influência do modelo toyotista japonês, reduzindo os níveis hierárquicos, buscando mais iniciativa e participação do trabalhador no processo (FERREIRA, 1993).

Expandem-se novas modalidades de trabalho, como o autônomo, o tempo parcial, o temporário, a domicilio etc. No campo das relações de trabalho, “verifica-se a implementação de políticas que visam impor ao empregado uma nova identidade, configurada na relação entre indivíduo-empresa e forjada através de diferentes estratégias de interação na disputa pela lealdade do trabalhador” (NEVES, 1991).

Desconcentra geograficamente a produção, utilizando as facilidades de transporte oferecidas pela globalização. Ocorre organização da fabricação de componentes a partir de atividades em diversos países, usufruindo de vantagens comparativas no acesso a recursos naturais e matérias-primas, isenções oferecidas pelos governos, características da mão-de-obra local. (CARVALHO, 1997).

A grande empresa tende a ser substituída por estabelecimento menores, que centra sua atividade naquilo que é a sua excelência. As demais partes do processo produtivo são delegadas a outras empresas, as terceirizadas. Estas empresas, as vezes, são implantadas numa mesma área geográfica, formando um condomínio de empresas (GONÇALVES, s.d.).

A competitividade se baseia na identificação e na produção de bens não padronizados, voltados para nichos de mercado ou atende, aparentemente, aos desejos do consumidor individual.

Em oposição a produção de bens em massa, supõe uma planta industrial flexível, com máquinas universais programáveis e operadas por trabalhadores especializados, qualificados e polivalentes (ANTUNES, 1996).

Há um domínio do capital financeiro, operando como “dinheiro volátil”, por meio de redes e circuitos informatizados globais, cerca de quase 2 trilhões de dólares por dia, em detrimento do investimento produtivo. Mesmo as corporações tipicamente industriais, tem as aplicações financeiras como um elemento central de seus processos (CARVALHO, 1997).

Articuladas ao neoliberalismo, estas transformações tem sido conduzidas pelos interesses diretos de novos e poderosos atores sociais, refletindo acelerada concentração do capital. Ocorrem crises de autoridade e dificuldades dos estados nacionais de impor suas políticas (RATTNER, 1997). Sempre que necessário o meio ambiente é vítima, como no caso dos agrotóxicos e outras substâncias químicas deletérias.

Referências:

BACELAR, Tânia. Herança de Diferenciação e Futuro de Fragmentação. Estudos Avançados. São Paulo, 11(29): 7-36, 1997.

CARVALHO, Alba M. Pinho. 0 Processo de Globalização e seus Rebatimentos no Estado. Conferência proferida no I Congresso de Assistência Social da Amazônia. Belém do Para, 1997.

CARVALHO, Alba M. Pinho. A Globalização e o Desafio da Questão Social. Conferência proferida no XIV Congresso Brasileiro de Economia Doméstica. Fortaleza, 1997.

DIAS, Elizabeth; LINO, Domingos. Globalização e a Saúde e Segurança dos Trabalhadores. Boletim LEAD Brasil. São Paulo, nº 6, jan-mar 1996.

DIEESE. Trabalho e Reestruturação Produtiva: 10 Anos de Linha de Produção. São Paulo: DIEESE, 1994.

FRANCO, T.; DRUCK, G. A degradação do trabalho e os riscos industriais no contexto da Globalização, Reestruturação Produtiva e das políticas Neoliberais. In: FRANCO, T. (org.).Trabalho, riscos industriais e meio ambiente: rumo ao desenvolvimento sustentável?Salvador: EDUFBA/CRH/FFCH/ UFBA, 1997. pp. 15-32.

FERREIRA, C.G. 0 fordismo, sua crise e o caso brasileiro. Cadernos do CESIT- Texto para discussão nº 13. Campinas: CESIT, 1993.

FREIRE, P. Globalização Ética e Solidariedade. In: DOWBOR, L; IANNI, 0; RESENDE, P.E. Desafios da Globalização. Petrópolis: Vozes, 1997. pp. 248-251.

GONÇALVES, Carlos Augusto. Reestruturação Produtiva e Ação Sindical. São Paulo: DESEP/CUT, s.d. mimeo.

GUATTARI, Felix. As Três Ecologias. Campinas: Papirus, 1990.

HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos – o breve século XX. São Paulo: Cia. das Letras, 1995.

MATTOSO, Jorge. A Desordem do Trabalho. São Paulo: Página Aberta, 1995.

MINAYO, M.C.S. (org.). Os muitos Brasis – Saúde e População na década de 80. São Paulo: Hucitec, Rio de Janeiro: ABRASCO, 1995.

NEVES, Magda. Mudanças Tecnológicas e Organizacionais e os Impactos sobre o Trabalho e a Qualificação Profissional. Palestra proferida na 6ª Conferencia Brasileira de Educação. São Paulo, 1991. mimeo.

NEVES, Magda. Reestruturação Produtiva e Estratégias no Mundo do Trabalho: as Conseqüências para os Trabalhadores. Belo Horizonte: s.d. mimeo.

RATTNER, Henrique. Tecnologia e saúde: Um Convívio Sustentável? Boletim LEAD Brasil. São Paulo: nº 4, out-dez 1995.

RATTNER, Henrique. Globalização: em direção a um mundo só? In: BECKER, Bertha; MIRANDA, Mariana (orgs). A Geografia Política do Desenvolvimento Sustentável. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ: 1997. pp. 127-148.

SACHS, I. Em busca de Novas Estratégias de Desenvolvimento. Estudos Avançados USP. São Paulo: vol. 9, nº 25, set/dez, 1995.

SOBRAL, H.R. Globalização_ e Meio Ambiente. In: DOWBOR, L; IANNI, 0; RESENDE, P.E. Desafios da Globalização. Petrópolis: Vozes, 1997. pp. 140-146.

VILELA, R.; IGUTI, M. (1997). Uma análise crítica da ISO 14000. Piracicaba, mimeo.

United Nations Development Programm. Human Development Report. N. York, Oxford: Oxford Univ. Press, 1990.

RIGOTTO, Raquel Maria. SAÚDE DOS TRABALHADORES E MEIO AMBIENTE EM TEMPOS DE GLOBALIZAÇÃO E REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, 93/94: 9-20, dez. 1998

 

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

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in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 01/03/2018

Saúde e meio ambiente na globalização, Parte 1/2, artigo de Roberto Naime, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 1/03/2018, https://www.ecodebate.com.br/2018/03/01/saude-e-meio-ambiente-na-globalizacao-parte-12-artigo-de-roberto-naime/.

 

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