As desigualdades na distribuição mundial da renda, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

 

As desigualdades na distribuição mundial da renda

 

[EcoDebate] A má distribuição de renda no mundo é um fato conhecido de todas as pessoas. A novidade recente é que houve um ligeiro declínio na desigualdade mundial entre 1988 e 2008. Mesmo assim a concentração de renda é impressionante, pois 8% da população com rendimentos concentravam 50% da renda em 2008 e os 20% mais ricos concentravam cerca de 75% da renda global, segundo artigo recente do economista Branko Milanovic (chefe de pesquisa do Banco Mundial).

A melhora na distribuição ocorreu nas chamadas classes médias. Porém, o top 1% mai rico teve sua renda aumentada em mais de 60 por cento durante essas duas décadas, enquanto os 5% mais pobres receberam, em 2008, os mesmos rendimentos que recebiam em 1988. Ou seja, os desesperadamente pobres, continuam desesperadamente pobres (mas não necessariamente apáticos).

O artigo também mostra que a desigualdade global é muito maior do que a desigualdade dentro de qualquer território individual, já que as gritantes diferenças entre os países contribui para as diferenças dentro de qualquer um deles e porque a maioria das pessoas vive em países extremamente pobres, em grande parte em nações dentro de uma faixa de três mil milhas ao redor do Equador (onde o clima já é muito quente mesmo sem o aquecimento global).

Por exemplo, a lista de PIB per capita do Banco Mundial mostra que, em 2011, a renda variava de US$ 231 na República Democrática do Congo para US$ 171.465 em Mônaco. O segundo mais pobre e o segundo mais rico países foram, respectivamente, 271 dólares no Burundi e US$ 114.232 em Luxemburgo. Esses dois exemplos indicam como varia amplamente as faixas do PIB per capita entre as nações.

Milanovic mostra que existe um problema de localização geográfica da pobreza, pois a maioria dos países de baixa renda estão em regiões tropicais. Uma criança que nasce nestes países tem alta probabilidade de continuar pobre durante o resto da vida.

O autor considera que se o local da cidadania explica 50% ou mais da variabilidade dos rendimentos globais, então existem, segundo ele, três maneiras para se reduzir as desigualdades globais: 1) a desigualdade pode ser reduzida por meio de altas taxas de crescimento nos países pobres. Isso exigiria uma aceleração do crescimento da renda dos países de baixa renda e, claro, continuar as altas taxas de crescimento da Índia, China, Indonésia, etc; 2) a segunda maneira seria introduzir esquemas de redistribuição globais, embora o autor considere que seja uma solução muito difícil de ser implementada, pois, atualmente, a ajuda ao desenvolvimento é um pouco mais de 100 bilhões ao ano e com a crise econômica estes recursos tendem a diminuir; 3) a terceira maneira em que a desigualdade e a pobreza podem ser reduzidas é através da migração.

Mas o deslocamento de pessoas de países de baixa pegada ecológica para países de alta pegada ecológica vai agravar os problemas do meio ambiente e do aquecimento global. Mas as pressões e os conflitos da migração internacional vão continuar fortes, simplesmente porque as diferenças nos níveis de renda são enormes entre as nações e as regiões do mundo. Milanovic termina o artigo alertando: “ou os países pobres ficam mais ricos, ou as pessoas pobres irão se mover para os países ricos”.

O fato é que as desigualdades nacionais de renda são grandes, mas são maiores ainda entre os países (embora as desigualdades internacionais estejam diminuindo devido ao alto crescimento da China, Índia e outros países “emergentes”) . Fazer com que os pobres fiquem ricos é uma bandeira muito simpática e necessária. Mas a continuidade do crescimento econômico vai trazer desafios ambientais cada vez mais sérios devido à escassez de recursos provocada pela degradação da natureza. Neste sentido, pode ser que a única alternativa viável seja os ricos ficarem menos ricos e que a humanidade, em conjunto, reduza o processo de empobrecimento do meio ambiente.

O mundo está chegando a um ponto de inflexão, pois é impossível continuar com o atual modelo de concentração da renda e de destruição ambiental. O difícil será resolver estas duas questões em um horizonte de crise econômica internacional, onde as nuvens carregadas impedem uma visão clara dos novos rumos que precisam ser trilhados e navegados.

Referência:

MILANOVIC, Branko Global Income Inequality by the Numbers : In History And Now — An Overview. 2013. http://heymancenter.org/files/events/milanovic.pdf

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

 

EcoDebate, 28/06/2013


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