Investimento anual de R$ 20 por pessoa pode sanar falta de água no NE, diz professor

 

Audiência Pública: Questão da seca no Nordeste Brasileiro. Foto de Sérgio Almeida / Agência Câmara
Audiência Pública: Questão da seca no Nordeste Brasileiro. Foto de Sérgio Almeida / Agência Câmara

 

A estiagem no Nordeste, que já atingiu mais de 10 milhões de pessoas, foi discutida na audiência.

O professor e pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) João Abner Guimarães Júnior defendeu, nesta quinta-feira (22), a implementação de uma espécie de programa “Água para Todos”, nos moldes do atual “Luz para Todos”, para resolver o problema de abastecimento de água no Nordeste. Doutor em Recursos Hídricos, Abner ressaltou que, com investimento de R$ 20 por pessoa ao ano, pode ser sustentada uma grande rede de abastecimento na região, com sistemas integrados de adutoras (dinâmica usada para transportar a água da fonte para o tratamento, que inclui canalização subterrânea, aquedutos e/ou túneis).

O pesquisador participou de audiência pública, na Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, sobre a seca que o Nordeste brasileiro enfrenta – conforme os participantes, trata-se da pior estiagem dos últimos 40 ou 50 anos. De acordo com o diretor da Secretaria Nacional da Defesa Civil do Ministério da Integração Nacional, Rafael Schadeck, mais de 10 milhões de pessoas em 1.317 municípios estão sendo atingidas atualmente pela falta de chuvas no Nordeste.

Mau uso da água
Segundo Abner, existe, comprovadamente, bastante água no Nordeste Setentrional (região que engloba Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará). Na visão dele, o problema está no uso que é feito dessa água. “A seca é, sobretudo, um problema social. As políticas do governo são meramente paliativas ao longo de toda a história”, disse. “No Canadá e na Sibéria, não se reclama da neve”, comparou.

O pesquisador propôs a adoção de uma política de desenvolvimento sustentável para o Nordeste. Conforme Abner, a prioridade deve ser democratizar o acesso à água, ou o “abastecimento humano”, e não a irrigação.

O diretor do Ministério da Integração informou que já existe um programa do governo “Água para Todos no Semiárido”, por meio do qual já foram entregues, na região, mais de 181 mil cisternas (reservatório para armazenamento de águas da chuva). “Esse programa é baseado em soluções que funcionam bem na época da chuva, e não na época da seca”, contestou Abner.

Abastecimento por carro-pipa
O professor da UFRN defendeu ainda que a utilização de carros-pipa é o sistema mais precário de abastecimento de água que existe.

Na audiência, Schadeck informou que a principal ação do governo para os municípios atingidos pela seca é justamente a “Operação Carro-Pipa”, que leva água nesse tipo de veículo a moradores de cidades que decretaram situação de emergência devido à falta de chuva. “Não estamos dizendo que é o modelo mais correto, mas hoje é o meio que está levando água para quem precisa”, declarou.

Conforme o diretor do Ministério da Integração, o governo federal também já transferiu recursos para a recuperação de poços e para a chamada “bolsa estiagem” – auxílio emergencial financeiro para a população, no valor de cinco parcelas de R$ 80. A bolsa já foi concedida para cerca de 835 mil famílias e será ampliada em mais duas parcelas, ressaltou Schadeck. Além disso, de acordo com ele, o Executivo disponibiliza linha emergencial de crédito para recuperação dos produtores agrícolas em médio prazo.

Transposição do Rio São Francisco
O professor João Abner criticou ainda o fato de as políticas do governo de combate estrutural à seca estarem sendo centradas no polêmico projeto de transposição de águas do Rio São Francisco. “Esse projeto é uma grande fraude, que foi vendido à população como solução para a seca no Nordeste”, opinou. Na visão dele, a transposição vai atender às demandas de irrigação de áreas agrícolas, e não vai resolver o problema de abastecimento de água para a população.

O pesquisador João Suassuna, da Fundação Joaquim Nabuco, também é contrário à transposição. Segundo ele, com o empreendimento, a água do São Francisco chegará onde já é abundante – ou seja, nas 70 mil represas existentes no Nordeste. “O problema do abastecimento das populações difusas não será resolvido com o projeto”, salientou. Além disso, ele destacou que a qualidade da água do rio é péssima – “um caldo de bactérias” -, sendo imprópria até para o banho. “Populações inteiras vão ser acometidas de doenças veiculadas por meio da água, como esquitossomose, se forem abastecidas pelo rio”, apontou.

O presidente da comissão, deputado Sarney Filho (PV-MA), que solicitou o debate, também se manifestou contrariamente à transposição do Rio São Francisco. “A transposição pode ser não só de água, mas de doenças também”, afirmou. “O governo, que está gastando uma fortuna nessa obra, deveria cuidar da revitalização das águas do rio”, complementou.

Reportagem – Lara Haje
Edição – Marcelo Oliveira

Matéria da Agência Câmara de Notícias, publicada pelo EcoDebate, 23/11/2012

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