Meio Ambiente, Ciência e Tecnologia: pontos estratégicos para o desenvolvimento nacional, artigo de Valdir Lamim-Guedes

 

A Ciência e Tecnologia (C&T) são responsáveis por melhorias na qualidade de vida da humanidade, sobretudo nos últimos séculos. Com avanços nestas áreas, obtivemos um melhor acesso à saúde, segurança alimentar e um grande espectro de facilidades, como meios de transporte e de comunicação.

A história dos Países mais desenvolvidos socioeconomicamente deve-se, em parte, ao fato de terem colonizado outros locais, possibilitado pela capacidade de dominar outros povos e comercializar com outras nações. Isto dependeu, por exemplo, de novas técnicas de plantio e beneficiamento da cana de açúcar, a capacidade de transportar mercadorias e ter exércitos eficientes. Estas características dependeram da existência de avanços científicos que refletiram em um número considerável de pessoas capacitadas e na aplicação do conhecimento cientifico na criação e aprimoramento de tecnologias, um exemplo neste caso, é a possibilidade de fazer mapas detalhados e ter embarcações eficientes e seguras. Nesta linha de raciocínio, a revolução industrial, foi fruto do avanço tecnológico na produção de tecidos, que deixou de ser artesanal e passou a ser manufaturada.

Conclui-se que investimentos em C&T foram estratégicos para o desenvolvimento dessas nações. Muitas decisões políticas são mediadas por um debate baseado em evidências cientificas e disponibilidade de tecnologias. No caso do Brasil, o debate acirrado em torno de questões ambientais tem utilizado de muitas informações no âmbito da C&T.

Ruralistas e outros setores da sociedade afirmam que a expansão da área agrícola é essencial para o País continuar crescendo, e por causa disto, foram propostas alterações no código florestal, atualmente em trâmite no senado. Do outro lado, ambientalistas argumentam que as exigências do código florestal de 1965 são adequadas, e insistem que a manutenção das florestas é importante pela manutenção da biodiversidade, dos serviços ambientais e que as áreas florestais podem gerar renda, por exemplo, com a extração de produtos como frutos, sementes e óleos. E ainda, apontam que a utilização adequada das terras utilizadas pela agropecuária é o suficiente para a expansão da produção agrícola sem derrubar mais nenhuma árvore.

Este debate envolve o planejamento a curto, médio e longo prazos, e é justamente por focar apenas no curto-médio prazo (ruralistas) ou preocupar-se com o longo prazo (ambientalistas) que parece existir uma polêmica sem solução. Tal polêmica consiste na existência de uma falsa dicotomia entre desenvolvimento econômico e proteção do meio ambiente, e um ponto de equilíbrio é possível ao utilizar a C&T.

O desenvolvimento de novas tecnologias e diversificação da produção agrícola, a redução dos impactos ambientais e a reforma agrária são aspectos que fazem convergir desenvolvimento e meio ambiente. Um exemplo disto seria uma mudança de olhar sobre as florestas, ou seja, produtos florestais geram renda, como é o caso de óleos essenciais que são utilizados pela indústria de cosméticos, assim como o pagamento por serviços ambientais e créditos de carbono podem complementar a renda das famílias.

O triângulo da sustentabilidade consiste na existência de um desenvolvimento econômico que agride pouco o meio ambiente e que apresente avanços sociais. Para obter uma configuração destas, é necessário a valorização e investimentos em C&T. O modelo econômico adotado atualmente está baseado na exploração de matérias-primas e produtos agropecuários (minérios, soja e carne), geralmente com pouco valor agregado.

Assim, para a obtenção de avanços reais e duradouros, é necessário investir fortemente em C&T, na formação de profissionais de diversas áreas e na melhoria da qualidade de vida com redistribuição de renda, evitando ao máximo a degradação ambiental. Isto é que permitirá ao Brasil ser considerado um país desenvolvido, dada à nova configuração internacional.

Valdir Lamim-Guedes é mestre pelo Programa de Pós-graduação em Ecologia de Biomas Tropicais da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop).

Artigo socializado pelo Jornal da Ciência / SBPC, JC e-mail 4396.

EcoDebate, 02/12/2011

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