Procura-se um dono para o Baixo Parnaíba, artigo de Mayron Régis

[EcoDebate] Um dia a mais ou a menos, tanto faz, alguém perguntou o porquê do Fórum Carajás bater tanto na Suzano Papel e Celulose e bater tão pouco nos plantadores de soja do Baixo Parnaiba. Para quem chegara havia pouco tempo na região, a pergunta castigava o ouvinte com sofreguidão e curiosidade. Entretanto, o que se via no ambiente contrastava com a conversa.

A audiência pública do empreendimento de eucalipto da Suzano em Timon, centro-leste maranhense, reverberava um caráter de evento corporativo, onde os funcionários da empresa suplantavam a sociedade civil. Alguém injuriava a secretaria de meio ambiente do estado do Maranhão que, pelo visto, em nada mobilizara as comunidades. A presença das comunidades inverteria para que lado a audiência? A negligência da secretaria de meio ambiente do Maranhão só escancara aquilo que todos sabem: as audiências públicas cumprem tabela na liberação de licenças ambientais.

A Suzano negocia áreas no Maranhão, Piaui e Tocantins com todo tipo de gente e conta com apoio de tudo que é tipo de governo. Ela emite sinais que quer se tornar a maior produtora de madeira da região meio-norte do Brasil e para isso áreas grandes são as prediletas. Áreas grandes rimam com propriedade privada, não é mesmo?

Nem todas as áreas grandes no Maranhão se encontram sob o tacão de um dito proprietário, como as terras do pólo Coceira, do Pau Serrado, da Vertentes e do Buriti, município de Santa Quitéria, Baixo Parnaiba maranhense. Procura-se um “dono”, então, para dar vazão a ambição por essas grandes áreas. Quem são esses “donos” que surgem de uma hora para outra alegando a posse ou a propriedade de uma área? Em Anapurus, um desses donos vendeu sua área para a Suzano, simplesmente, porque lhe agastava o fato das pessoas que moram próximas a Chapada do Campestre coletarem bacuri.

O senhor Gilmar, plantador de soja do Baixo Parnaíba, ronda essas áreas sem-dono ou mesmo as que a Suzano diz que é dona porque sabe de cor e salteadp que elas apresentam algumas peculiaridades como no caso do Pólo Coceira, onde a análise da cadeia dominial pelo Incra aponta que dos mais de seis mil hectares a documentação da Suzano só atende o requisito de propriedade em três mil. O próprio Gilmar ofertou seus serviços para que as comunidades do Pólo Coceira regularizassem as áreas em disputa com a Suzano no Iterma (instituto de Terras do Maranhão), desde que ele ficasse com um outro tanto, mas as comunidades objetaram.

A audiência em Timon, no final de maio de 2010, figura dentro do projeto da Suzano Papel e Celulose que abarca milhares de hectares do Baixo Parnaiba maranhense e da região dos Cocais. A regularização das áreas pretendidas pelas comunidades de Santa Quitéria e de outros municípios forçaria um novo planejamento por parte da empresa.

Mayron Régis, jornalista, é Assessor do Fórum Carajás e articulista do EcoDebate.

EcoDebate, 19/08/2010

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