Jornalismo: empresas concentram poder, artigo de Nilo Sergio S. Gomes


[EcoDebate] Das recentes derrotas dos jornalistas brasileiros no campo de seus direitos trabalhistas e de condições de vida e trabalho, a queda do diploma é a mais emblemática, por envolver a Suprema Corte do país. Essas derrotas demonstram, por sua vez, o mais completo enfraquecimento da capacidade de luta e resistência da categoria, nas últimas décadas.

Os jornalistas – trabalhadores que são – não têm conseguido impor resistência à altura dos ataques sobre os seus direitos, o principal deles exercer uma atividade profissional especializada, devidamente regulamentada e que exige formação em nível de ensino superior. Essas especificidades da profissão não devem, contudo, esconder e nem ocultar as relações sociais e de trabalho nas quais e das quais está investida.


Trabalho assalariado, em geral mal remunerado e que sobrevive a duras penas em um mercado que, pelo reverso, é cada vez mais concentrado e concentrador de capital e de poder. Poder econômico e poder político, portanto. Ou seja, dois movimentos distintos e opostos: trabalho enfraquecido e capital cada vez mais forte.

Esta é a realidade dos jornalistas brasileiros, que revela ao mesmo tempo a fragilidade das entidades sindicais e de defesa da categoria, enquanto as empresas se fundem e concentram poder de ditar as regras, controlando o mercado da folha impressa aos portais e conteúdos da internet. Empresas que agora são internacionais, como no Rio, onde um grupo português acaba de comprar o jornal O Dia. Na mídia, isto é, nos meios de comunicação de um modo geral, o capital se internacionaliza e concentra. No reverso, o jornalista agora tem que ser multimídia: foto, filme e texto.

Concentrar é da natureza mesma do capital, assim como resistir e lutar é da natureza própria dos que trabalham. Mesmo com iniciativas como “eu repórter”, “eu fotógrafo”, “eu comentarista”, que as empresas hoje incentivam, em todo tipo de mídia, diariamente e a cada momento as pessoas buscam notícias, informações e análises jornalísticas. E as encontram em jornais, rádios, tevês, portais e blogs da internet. Isso porque diariamente milhares de jornalistas e trabalhadores de empresas de comunicação em geral trabalham, renovando as edições dos “produtos” dos quais estão a serviço. Por mais avançadas que sejam as tecnologias de produção, não há como escamotear as relações sociais e de trabalho presentes na realização mesma dos produtos jornalísticos. O que os jornalistas precisam, portanto, é resistir e lutar com mais competência.

Nilo Sergio S. Gomes, articulista do EcoDebate, é Jornalista, professor da Escola de Comunicação da UFRJ.

EcoDebate, 25/06/2010

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