Desastre ambiental no Golfo do México: Consequências para a vida na região demorarão décadas para serem superadas

Desastre ambiental no Golfo do México: Consequências para a vida na região demorarão décadas para serem superadas
Infográfico no Correio Braziliense. Para acessar o infográfico no tamanho original clique aqui.

Especialistas acreditam que os efeitos nocivos do vazamento de petróleo na costa dos Estados Unidos podem afetar até mesmo sistemas marinhos distantes

Há cerca de um mês, a costa sul dos Estados Unidos era conhecida apenas por suas belas praias e por ser o santuário de animais como o pelicano-castanho e a tartaruga marinha. No entanto, uma explosão em uma plataforma petrolífera, no último dia 20, transformou as águas do mar do Golfo do México no cenário de uma tragédia ambiental. As cerca de 5,26 mil toneladas de petróleo que são despejadas diariamente na água ameaçam a existência de centenas de pelicanos, tartarugas e outras 600 espécies de seres vivos. Segundo especialistas, o vazamento pode ser controlado e a maior parte do petróleo, recolhida, mas as consequências para a vida na região demorarão décadas para serem superadas. Reportagem no Correio Braziliense.


Segundo Maria Júlia Martins Silva, professora do departamento de Zoologia da Universidade de Brasília (UnB), os efeitos de um desastre ambiental como o que ocorreu na América do Norte vão muito além dos animais que entram em contato diretamente com o óleo. “Todo o ecossistema marinho é afetado, porque as espécies formam um sistema de interdependência. Ao prejudicar uma espécie, acaba-se atingindo todas”, conta.

Ela afirma que mesmo animais de maior porte, como tubarões e grandes mamíferos aquáticos, são afetados. “Na superfície da água, existe uma imensa população de fitoplâncton, ser vivo microscópico que serve de alimento para peixes pequenos e moluscos. Esses seres são os mais afetados e literalmente desaparecem, causando a diminuição da população de moluscos. Os peixes maiores também acabam sofrendo pela diminuição da população dos menores, que são sua principal fonte de alimento. O mesmo acontece com os animais de grande porte. Assim, toda a cadeia trófica é afetada”, diz a pesquisadora da UnB.

Apesar do dano global, algumas espécies sofrem mais. “Em geral, aquelas que permanecem fixadas no fundo do mar ou na costa são as mais afetadas. É o caso dos corais e mexilhões. Se a espécie for exclusiva de uma região, ela pode ser extinta por completo”, alerta Maria Júlia. “Mesmo as populações que não morrem imediatamente, com o passar dos anos, podem desenvolver problemas metabólicos ou de reprodução, alimentando um ciclo de desequilíbrio ecológico”, completa.

A especialista em biologia marinha da Universidade Federal Fluminense (UFF) Mirian Araújo Crapez explica que o óleo é letal porque possui uma capacidade de penetrar na pele maior que a maioria das substâncias. “O petróleo é solúvel em gordura, ou seja, ele penetra no interior dos seres vivos. Assim, mesmo que o animal não morra, ele carrega as toxinas, que podem prejudicar outros animais que porventura se alimentem dele”, explica. “Essa propagação da toxina pode continuar por meses, ‘viajar’ por muitos quilômetros e chegar aos seres humanos, já que um peixe pescado em outra região pode ter se alimentado de algum animal com as toxinas”, acrescenta.

Engana-se quem pensa que só os animais aquáticos são afetados quando esse tipo de acidente ocorre. Plantas da região costeira, animais dos mangues e até aves são destruídos quando grandes quantidades de petróleo são derramadas. “Uma ave, ao mergulhar em busca de alimento, não consegue voltar à superfície quando é coberta de óleo. As árvores absorvem o produto por meio de suas raízes e morrem, acabando com o habitat de animais terrestres e pássaros”, exemplifica.

A região de Nova Orleans, onde o desastre ocorreu, concentra grandes pântanos, onde vivem espécies como jacarés e crocodilos. “Se esse óleo alcançar essa parte da costa, o estrago será ainda maior. Esses animais, que estão no topo da cadeia trófica, certamente serão afetados e, com eles, todo o ecossistema terrestre”, complementa Maria Júlia.

Recuperação lenta
Mirian, que estuda o impacto ambiental causado pela poluição por petróleo, explica que normalmente o estrago demora décadas para ser revertido. “No caso do vazamento de petróleo pelo navio Amoco Cadiz, a principal região produtora de ostras da França teve de paralisar totalmente as suas atividades por 10 anos. Ou seja, durante todo esse tempo, o local ficou impróprio para a vida desses animais”, explica a especialista, referindo-se ao grande acidente no norte da França, em 1978 (veja quadro).
De acordo com a pesquisadora da UFF, ainda não é possível determinar quanto tempo vai demorar para a situação se normalizar no Golfo do México. “Isso depende de questões como a quantidade, o tipo e a densidade do óleo derramado, mas certamente serão décadas de recuperação”, afirma.

No Brasil, como na América do Norte, a exploração de petróleo é feita em grandes profundidades — um dos elementos que dificulta a contenção do vazamento no Golfo do México. A Petrobras afirma por meio de nota que as plataformas petrolíferas de nossa costa são equipadas com sistemas de segurança para evitar situações semelhantes. “Todas as unidades marítimas de perfuração são equipadas com sistemas de detecção, que podem prover o fechamento imediato e automático do poço, prevenindo seu descontrole.”

EcoDebate, 14/06/2010

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