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Artigo

As três crises, artigo de Alain Touraine

Torna-se evidente que, no lugar de esperar o final da crise financeira e econômica, de um mês para outro nos encontramos diante de problemas econômicos e ecológicos fundamentais que exigem de todos um esforço muito difícil de conseguir. Temos que reconhecer que chegamos ao limite do possível tentando manter nosso modo de vida e nossos métodos de gestão financeira. A soma destes problemas nos situa indiscutivelmente frente a um perigo de catástrofe maior“, analisa Alain Touraine, sociólogo, em artigo publicado no jornal El País, 06-01-2010.

Segundo Touraine, “se tivéssemos que dizer hoje qual é o futuro mais provável, o agravamento das crises ou a concepção e a construção de um tipo novo de sociedade baseada no respeito dos direitos humanos da grande maioria, teríamos que responder sinceramente que a hipótese pessimista tem mais possibilidades de se realizar que a otimista, que deposita sua confiança na capacidade dos seres humanos para salvar seu próprio futuro“.

A tradução é de Vanessa Alves.

Eis o artigo.

Todos os países situados na zona de influência da Wall Street e a City estão ameaçados. Os Estados Unidos, endividados dos pés à cabeça, desde o Governo ao particular, se encontra em uma situação que alguns consideram sem saída. A City, que tem maior peso na economia britânica que a Wall Street na norte-americana, se viu afetada mais diretamente por causa, em particular, da importância das inversões internacionais da antiga potência imperial.

Chegamos ao limite do possível no nosso modo de vida e nossos métodos de gestão financeira. O pensamento ecológico dá um objetivo positivo de importância vital.

Ao mesmo tempo, para os países da zona euro, a vontade da China e Estados Unidos de manterem suas moedas, o yuan e o dólar, num nível baixo, subvalorizado, também representa uma ameaça direta, pois, inevitavelmente, ataca as exportações europeias.

Paralelamente aos problemas da economia, os da ecologia nos obrigam a tomar decisões muito difíceis. A grande conferência mundial de Copenhague nos deixou uma imagem inquietante sobre a dificuldade de fechar acordos. Dado que os Estados Unidos se mostraram decididos a não fazer nada além de esforços insuficientes, de novo é para a Europa que se pede um sacrifício suplementário. Os países pobres, ou muito menos ricos, exigem que os países do Norte paguem sua dívida -150.000 milhões anuais-, pois, durante anos e anos, somente eles emitiram gases de efeito estufa. O Norte se vê agora ameaçado a mudar seu modo de consumo muito rapidamente. Por outra parte, China concede pouca importância às opiniões do resto do mundo, pois segue extraindo a maior parte de sua energia de carbono. E o tempo passa. Daqui a 2020, teria que reduzir as emissões de CO2, não em 20%, mas em 30%, inclusive 50%, e a Europa teria que alcançar os 80% antes de 2050.

Assim, em poucas linhas, torna-se evidente que, no lugar de esperar o final da crise financeira e econômica, de um mês para outro nos encontramos diante de problemas econômicos e ecológicos fundamentais que exigem de todos um esforço muito difícil de conseguir. Temos que reconhecer que chegamos ao limite do possível tentando manter nosso modo de vida e nossos métodos de gestão financeira. A soma destes problemas nos situa indiscutivelmente frente a um perigo de catástrofe maior.

A isso se deve acrescentar uma terceira crise, a da ação política e, mais precisamente, da expressão política do descontento, as reivindicações e as denúncias. Quem é responsável pela crise? Certamente não se trata de uma crise social, ou seja, de uma crise que enfrenta duas categorias ou classes sociais, por exemplo. Uns pedem que os países do Norte paguem pelo comportamento de seus antepassados. Outros querem defender os interesses e direitos de nossos sucessores e daqueles que vivem – geralmente muito mal – em regiões do mundo distantes da nossa. Ao se estenderem ao longo de um espaço e um tempo quase ilimitados, os conflitos ultrapassam o mundo social; só se podem compreender pela sua oposição a um sistema financeiro e econômico que foi colocado fora do alcance de todas as intervenções sociais e políticas.

Uma oposição assim já não pode se fundamentar na defesa de certa categoria social; deve ter um caráter universalista, já que se trata de defender o conjunto da humanidade. Apelamos aos direitos humanos contra a globalização econômica. Cada vez falamos menos de interesses e mais de direitos. Tal é a transformação principal de nossa vida social. É tão profunda que nos custa percebê-la e, sobretudo, carecemos dos meios institucionais necessários para resolver nossos problemas. As ONGs podem substituir os partidos e os sindicatos? Seria paradoxal dizer que as organizações não governamentais podem substituir os Governos. As ONGs desempenham um papel importante na conscientização da população, mas esta deve dotar-se a si mesma de novos meios de ação propriamente políticos.

Esta maneira de abordar os problemas do nosso futuro não é a dos economistas; não estou certo de que seja a dos políticos, mas deve ser a dos sociólogos, para os quais uma situação é mais o resultado da ação de mulheres e homens que o efeito de umas forças econômicas que impõem à sociedade a procura racional do interesse como prioridade absoluta. No presente caso, isso é ainda mais claro que no geral. Pois, frente a forças econômicas não humanas, a resistência não pode vir da defesa de interesses específicos; só pode vir da súplica dos direitos universais que são pisoteados quando os seres humanos morrem de fome ou se veem privados do trabalho ou liberdade para que os financistas possam seguir aumentando seus benefícios.

Esse levante em nome da defesa dos direitos mais elementares e, portanto, mais universais, é a única maneira eficaz de se opor aos interesses dos financistas puros e duros. É pouco provável que tal levantamento seja produzido, porque a contradição, em minha opinião, entre financistas e cidadãos não parece capaz de proporcionar um objetivo concreto aos protestos populares. É o pensamento ecológico o que dá aos protestos o que eles não conseguem por si mesmos, um objetivo positivo de vital importância: salvar nossa atmosfera, impedir ou limitar as consequências das mudanças climáticas, que podem ser catastróficas.

Mas tudo isso é incerto, num momento em que acaba de fechar o que se chamou “conferência da última oportunidade”. Num futuro próximo, nos dez próximos anos, corremos o perigo de ser vítimas de novas crises econômicas, de um agravamento do risco ecológico e de uma confusão política cada vez maior.
Se tivéssemos que dizer hoje qual é o futuro mais provável, o agravamento das crises ou a concepção e a construção de um tipo novo de sociedade baseada no respeito dos direitos humanos da grande maioria, teríamos que responder sinceramente que a hipótese pessimista tem mais possibilidades de se realizar que a otimista, que deposita sua confiança na capacidade dos seres humanos para salvar seu próprio futuro.

Deve-se deduzir uma implosão dos centros econômicos que dominam a vida econômica do mundo há vários séculos? Se os europeus se deixam avassalar pelo eixo chino-estadunidense, que se opõe à reavaliação do yuan e do dólar, este cenário não é impossível.

E assim chegamos à nossa hipótese central: a construção de um novo tipo de sociedade, de atores e Governos, depende antes de mais nada de nossa consciência e de nossa vontade, ou, mais simples ainda, de nossa convicção de que o risco de que se produza uma catástrofe é real, próximo de nós e de que, portanto, temos que agir necessariamente. Mas esta convicção não se forma por si mesma em cada ser humano. Nossos representantes políticos, do mais alto nível, discutem sobre ela e imaginam o que pode acontecer em 2020 o em 2050, numa linguagem que não dá conta suficiente da urgência das decisões a tomar.

Encontramo-nos perante três crises que se reforçam mutuamente e nada nos garante hoje que seremos capazes de encontrar uma solução para cada uma delas. Em outros termos, em vez de sonhar de forma irresponsável com uma saída para a crise que costuma se definir, muito alegremente, em função da retomada dos benefícios dos bancos, devemos tomar consciência da necessidade de renovar e transformar a vida política para que esta seja capaz de mobilizar todas as energias possíveis contra ameaças que são mortais.

(Ecodebate, 12/01/2010) publicado pelo IHU On-line, parceiro estratégico do EcoDebate na socialização da informação.

[IHU On-line é publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

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