Cutrale e a moral do ‘sepulcro caiado’, artigo de Roberto Malvezzi (Gogó)

[EcoDebate] Faço esse texto a pedido de muitos amigos. Para muitos, o meu texto “Cutrale devolve terras griladas” fez com que muita gente acreditasse na conversão da empresa. Então, dou as devidas explicações.

A ocupação da Cutrale pelo MST trouxe algumas perplexidades. Eu mesmo me senti constrangido quando o movimento foi acusado de depredar e, sobretudo, de furtar objetos pessoais de funcionários da empresa. Depois, o próprio Movimento lançou uma nota pedindo desculpas de seus erros, negou a depredação e, sobretudo, o furto de alguns objetos. Achei a carta do MST bonita e convincente. Só os magnânimos têm capacidade de reconhecer seus próprios erros. O Movimento teve.

Entretanto, vendo a televisão e jornais, fiquei indignado com a moral farisaica que jorrou sobre o caso. Deputados, setores da mídia, profissionais da mídia, até o presidente da República, desfilaram uma onda de ataques ao movimento, mas sempre ocultando o problema mais grave, isto é, o fato da empresa ocupar área pública grilada. Foi pretexto até para uma nova CPI sobre os Sem Terra.

E não é só a Cutrale. O Prof. Ariovaldo Umbelino estima que cerca de 200 milhões de hectares de terras públicas, 25% do território brasileiro, estão ocupados ilegalmente. Agora esse número deve diminuir, já que o governo Lula decidiu legalizar o grilo de 67 milhões de hectares só na Amazônia. Mas, não é só ali. O Pontal do Paranapanema e outras regiões do Brasil apresentam o mesmo problema.

Então, todas essas acusações contra o MST me pareceram coisa típica da moral farisaica, que “côa mosquito e engole camelo”, ou dos sepulcros caídos, que “estão bonitos por fora e cheios de toda podridão por dentro”. Lamentar 7 mil pés de laranja e não ver a cem mil famílias que estão nas estradas, ignorar o grilo das terras, ignorar o que está acontecendo com os Guaranis no Mato Grosso, com os atingidos pelos grandes projetos, é uma moral de hipócritas, que coam mosquito e engolem elefantes.

Decidi fazer um texto ironizando o caso. A grande mídia rodeou o texto, telefonou, mandou e-mails, mas não mordeu a isca. Não iria repercutir um texto como esse. Muitos amigos riram na hora, até elogiaram a peça de marketing ou disseram que era mais fácil acreditar em “saci, ET de Varginha, Papai Noel, etc.”. Porém, talvez por ingenuidade, ou por querer ver algo de sério acontecer nesse país, muitos acreditaram, embora seja a essência do absurdo. Quem já viu grileiro devolver terras, respeitar sem terra, reconhecer os problemas históricos dos índios, etc.?

Então, afirmo que o texto “Cutrale devolve terras griladas” é uma ficção e não podia ser outra coisa, tamanho o absurdo do conteúdo

Roberto Malvezzi (Gogó) é Assessor da Comissão Pastoral da Terra – CPT, colaborador e articulista do EcoDebate.

EcoDebate, 04/11/2009

Inclusão na lista de distribuição do Boletim Diário do Portal EcoDebate
Caso queira ser incluído(a) na lista de distribuição de nosso boletim diário, basta utilizar o formulário abaixo. O seu e-mail será incluído e você receberá uma mensagem solicitando que confirme a inscrição.

Participe do grupo Boletim diário EcoDebate
E-mail:
Visitar este grupo

4 comentários em “Cutrale e a moral do ‘sepulcro caiado’, artigo de Roberto Malvezzi (Gogó)

  1. Cutrale MST?

    Quero so dar uma opinião de quem nao tem partido politico.

    Defender o ato de barbarie que foi a invasão e destruição de laranjais , é insanidade.
    O que se viu foi uma massa manipulada, induzida a destruir.
    Isto é modo de conseguir terras, a opinião publica que viu as cenas, ninguem apoiou o ato do MST.

    Muito infeliz mesmo, o modo da invasão , destruição e a alegria que demonstraram.
    ]
    Um tiro no pé

Comentários encerrados.

Top