Barragem em Santo Hipólito: A degola do rio das Velhas, artigo de Procópio de Castro

[EcoDebate] Um absurdo sem tamanho está para se consolidar nas barbas de Minas. O rio das Velhas será decepado por uma barragem em sua calha principal, obra que só atende ao governo federal e a sua transposição. A proposta é que ela seja construída na calha do rio das Velhas em Santo Hipólito, logo abaixo da foz do rio Paraúna/Cipó. E isto nos chega com o nome de revitalização do São Francisco. Desde quando interferência em leito natural de um curso d’água pede ser chamado revitalização? Para mim o único verbete para isto é desnaturalização.

Naturalização, recuperação ou conservação se faz criando condições para que um curso d’água seja conduzido a voltar o que era a sua realidade natural antes da interferência humana. Isto só é possível não permitido que se chegue até suas águas, os efluentes industriais, esgotos domésticos, produtos químicos da agropecuária, assoreamentos provocados pela mineração, arruamentos urbanos, abertura de estradas, destoca de trator, lixos não tratados, e as conseqüentes retirada das proteções naturais do solo como desmatamentos e cortes da mata ciliar. Então para se renaturalizar e ou revitalizar um rio temos é que impedir que as ressacas de nossas atividades o atinjam. Se queremos manter ou aumentar seu volume de água temos é que recuperar nascentes, repor as matas ciliares, reflorestar as áreas de recarga, criar bacias e vales de decantação para impedir seu assoreamento, tratar os esgotos e efluentes industriais, diminuir a velocidade o fluxo das águas no meio urbano evitando a impermeabilização do solo, criando caixas de contenção das águas de chuvas sob os prédios e etc. Não será fazendo barragem que a água voltará. Como diz o ditado popular isto é “tampar o sol com a peneira”.

Aí eu me pergunto, onde está o PAC do saneamento? Qual política o governo federal consistente para impedir o desmatamento de florestas nativas na bacia do São Francisco e especificamente no Velhas foi apresentada pelo governo federal? Estamos ouvido falar em revitalização do São Francisco desde o lançamento do projeto da transposição. O que há de real? Para mim tudo tem soado tortuoso, pouco claro e até mesmo me colocando para me sentir enganado com o cheiro de má fé no ar.

O governo mineiro acampou a Meta 2010 como um Projeto Estruturador. O objetivo revitalizar o rio das Velhas em seu trecho mais poluído. Em outras palavras, retirar de seu leito o esgoto da região metropolitana. O lema é nadar, pescar e navegar no rio das Velhas até o ano de 2010. Traduzindo, recuperar o rio em suas funções de lazer, transporte e produção de alimento. Já investiu milhões e várias ETEs estão em construção. E os esgotos sendo conduzidos até elas co m obras de inteerceptores de esgoto e tratamento de fundos de vales Só com o funcionamento da ETE Arrudas que realiza o tratamento secundário de 65% do esgoto da bacia Arrudas e início de funcionamento da ETE Onça, os dois principais ribeirões poluidores do rio das Velhas, a melhoria foi sentida pela volta do peixe. È pouco, mas não é qualquer coisa. Estamos falando de um bioindicador, de um ser vivo que se desenvolve dentro das águas do Velhas e que tinha sumido. Alguns peixes que há anos não subiam acima da grande BH já estão sendo pescados em rio acima. O dourado já alcança o ribeirão da Mata.

O que fará esta barragem além de acumular água para regularizar a vazão do São Francisco e ter excedente para a transposição? Fará sim muita coisa de ruim para a população da bacia que além de pagar a conta terá a Meta 2010 abortada. Adeus pescarias… Devido ao grande número de dejetos e material orgânico em suas águas o mais provável é que este vire um grande lago malcheiroso e infestado de cianofíceas, as famigeradas algas azuis produtoras de toxinas prejudiciais à vida humana e dos animais. Isto não é difícil de acontecer, pois nos últimos anos sua infestação foi tamanha que já colocou o baixo Velhas em alerta. Também serão perdidos milhares de hectares de terras produtivas, cidades e povoados serão inundados.

Minas permitirá isto? É isto que queremos para este nosso rio que já sofreu tanto em seus 400 anos de exploração e fez parte da história da colonização e do desenvolvimento do país?

* Colaboração de Procópio de Castro, Ambientalista e Mobilizador do Projeto Manuelzão/UFMG, para o EcoDebate, 03/11/2009

Visite o site do ribeirão da Mata: http://sites.google.com/site/ribeiraodamata/

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