Eucalipto invade territórios do Sul da Bahia

Monocultura de eucalipto, em foto de arquivo
Monocultura de eucalipto, em foto de arquivo

Entre os dias 19 a 21 de maio, uma equipe formada por oito pessoas representantes das paróquias, do movimento de professores, e da equipe da CPT Sul e Sudoeste da Bahia, esteve fazendo um levantamento nos municípios de Canavieiras e Mascote situados ao sul da Bahia. Constataram um perigo alarmante para as famílias de pequenos agricultores da região: o aumento da atividade da pecuária e do plantio de eucalipto têm levado esses produtores a serem expulsos de suas terras e tem gerado danos ambientais desastrosos.

Localizados no litoral sul, os municípios de Canavieiras e Mascote são banhados pelo rio Pardo e ricos em manguezais. Inseridos na Mata Atlântica, a lavoura cacaueira é a principal atividade econômica da região. Com a “vassoura de bruxa”, praga que assolou os plantios de cacau nos anos 80, este cultivo entrou em decadência e facilitou a entrada da pecuária.

A pecuária, historicamente, é um “abre alas” para as monoculturas depredadoras da soja, cana, eucalipto, entre outros. Pelo menos 70% da população vive desta atividade. No caso da região Sul e Sudoeste do estado é o eucalipto que vem ganhando espaço, invadindo as terras, expulsando as famílias, devastando a Mata Atlântica, acabando com os manguezais, contribuindo para o desaparecimento das inúmeras nascentes próprias deste bioma.

Nas visitas feitas pelas equipes, essas situações foram percebidas de uma maneira ainda mais evidente. No povoado de Perolândia (Canavieiras), alguns moradores falaram sobre o que está acontecendo na região. “Antes tínhamos roças, vendíamos farinha, feijão e verduras, com a chegada das pastarias e do eucalipto, não temos empregos e terras para plantar, não sabemos aonde vamos parar, tudo que comemos temos que comprar”.

Diante da falta de condições de produzir em suas áreas, muitas famílias de pequenos agricultores desassistidos pelos poderes públicos e com assédio de fazendeiros, que fazem ofertas de valores superiores ao de mercado, acabam vendendo suas terras, que são transformadas em eucaliptal. “Queremos uma terra desapropriada, mas apesar da associação que fundamos não estamos encontrando uma propriedade, devido à supervalorização da terra e a concentração por parte dos plantadores de eucalipto”, fala um dos agricultores.

A situação não difere muito nos assentamentos e acampamentos de famílias sem terra, que apesar de serem os “beneficiários” da reforma agrária, não têm créditos para habitação, produção, nem assistência técnica e compartilham da mesma precariedade nas demais políticas públicas. Os acampamentos visitados ainda estão à espera das vistorias, ou medição das terras, que deveria ser efetuada pelo INCRA – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, mas que permanece inativo.

Com a expansão do eucalipto na região, houve um aquecimento no preço das terras, o que dificulta ainda mais qualquer desapropriação pelo Estado, além do fato de que esta expansão é em grande parte com recursos do BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Social.

Outra afirmação dos moradores e também verificada pela equipe, é que o nível de água da região está diminuindo e o desmatamento está aumentando, principalmente após os plantios de eucalipto. Como esse tipo de cultura não tem frutos e causa mortes de outras vegetações, os insetos e animais estão sendo afugentados.

Além das agressões ao meio ambiente e do aumento da concentração de terras, a situação encontrada, principalmente nos povoados, foi de completo abandono, como se pôde constatar em Estica e Hera Nova, distritos de Canavieiras. O Sistema de Saúde é precaríssimo. Na educação, crianças são levadas para a sede do município em transportes inadequados que saem as 4:30h da madrugada em decorrência de estradas esburacadas. Para cobrir a distância de 60km até Canavieiras levam horas e a volta para casa acontece apenas ao findar da tarde. A ausência de transporte público deixa as comunidades isoladas e impossibilitadas de participarem da vida do município.

O Ministério Público percebendo a situação drástica do que está acontecendo na região, iniciou a realização de oficinas e seminários de conscientização da problemática causada pelo monocultivo do eucalipto, como ocorreu no Projeto de Assentamento Nancy. Segundo Valderly da CPT, embora seja louvável esta ação do Ministério Público, mas diante da ganância desmedida com que algumas empresas e fazendeiros vêm atuando na região, faz-se necessário uma ação mais contundente por parte do órgão, no sentido de inibir esta prática e garantir os direitos humanos fundamentais as populações que precisam de terra, trabalho, alimentação, moradia e sobretudo dignidade.

* Informe da Comissão Pastoral da Terra – Regional Bahia, publicado pelo EcoDebate, 23/06/2009

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