Aterro sanitário provoca impactos ambientais em rios do Amazonas

Chorume muda as características físico-químicas das populações aquáticas, mostra estudo apresentado na Reunião Regional da SBPC em Tabatinga (AM)

Além de águas para o Rio Negro, do qual é afluente, o igarapé de Matrinxã, em Manaus, escoa outro líquido de cor escura, porém altamente tóxico, que, segundo um estudo realizado por pesquisadores do Centro Universitário Nilton Lins (Uninilton Lins), alterou significativamente a estrutura da comunidade de peixes do riacho.

É o chorume, uma substância resultante da degradação de resíduos sólidos urbanos – o lixo – em aterros sanitários sem impermeabilização do solo, como um existente na capital do Amazonas, próximo à reserva florestal Adolfo Ducke, onde nasce o igarapé.

“O chorume produzido pelo aterro controlado da cidade é despejado no igarapé. Em contato com a água, o chorume muda as características físico-químicas e, conseqüentemente, a estrutura das populações aquáticas. Além disso, pode contaminar o lençol freático”, explicou um dos autores do estudo, o biólogo Rubens Tomio Honda, que abordou esse assunto na conferência “Impactos no ambiente aquático relacionados ao descarte e manejo inadequado dos resíduos sólidos urbanos”, proferida por ele nesta quarta-feira, dia 18 de março, durante a Reunião Regional da SBPC em Tabatinga (AM). O evento foi aberto no dia 17 e termina nesta sexta, dia 20 de março.

Segundo Honda, uma das características dos igarapés da Amazônia é a baixa quantidade de sais dissolvidos em suas águas, que os tornam o habitat ideal para determinadas espécies de peixes. Mas um aumento da concentração de sais, como o provocado pela presença do chorume no igarapé de Matrinxã, pode causar o desequilíbrio iônico entre os peixes e a água, e muitos animais podem morrer ou migrar para outras áreas.

“Diversas espécies de peixes que viviam no igarapé não são mais encontradas nele. E outras, que não deveriam estar lá, passaram a habitá-lo. A riqueza e a abundância das espécies nativas foram completamente alteradas”, ressaltou o pesquisador, que revelou que em outro estudo realizado utilizando o tambaqui como organismo modelo para testes de toxicidade do chorume, o peixe expressou 13 genes específicos quando exposto ao poluente. “Posteriormente, esses genes poderão ser usados como biomarcadores de poluição”, disse o pesquisador.

O estudo feito por Honda e seus colegas revela, contudo, um dado positivo. Se, por um lado, o chorume representa um risco para o equilíbrio de ecossistemas como o dos peixes do igarapé amazonense, por outro, ironicamente, pode auxiliar na solução de alguns problemas ambientais.

“Há uma grande diversidade de bactérias no chorume”, explicou Honda. “Elas toleram condições ambientais extremas, e muitas possuem propriedades com potencial para o desenvolvimento de novas tecnologias, como por exemplo métodos para produção de metano e de aceleração do processo de decomposição de produtos sintéticos”, indica.

Texto de Angela Trabbold, da Assessoria de Imprensa da SBPC

[EcoDebate, 21/03/2009]

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