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Artigo

Trabalho e suicídio, artigo de Mário César Ferreira

[Folha de S.Paulo] A falta de registros de suicídios na França dificulta o seu controle epidemiológico e a geração de políticas públicas preventivas – NA FRANÇA , o ano de 2007 foi marcado pelo crescimento de suicídios de trabalhadores qualificados. Logo no primeiro semestre, em 22 de abril, o jornal “Le Monde” estampava: “PSA Peugeot-Citröen confrontada com um caso de suicídio”. Um operário, 51, enforcou-se no local de trabalho na unidade de Mulhouse. O corpo foi descoberto quando, após o almoço, os colegas inquietaram-se com sua ausência. Todos os indícios da causa do suicídio confluíram para uma forte insatisfação com o tratamento recebido das chefias. As notícias da imprensa apontaram cinco casos na PSA Peugeot-Citröen, quatro na central nuclear de Chinon, três na Renault, um na IBM e um na megarrede de restaurantes Sodexho.

A falta ou a insuficiência de registros de casos de suicídios na França, sobretudo de suas causas, dificultam enormemente o seu controle epidemiológico e, em conseqüência, a geração de políticas públicas preventivas. Isso não é diferente no Brasil. De qualquer modo, os dados divulgados pela mídia, ainda que imprecisos, são preocupantes, dramáticos. Estima-se em torno de 400 os casos de suicídios por ano na terra de Victor Hugo. Até o momento, apenas 18 casos foram reconhecidos oficialmente pela Seguridade Social francesa como acidente de trabalho. No Japão, a dificuldade de controle epidemiológico é semelhante. Nesse país, onde cerca de 25% dos trabalhadores têm uma jornada de 60h semanais, os casos de suicídios (“karochi”) são considerados como doença ocupacional e são estimados em torno de mil por ano.

A natureza multicausal do suicídio é consensual. Entretanto, o nexo com o trabalho como fator desencadeador permanece uma querela. O reconhecimento dos casos de suicídios na França como acidente de trabalho inaugura uma situação nova. Foi irrefutável a diversidade de evidências constatada pelas sindicâncias -comissões tripartites governo, empresários e trabalhadores- sobre as especificidades do trabalho vivenciado geradoras dos atos de suicídio. Dois fatos se destacam nas provas arroladas: suicídios ocorridos nos locais de trabalho e cartas/bilhetes deixados para a família e amigos. Nesse último caso, a dramaticidade do relatado é comovente: “Eu não sou forte! A pressão no trabalho é demais”; “Estou esgotado. Meu estado físico e psicológico se deteriora a cada dia”.

Tais fatos reaquecem o debate sobre os impactos humanos das metamorfoses que a economia globalizada vem operando nos ambientes de trabalho e na gestão de pessoal. Desde a Revolução Industrial, a precariedade e a inadequabilidade das condições de trabalho são uma espécie de “barril de pólvora”. Os acidentes de trabalho e de trajeto permanecem crescendo. As doenças ocupacionais continuam matando lentamente, silenciosamente. Os casos de “burnout” -síndrome de esgotamento físico/psicológico- multiplicam-se. Na França, estima-se em torno de 330 mil doenças relacionadas com o estresse laboral, custando cerca de 900 milhões de euros por ano para os cofres públicos.

Diferentemente de consultorias que transformam o desgaste dos trabalhadores em “stress business” e lucram com atividades do tipo “ofurô corporativo”, é imperioso repensar os caminhos que tem tomado a reestruturação produtiva. Ela opera uma transição de paradigma produtivo ancorado, essencialmente, em uma “modernização” gerencial conservadora, que combina distintos ingredientes: o aumento da responsabilidade das tarefas, a aceleração do ritmo de trabalho e a radicalização do controle por meio das novas tecnologias. O resultado é uma intensificação insuportável do trabalho. Esse enfoque de gestão parece estar transformando o trabalho no seu avesso: outrora modo de ganhar a vida, hoje, mais do que antes, modo de encontrar a morte.

Se trabalhar é “fazer algo”, encontramos aqui um elo com a poesia, cuja etimologia no grego (“poíesis”) significa “criação, fabricação, confecção”. Não é exagero afirmar: somos o que somos em virtude do trabalho coletivo de cada dia e, sobretudo, por aquele realizado pelas gerações passadas.

O trabalho social de hoje cria as bases materiais e espirituais para a existência das gerações futuras. Ele é ferramenta estratégica para viabilizar o tão propalado binômio “desenvolvimento sustentável e empresa socialmente responsável”. No cotidiano das organizações é, portanto, vital cuidar muito bem dessa nobre atividade para que ela se transforme em sinônimo de vida.

MÁRIO CÉSAR FERREIRA, 49, é professor do Instituto de Psicologia da UnB (Universidade de Brasília) e pós-doutorando na Universidade de Paris 1 (Sorbonne). mcesar@unb.br

Artigo originalmente publicado pela Folha de S. Paulo, 07/02/2008