Portugal: Água engarrafada substitui a da torneira

Três quartos dos portugueses consomem água engarrafada, embora a da rede tenha boa qualidade para consumo. Um fenómeno social em expansão, que também se verifica noutros países, e que não reflecte a evolução da qualidade de água, com melhorias consistentes nos últimos anos. É o ambiente que sofre com esta opção. Milhares de toneladas de plástico são consumidas para produzir embalagens e muitas emissões CO2 para a atmosfera são feitas durante o transporte da água. Por Rita Carvalho, do Diário de Notícias, Portugal, 09/01/2008

A conclusão é de um estudo do Instituto Regulador de Águas e Resíduos (IRAR), divulgado ontem, que demonstra que o uso da água engarrafada para uso alimentar está generalizado em três quartos da população. Na mesma sondagem, 15% das pessoas afirmam comprar sempre água engarrafada; 59% reconhecem fazê-lo algumas vezes, ou seja, alternando o recurso à torneira com a garrafa. Só 25% respondem não à pergunta: “Costuma comprar água engarrafada?”

Esta conclusão vai ao encontro de outras já reveladas por estudos anteriores e pode ter várias interpretações. Em 2007, um estudo da Associação das Empresas Portuguesas para o Sector do Ambiente mostrou que cerca de 40% dos portugueses recorriam à água engarrafada por não confiarem na que circula nas redes públicas de abastecimento. Uma percepção que não corresponde à realidade e que sai bem mais cara.

O IRAR considera que esta explicação não pode ser aplicada a todas as pessoas que no estudo agora conhecido afirmaram consumir água de garrafa, até porque os inquiridos podem dizer comprá-la no supermercado e, em casa, consumi-la, simultaneamente, com a que vem da rede. “Há o desejo de consumir um produto diferenciado, como é o caso da água engarrafada de nascente ou da água com gás, que, não sendo necessariamente de melhor qualidade, tem sabor e imagem distintivas”, afirma o IRAR. Além disso, acrescenta, “a pressão do marketing relativamente ao produto água engarrafada também contribui naturalmente para estimular o seu consumo”. Os dados da indústria provam que este é um bem em expansão.

É no Algarve e Alentejo que mais pessoas usam água de garrafa, o que poderia reflectir uma pior percepção da qualidade da água de abastecimento público”. No entanto, é no interior norte do País e em sistemas de abastecimento de menor dimensão, e não no Sul, que a qualidade baixa.

Impactos no ambiente

Os defensores do ambiente estão preocupados com esta opção e apelam ao consumo da rede. As vozes de protesto contra a água da garrafa surgem das organizações não governamentais e circulam na Net. Hélder Spínola, presidente da Quercus, fala ao DN do enorme impacto na produção de resíduos de embalagens, muitas não encaminhadas para reciclagem. “Além disso, o transporte deste bem contribui bastante para a emissão de CO2 e para as alterações climáticas.” Para a Quercus, não há razões para tanta desconfiança, pois, “tirando casos pontuais, na generalidade a água para consumo humano tem boa qualidade”. Os ambientalistas deixam a dica: “Ponha a água da torneira no frigorífico e verá que o sabor a cloro desaparece.”

Nota do EcoDebate

Concordamos integralmente com a opinião de Octávio Lima, do Blog Ondas3: “Água engarrafada substitui a da torneira. E quando não houver lugar para despejar mais garrafas de plástico, bebêmo-lo.”

De fato, consumir água engarrafada, onde a água da rede é tratada e potável, é uma injustificável insanidade ambiental.

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