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As big techs lucram com o ódio contra as mulheres

 

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Algoritmos, monetização e afinidade política transformaram a misoginia em modelo de negócio para as grandes plataformas digitais

Pesquisadores mapearam mais de 130 mil canais misóginos só no YouTube. Especialistas explicam como as big techs lucram com o ódio contra as mulheres e por que isso não é acidente, é estratégia.

Por Henrique Cortez*

Nas últimas semanas, o Brasil foi sacudido por uma sequência de episódios de misoginia e feminicídio. Por trás de cada um desses casos há uma engrenagem. E essa engrenagem tem donos e dá muito dinheiro.

O ódio virou negócio

Especialistas apontam que grupos misóginos deixaram de ser marginais para se tornarem economicamente viáveis nas redes sociais. A professora e ativista feminista Lola Aronovich resume bem o que aconteceu: esses grupos notaram que ninguém os proibia de agir nas redes sociais e passaram a receber dinheiro por serem misóginos, com cada vez mais gente apostando nisso e vivendo disso.

Não é exagero, é o modelo de negócio. As plataformas remuneram criadores de conteúdo com base no engajamento gerado e o ódio, a indignação e o ressentimento geram muito engajamento. Quando um canal defende a submissão das mulheres ou cultiva o ressentimento masculino, ele não está apenas propagando uma ideologia: está gerando receita publicitária para a plataforma que o hospeda.

A escala é assustadora

Para quem ainda imagina que se trata de uns poucos perfis radicais no canto obscuro da internet, os números desfazem essa ilusão. Pesquisas do NetLab, laboratório da UFRJ, mapearam mais de 130 mil canais misóginos apenas no YouTube. E o acesso a esse universo começa de forma quase imperceptível: temas como “sedução e relacionamentos”, “questões jurídicas” e “vencer a timidez” funcionam como pontes para conteúdo de ódio.

Não é por acaso. É design. Os algoritmos das plataformas são programados para manter o usuário engajado o máximo de tempo possível, e conteúdos que mexem com inseguranças, frustrações e ressentimentos cumprem essa função com eficiência. A falta de regulação permite que esses mecanismos continuem operando sem que as empresas precisem explicar como a construção dessas ferramentas favorece a disseminação de ódio.

Dois pesos, duas medidas

Há quem defenda que as plataformas não podem censurar conteúdo. Lola Aronovich desmonta esse argumento com uma comparação reveladora: canais feministas que trabalham com direitos reprodutivos têm conteúdo derrubado por não poderem falar sobre pílulas abortivas, enquanto canais que defendem a morte de mulheres não sofrem sanções.

Ou seja, a moderação existe mas ela só não é neutra. Quando o critério invisível parece proteger o discurso de ódio e suprimir o discurso de direitos, vale perguntar: a quem interessa essa assimetria?

Além do lucro: a afinidade política

A resposta não é apenas econômica. Os empresários à frente das big techs muitas vezes têm afinidade ideológica e política com as ideias propagadas nesses espaços. Há lideranças dessas empresas que são figuras ativas da extrema-direita. O caso mais emblemático é o de Elon Musk, dono da rede X, que participou ativamente do governo Trump.

Para a socióloga Bruna Camilo, o projeto político da extrema-direita se beneficia diretamente de ideais reacionários de masculinidade e da submissão das mulheres, pois o que interessa é manter o status quo em que as mulheres não questionam e os homens concentram poder político e social.

A misoginia, portanto, não é um efeito colateral indesejado dessas plataformas. É um produto.

O que está em jogo

Apesar de avanços como a Lei nº 13.642/2018, que determina a investigação de crimes de ódio contra mulheres na internet, especialistas apontam lacunas, entre elas, a ausência de criminalização da misoginia no país. Sem tipificação legal, a sensação de impunidade retroalimenta o ciclo.

A pesquisadora Bruna Camilo faz uma pergunta que deveria ecoar nos corredores do Congresso: por que até hoje a Câmara dos Deputados não chamou representantes dessas plataformas para pedir explicações sobre a construção desses algoritmos? E ela mesma responde: se não há enfrentamento, é porque há interesses políticos envolvidos.

Enquanto isso, meninos cada vez mais jovens, alguns com 12 ou 14 anos, são recrutados gradualmente por comunidades online que começam com conversas sobre jogos e terminam cultivando o ódio às mulheres. O processo de atração é gradual: no meio de conversas cotidianas, expressões misóginas são introduzidas para testar a receptividade do jovem, e ao menor sinal de abertura, a cooptação continua.

Reconhecendo o problema

A violência contra as mulheres não nasceu na internet. Como lembra a socióloga Bruna Camilo, ela é secular, estrutural, enraizada em séculos de patriarcado. Mas as plataformas digitais encontraram nela uma fonte de lucro, e alguns de seus donos encontraram nela um projeto de poder.

Enquanto não nomearmos isso com clareza, enquanto tratarmos cada caso de feminicídio como tragédia individual, cada canal misógino como excentricidade isolada, cada algoritmo como simples ferramenta neutra, a engrenagem continuará girando. E lucrando.

Síntese do modelo de negócios da misoginia das big techs:

  • Monetização Direta do Ódio: Especialistas apontam que grupos misóginos deixaram de ser marginais para se tornarem economicamente viáveis nas redes sociais. Atualmente, esses produtores de conteúdo recebem dinheiro das plataformas especificamente por propagarem discursos de ódio, transformando a misoginia em um negócio lucrativo.

  • Algoritmos e Engajamento: As plataformas digitais mantêm conteúdos misóginos em circulação, muitas vezes impulsionados por algoritmos que priorizam o engajamento. A falta de regulação permite que esses mecanismos continuem operando sem que as empresas precisem explicar como a construção dessas ferramentas favorece a disseminação de ódio.

  • Assimetria na Moderação: Existe uma contradição na forma como as empresas moderam o conteúdo; enquanto canais feministas sobre direitos reprodutivos podem sofrer censura, canais que defendem a violência contra a mulher muitas vezes não sofrem sanções, continuando a gerar tráfego e receita.

  • Volume de Conteúdo e Alcance: A escala da machosfera é massiva, com o mapeamento de mais de 130 mil canais misóginos apenas no YouTube. Esse volume monumental de vídeos sobre temas como “sedução” e “vencer a timidez” serve como porta de entrada para conteúdos de ódio que mantêm os usuários ativos nas plataformas.

  • Afinidade Ideológica e Política: Além do lucro financeiro direto, os líderes de grandes empresas de tecnologia muitas vezes possuem afinidade ideológica com os discursos de extrema-direita propagados nesses espaços. Esse alinhamento político reforça a manutenção de ambientes digitais onde a submissão feminina e ideais reacionários de masculinidade são amplificados.

* Henrique Cortez, jornalista e ambientalista. Editor do EcoDebate.

 

Citação
EcoDebate, . (2026). As big techs lucram com o ódio contra as mulheres. EcoDebate. https://www.ecodebate.com.br/2026/03/23/as-big-techs-lucram-com-o-odio-contra-as-mulheres/ (Acessado em março 23, 2026 at 10:43)

in EcoDebate, ISSN 2446-9394

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