O avanço da Ásia emergente e a estagnação da América Latina

 

O avanço da Ásia emergente e a estagnação da América Latina, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

A América Latina e Caribe (ALC) e a Ásia emergente (países asiáticos de renda média e baixa) são duas regiões do mundo que estão apresentando ritmos diferentes e opostos nos resultados do processo de desenvolvimento.

Enquanto a Ásia em desenvolvimento é uma região emergente que tem apresentado bons indicadores econômicos e cresce acima da média mundial, a ALC é uma região submergente que está estagnada e presa na armadilha do baixo crescimento socioeconômico, crescendo abaixo da média mundial.

O relatório WEO, do Fundo Monetário Internacional (FMI), divulgado no dia 06 de abril de 2021, apresenta uma série de estatísticas nacionais e internacionais de 1980 até 2021, com projeções até 2027. O gráfico abaixo mostra que ALC tem taxas de crescimento sistematicamente inferiores às da Ásia emergente. Na média móvel trienal a Ásia emergente apresentou crescimento médio de 7% ao ano entre 1980 a 2027, o mundo com 3,4% e a ALC com crescimento médio de somente 2,5% no período.

taxa de crescimento do pib alc e Ásia

 

A principal razão para haver taxas tão díspares de crescimento econômico decorre das diferentes taxas de investimento. O gráfico abaixo mostra que os investimentos asiáticos (como percentagem do PIB) estavam em 29% do PIB em 1980 e da ALC estavam em 24%. A diferença era de apenas 5% do PIB. Mas na atual década os investimentos da Ásia emergente encontram-se em torno de 40% do PIB, contra cerca de 20% do PIB na América Latina. Baixos investimentos significam baixa incorporação de tecnologia e educação, baixa produtividade dos fatores de produção e baixo crescimento econômico.

taxa de investimento na Ásia e alc

 

O crescimento do PIB de apenas 2,5% ao ano na ALC significa que a renda per capita está praticamente estagnada no período. O gráfico abaixo mostra a renda per capita (US$ a preços constantes em poder de paridade de compra – ppp) da ALC, que era de US$ 11,8 mil em 1980, enquanto a Ásia emergente tinha uma renda de US$ 1,28 mil (a ALC tinha uma renda 9,2 vezes maior). Em 2019, antes da pandemia, a renda da ALC era de US$ 15,5 mil e da Ásia emergente de US$ 11,1 mil (a ALC tinha renda 40% maior). Em 2020 a renda da ALC caiu cerca de 8%, enquanto da Ásia emergente caiu 4%. Portanto, a Ásia sofreu menos e deve se recuperar rapidamente em 2021.
renda per capita da alc e Ásia

 

As projeções do FMI indicam uma renda per capita de US$ 16,6 mil na ALC e de US$ 15,5 mil na Ásia emergente em 2027, uma diferença de somente 6,7%. Ou seja, a ALC deverá continuar tendo a renda estagnada enquanto a Ásia emergente marcha celeremente para ultrapassar a ALC ainda na atual década (2021-2030).

Os países da Ásia emergente e, em especial, do leste asiático possuem maiores taxas de poupança e de investimento, maior capacidade de exportação, maiores investimentos em educação e, portanto, estão mais capacitados para aproveitar o 1º e o 2º bônus demográfico, conforme apresentei no Webinar “Tendências demográficas e pandemia de covid-19” do IPEA. Manter uma política macroeconômica sustentada e equilibrada é fundamental para garantir a geração de emprego e um futuro de bem-estar e de maior qualidade de vida.

José Eustáquio Diniz Alves
Doutor em demografia, link do CV Lattes:
http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

Referências:

FMI. World Economic Outlook (WEO), War Sets Back the Global Recovery. International Monetary Fund, APR 2022
https://www.imf.org/en/Publications/WEO/Issues/2022/04/19/world-economic-outlook-april-2022

ALVES, JED; CAMARANO, AA. Tendências demográficas e pandemia de covid-19, Webinário IPEA, 23/06/2021 https://www.youtube.com/watch?v=Bzog2U-zBo0

ALVES, JED. Três séculos de população no Brasil e os três bônus demográficos, Apresentação Webinário IPEA, 23/06/2021
https://drive.google.com/file/d/1JQW9TcZi3DFFfvEuIM1C78jQIxHLInVn/view

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 27/07/2022

 

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