A crise da água e a estiagem no Rio Grande do Sul

 

seca

A crise da água e a estiagem no Rio Grande do Sul, artigo de Antonio Silvio Hendges

A água não é um bem de consumo infinito e são fundamentais políticas adequadas de gestão, regularidade das outorgas, preservação das fontes, rios, bacias hidrográficas, matas ciliares e banhados, além de controlar os desperdícios

Este artigo é uma atualização de uma publicação no Portal EcoDebate em fevereiro/2015, durante a estiagem que naquele ano assolou o Rio Grande do Sul com enormes prejuízos para a agropecuária gaúcha e que causou um desabastecimento urbano também severo.

A estrutura foi mantida, sendo suprimidas as informações desatualizadas e que perderam o sentido para o atual momento. Fato é que desde então a situação se agravou e em todos os anos subsequentes estiagens impactaram negativamente a economia e causaram transtornos aos gaúchos até este momento em que a situação é crítica com a maior estiagem dos últimos vinte anos em que os prejuízos acumulados e o abastecimento tende ao colapso em muitos municípios sejam nas áreas rurais ou urbanas.

No Brasil, há uma visão da população e poderes públicos de que temos acesso ilimitado aos recursos hídricos, especialmente a água doce, única possível de utilização para o consumo, agropecuária e muitas outras atividades essenciais.

Mas a água não é um bem de consumo infinito e são fundamentais políticas adequadas de gestão, regularidade das outorgas, preservação das fontes, rios, bacias hidrográficas, matas ciliares e banhados, além de controlar os desperdícios durante a distribuição pós-tratamento.

Em 2015, a Agência Nacional das Águas – ANA previu que 55% das cidades brasileiras terão problemas de abastecimento, não apenas em suas áreas urbanas, mas também rurais, dificultando a produção agropecuária e de alimentos localmente, com impactos regionais e nacionais importantes, com a inviabilização produtiva de muitas culturas e atividades e suas consequências imediatas, extensíveis ao tempo e processos de desenvolvimento. O desperdício médio de água tratada é calculado em 37% no país, principalmente por ausência de manutenção da infraestrutura e investimentos em tecnologias adequadas como o uso de softwares para controle dos volumes de entrada e saída, inclusive nas outorgas aos setores produtivos.

Embora o uso doméstico rural e urbano seja minoritário com aproximadamente 10% – irrigação e uso animal 83% e indústrias 7% – no Brasil o consumo médio é alto com 165 litros/habitante/dia. Estudos da Agência Nacional de Águas – ANA e da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura – FAO indicam que 100 litros são suficientes. A ANA também prevê um aumento na demanda brasileira de 24% até 2030. Ou seja, são necessárias políticas públicas, responsabilidade coletiva e educação ambiental para minimizar os problemas diretos e indiretos relacionados à disponibilidade da água.

E o Rio Grande do Sul é menos vulnerável a esta realidade brasileira e mundial? Reportagem do jornal Zero Hora de 30/08/2014 afirma que o RS apresenta um dos maiores desequilíbrios entre oferta e demanda de água, principalmente na metade sul, além de problemas relacionados com a qualidade na região metropolitana, de acordo com a ANA que divide o Brasil em doze regiões hidrográficas, duas – Uruguai e Atlântico Sul – no território gaúcho. A do Uruguai tem 32% dos trechos dos mananciais que a compõem considerados em situação crítica e na do Atlântico Sul 35%. Apenas duas regiões hidrográficas, no semiárido nordestino, são consideradas mais frágeis do que as gaúchas.

Entre os dez rios mais poluídos do Brasil, três estão no RS: Caí, Gravataí e Sinos. Na Região da Campanha, o rio Santa Maria também apresenta problemas de poluição e diminuição da vazão, fenômeno que se repete em várias outras bacias hidrográficas, inclusive na do Rio Uruguai. Captação de água para irrigação em grande escala e sem outorgas e fiscalização, assoreamento de rios e riachos naturais, destruição de fontes e banhados por atividades econômicas de monoculturas extensivas, além da ausência de tratamento dos esgotos domésticos e industriais são os principais agravantes desta situação.

Portanto, o RS precisa ficar alerta e aperfeiçoar o uso, conservação e restauração dos seus recursos hídricos, garantindo o abastecimento público e em suas atividades econômicas, com planejamento de longo prazo e políticas públicas, fiscalização, fortalecimento dos comitês de bacias hidrográficas, regularidade das outorgas, investimentos em tecnologias, combate aos desperdícios, tratamento dos esgotos, recuperação de mananciais, educação ambiental e capacitação permanente. O RS pode enfrentar os seus possíveis problemas quanto à disponibilidade de água no futuro, mas para isso precisa identificar agora e agir imediatamente.

Antonio Silvio Hendges – Licenciatura em Biologia e Ciências, Pós Graduação em Auditorias Ambientais, consultoria em educação e consumo. Email – as.hendges@gmail.com

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 21/02/2022

 

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