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Conservação, Baleias e Turismo no Extremo Sul da Bahia: uma conversa a partir da Educação Ambiental com quem entende sobre o tema

 

Conservação, Baleias e Turismo no Extremo Sul da Bahia: uma conversa a partir da Educação Ambiental com quem entende sobre o tema

O ecoturismo de observação de baleias contribui para a preservação e conservação, conscientizando as pessoas sobre a importância de tê-las vivas nos oceanos.

Elissandro Santana entrevista o biólogo Marcelo Arcanjo de Jesus (Ou Marcelo Cobra)

marcelo arcanjo de jesus marcelo cobra

Direitos de imagem: Marcelo Cobra

Conversa I

Elissandro Santana: Caro Marcelo Cobra, esta é a primeira de uma série de 10 conversas que teremos sobre Conservação, baleias e turismo no Extremo Sul da Bahia a partir dos pressupostos e pilares da Educação Ambiental.

Para começarmos esse diálogo, preciso que se apresente e fale um pouco acerca de seu trabalho na região.

Marcelo Cobra: Sou Marcelo Arcanjo de Jesus, conhecido como Cobra. Biólogo, filósofo e guia de turismo credenciado pelo Ministério do Turismo. Especialista em auditoria e perícia ambiental, especialista e docência no ensino superior e aluno-pesquisador no Mestrado Profissional em Conservação da Biodiversidade e Desenvolvimento Sustentável, na ESCAS-IPÊ. Ademais, sou professor universitário, trabalho com resgate de serpentes (e animais silvestres em geral) e com ecoturismo a partir da visualização de Baleias Jubartes na Costa do Descobrimento.

Elissandro Santana: Como ocorrem os passeios marítimos de observação de baleias?

Marcelo Cobra: Fazemos as saídas para observação três vezes por semana durante a temporada que vai de Julho a Novembro. Seguimos, criteriosamente, as leis estabelecidas para este passeio e suas diretrizes. A embarcação é vistoriada e diariamente revisada, possuindo área interna e externa, banheiro, pia, assentos em todas as áreas e botes infláveis. As navegações são sempre com saída matinal e retorno na parte da tarde. Sempre lembro que não estamos indo ao zoológico e que as baleias não estarão aprisionadas em um aquário à nossa espera. É um passeio que consiste em ir ao mar aberto procurar baleias e nem sempre é fácil. Também temos que entender que navegamos em mar aberto, portanto, sujeito a ventos, ondas e todas as dificuldades e imprevistos.

Elissandro Santana: Feita a apresentação, gostaria que discorresse, a partir de uma linha temporal-comparativa, partindo-se de suas empirias, sobre o turismo de observação de baleias e condições de observação na região.

Marcelo Cobra: As navegações obedecem às temporadas em que as baleias chegam à região. As baleias Jubartes se deslocam da Antártica para o Extremo Sul da Bahia para o Arquipélago de Abrolhos, um dos mais importantes berçários de vida marinha do Atlântico Sul. A temporada de baleias ocorre de julho a novembro e elas se distribuem por toda a costa baiana.

Nossas navegações consistem em levarmos turistas, pesquisadores e grupos escolares para que possam visualizar as baleias e seu ritual de acasalamento, que inclui como principal característica os saltos e as exposições de caudas e nadadeiras peitorais.

Saímos do centro de Porto Seguro, Píer Municipal na Praça do Relógio. Nossa embarcação é uma escuna com capacidade para 100 pessoas. O serviço de bordo inclui lanche, água e refrigerante. Navegação com tempo médio de duas horas para os primeiros avistamentos e a interação com as baleias é de aproximadamente uma hora e meia. Mantemos a distância estabelecida por lei federal, para nossa segurança e também das baleias.

Podemos ver os saltos, os filhotes aos cuidados de suas mães e o ritual de acasalamento composto por animais adultos no cio, no que chamamos de grupo competitivo.

Elissandro Santana: Nos passeios de observação, guiados, quais mudanças comportamentais você percebe (Se é que foi possível essa reflexão!), nos turistas e moradores, ao longo desses anos, acerca do olhar e interesse pelas baleias?

Marcelo Cobra: Estou fazendo esse passeio faz cinco temporadas, então tenho percebido algumas mudanças comportamentais das baleias e também das pessoas que me acompanham.

Minha responsabilidade diária é fazer as pessoas conhecerem as baleias e entenderem sua importância. Não é fácil conscientizar os humanos sobre educação ambiental e preservação, mas planto sempre neles essa semente. Baleias são animais grandes e, no caso das Jubartes, podem atingir 16 metros de comprimentos e pesar 40 toneladas. Mas friso que mesmo com esse porte, são frágeis às mudanças climáticas e aos impactos ambientais causados pelos humanos, que se deslocam anualmente da Antártica para Abrolhos e isso as deixa vulneráveis a acidentes com embarcações, redes de pesca, lixo no oceano e mudanças de temperatura das águas. Também pontuo que cada humano pode e deve ser um disseminador de sensibilidade e educação ambiental e o mundo depende dessa análise e reflexão.

Elissandro Santana: Como que a observação de baleias, atividade importantíssima para a conscientização ambiental, contribui para a formação de uma sensibilidade socioambiental na região, partindo-se do pressuposto de não é suficiente somente conscientizar, mas sensibilizar?

Marcelo Cobra: As baleias sempre fascinaram os homens e, ao longo da história elas foram usadas, infelizmente, para a construção civil, para a retirada de ossos e gorduras ou para alimentação e até mesmo para a indústria e para iluminar as cidades.

Houve forte investimento na fabricação de navios baleeiros, e com cada vez mais embarcações destas nos oceanos para a caça frenética e predatória das baleias, elas quase entraram em extinção. Algumas espécies desapareceram e outras ficaram reduzidas a pequenos grupos.

Hoje, o ecoturismo de observação de baleias contribui para a preservação e conservação, conscientizando as pessoas sobre a importância de tê-las vivas nos oceanos.

Elissandro Santana: Uma última indagação para esse nosso primeiro diálogo: de que forma, como profissional envolvido com atividades turísticas e com formação em Ciências Biológicas e, agora, aluno-pesquisador no Mestrado Profissional em Conservação da Biodiversidade e Desenvolvimento Sustentável, na ESCAS-IPÊ, você visualiza a tríade Conservação-Baleias-Turismo? Essa pergunta é importante para as nossas próximas conversas.

Marcelo Cobra: Em cada temporada, a observação de baleias atrai pessoas de vários lugares do mundo, além de moradores de todo o país para navegação na Bahia e no Espírito Santo, mas temos que lembrar que o Brasil também é visitado por outras espécies de cetáceos, como a baleia franca, no sul do país.

Para Porto Seguro, as baleias são atração que fomenta o turismo e cria uma cadeia de oportunidade para o turismo no município e região. Direta e indiretamente, a chegada das baleias traz qualidade de vida a muitas pessoas, enche o mar de vida e nos permite dizer que esta região é um paraíso tão lindo que as baleias o escolheram para darem a luz e cuidar de seus bebês.

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394

 

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