Reciclagem infinita é mito e estimula mais consumo

 

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Reciclagem infinita é mito e estimula mais consumo

A globalização fez o consumo crescer ano após ano, nas últimas décadas, e o resultado é que o volume de lixo que a humanidade produz também se multiplicou, num volume que o planeta não consegue mais absorver.

Reciclagem é a solução para tanto plástico, metal, roupa? A resposta não é tão simples: esta ferramenta se tornou o pretexto ideal para a dinâmica do consumo se perpetuar, sob a ilusão de que, se será reciclado depois, está tudo bem.

IHU

A reportagem é de Lúcia Müzell, publicada por Radio França Internacional (RFI Brasil), 08/06/2021.

Quem traz essa reflexão perturbadora é a diretora da organização Zero Waste France, Flore Berlingen, autora de “Reciclagem, a grande enganação: como a economia circular se tornou o álibi da indústria descartável” (tradução livre de Recyclage, le grand enfumage: comment l’économie circulaire est devenue l’alibi du jetable).

“Na realidade, deveríamos estar reduzindo a quantidade de coisas que consumimos e jogamos fora. A prioridade é a prevenção, ou seja, a diminuição do lixo na sua origem. Mas, infelizmente, o mundo tem se focalizado na solução da reciclagem deste lixo – talvez porque essa seja a solução mais fácil, ou talvez porque essa indústria também se tornou rentável”, afirma a ativista, em entrevista ao programa C’est Pas du Vent, da RFI.

O livro constata que, em vez de estimular um círculo virtuoso baseado na consciência sobre a escassez dos recursos naturais, a reciclagem acabou por livrar o peso na consciência dos consumidores: basta colocar tudo no lixo reciclável e podemos voltar a comprar mais.

“Quando buscamos reciclar produtos que não deveriam sequer existir – afinal eles representam um consumo excessivo dos nossos recursos naturais –, não estamos chegando a pequenos passos rumo a uma solução. Estamos é nos afastando da solução”, frisa. “É por isso que acho que devemos nos permitir criticar a reciclagem, ou pelo menos afirmar que ela não deve ser a nossa solução prioritária.”

Mito do “eternamente reciclável”

A autora lembra que o plástico não é eternamente reciclável: a cada ciclo, menos produto pode ser recuperado e o processo gera dejetos, além de consumir energia e água. Ou seja, está longe de ser algo “natural”, como alguns poderiam pensar. Tanto a produção, quanto a reutilização do plástico são altamente poluentes.

“Esse mito da reciclagem infinita faz com que a indústria do descartável se torne ‘aceitável’ e continuemos a consumir excessivamente. Mas isso é uma mentira, porque a reciclagem não é suficiente para tornar sustentáveis os produtos descartáveis, em especial os de uso único”, destaca a ativista – que não vê com bons olhos até iniciativas que, aparentemente, são recheadas de boas intenções, como a recuperação de garrafas pet para usos mais duradouros.

“Podemos ter a impressão de que é uma boa ideia porque, a curto prazo, nos permite reutilizar as garrafas, evitar que elas sejam jogadas na natureza etc. Mas estou convencida de que, a longo prazo, é uma falsa boa ideia”, sublinha Flore Berlingen. “Não devemos pensar em soluções que incluam o plástico, por mais que elas sejam reutilizáveis. Sem contar que, ao transformar a garrafa plástica em uma moeda de troca, vamos de encontro ao nosso objetivo de reduzir o seu uso no mundo.”

Estímulo para mais compras de roupas, celulares…

O plástico, derivado do petróleo e não biodegradável, representa a parte mais visível do problema – mas ele está em todo o lugar. Na indústria têxtil, a reciclagem se tornou argumento de venda: as lojas oferecem uma redução no preço se o cliente trouxer roupas usadas para a reciclagem, contando que ele saia com uma sacola de novas peças. Na telefonia, usuários trocam todo o ano o modelo do celular com a consciência tranquila de que o antigo será utilizado por outra pessoa ou suas peças serão recuperadas, e assim por diante.

A pandemia de coronavírus acentuou o problema, ao inserir no nosso cotidiano um novo objeto que se tornou indispensável, as máscaras, e trazer de volta – e com toda a força – as embalagens descartáveis. O consumo pela internet fez a produção de caixas e sacolas plásticas para entrega disparar. Entretanto, existem soluções mais ambientalmente responsáveis, baseadas na reutilização dos artigos. Alice Abbat, coordenadora da rede de vendas por consignação na França, aponta as dificuldades para o desenvolvimento da prática, comum até os anos 1990.

“O preço das embalagens descartáveis não é suficientemente proibitivo. Para voltarmos a reutilizar uma garrafa de vidro, uma caixa, uma marmita de comida, teríamos que remodelar toda a nossa infraestrutura de produção e serviços, com altos investimentos”, explica. “Hoje, os distribuidores não têm nenhuma obrigação neste sentido, de reutilizar embalagens que os usuários poderiam devolver”, lamenta.

(EcoDebate, 10/06/2021) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.

[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

 

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