A proteção dos oceanos começa em nossas casas

 

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Foto: Projeto Tamar / EBC

A proteção dos oceanos começa em nossas casas, artigo de Ronaldo Christofoletti

A partir do momento que as pessoas entenderem que o oceano começa dentro de casa e que ele pode ser bem cuidado por todos nós com base em gestos simples

Todos nós, em qualquer lugar do Brasil, temos uma relação com o oceano e nem sempre nos damos conta disso. Ele cobre mais de dois terços da superfície da Terra e é responsável por fornecer alimentos, energia, fármacos e minerais, assim como serviços econômicos e sociais aos seres vivos. Por meio das algas marinhas, produz mais da metade do oxigênio do planeta. Absorve grande parte dos gases do efeito estufa que são lançados diariamente na atmosfera, contribuindo para a regulação climática. Assim, a chuva, o clima e a temperatura que influencia são determinantes para diversas atividades, como a agropecuária. Dele dependem o comércio nacional e internacional, o turismo, a pesca, a aquicultura, entre outros.

No mundo, o oceano contribui diretamente com cerca de US$ 1,5 trilhão para a economia, sendo que apenas o setor de alimentos gera em torno de 237 milhões de empregos. A carne de peixe responde por aproximadamente 17% do consumo de proteína animal. Em países menos desenvolvidos, esse número pode chegar a 50%. No entanto, se os peixes que essas populações consomem entram em contato com poluentes, eles se tornam potenciais problemas à saúde.

Considerando a importância do oceano para a humanidade, a Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu a Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável – um movimento global e com diversos atores que se inicia agora em 2021 e vai até 2030. O objetivo principal é unir esforços de todos os setores da sociedade para reverter o ciclo de declínio da saúde do oceano e criar melhores condições para concretizar o desenvolvimento sustentável. No entanto, para que os avanços promovidos ao longo da Década impactem a sociedade para muito além desses dez anos, é preciso colocar a comunicação no centro das estratégias.

E foi exatamente isso o que a ONU fez. A Década definiu sete resultados para serem alcançados até 2030. Eles respondem à seguinte pergunta: que oceano queremos para o futuro? E um desses resultados esperados é que tenhamos um oceano que inspire e engaje a sociedade, sendo conhecido e valorizado por todos. É justamente nesse ponto que a comunicação se mostra essencial. E é também aí que entra em ação um conceito muito importante para a Década: o de cultura oceânica, que é entender como este ambiente influencia as nossas vidas e de que maneira as nossas ações o influenciam.

A verdade é que a nossa influência sobre o oceano começa em casa. Todo o lixo que produzimos, quando não descartado corretamente, tem grandes chances de parar no mar, afetando ecossistemas e a biodiversidade. Um dos grandes problemas atuais são as ilhas de plástico – grandes massas continentais de resíduos descartados de forma irregular, que poluem e causam danos à vida marinha. Nesse sentido, a comunicação tem papel importante para sensibilizar as pessoas e engajá-las para que mudem seus hábitos.

A comunicação tem, portanto, a possibilidade de reverter comportamentos individuais e coletivos em favor de uma cultura oceânica forte e consolidada. É por isso que o Grupo de Assessoramento da Década do Oceano no Brasil, liderado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) – representante científico do país na Comissão Oceanográfica Intergovernamental (COI) da Unesco –, reuniu também jornalistas e divulgadores científicos, que há anos vêm trabalhando em comunicar os temas oceânicos.

Já existem algumas iniciativas de referência nesse sentido. Uma delas é o Maré de Ciência da Unifesp, proposta inovadora de difusão de conhecimento para fortalecer a interface entre ciência, políticas públicas e sociedade. A ação busca valorizar o papel da ciência em tomadas de decisão. Em 2020, em meio à pandemia, mais de 60 escolas, 130 professores e 2 mil alunos participaram de um desafio para mostrar como instituições de ensino de todo o Brasil, perto ou longe do mar, podem discutir a cultura oceânica.

Outra iniciativa importante, realizada às vésperas do início da Década, foi o Conexão Oceano, evento organizado pela Unesco e Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza no Museu do Amanhã, em 2019, que reuniu personalidades, comunicadores, artistas e cientistas para discutir o oceano que queremos. Recentemente, resultou também na publicação “Oceano sem mistérios: desvendando os manguezais”, cujo objetivo é ajudar cientistas e comunicadores a falarem sobre o assunto de maneira a sensibilizar o público e gerar engajamento.

A partir do momento que as pessoas entenderem que o oceano começa dentro de casa e que ele pode ser bem cuidado por todos nós com base em gestos simples, a Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável estará no caminho certo para chegar a 2030 atingindo todos os seus objetivos.

*Ronaldo Christofoletti é membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN), professor do Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e membro do Grupo Assessor de Comunicação para a Década do Oceano da UNESCO.

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 17/05/2021

 

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