Queimadas e a razão irracional do ser humano

artigo de opinião

A razão irracional do ser humano

O ser humano não consegue enxergar quão grandiosa é a recompensa em cuidar, preservar e amar a natureza

Artigo de Lya Tatiana Ramos

[EcoDebate] A cena de animais fugindo desesperadamente do fogo causado pelo homem, nos instiga a pensar na palavra racionalidade. Se ser racional é ser sensato, não vejo bases nem razões que possam justificar a sensatez desse ato vindo de seres ditos racionais. Será que podemos chamar de racional tudo o que está acontecendo? Como Max Weber classificaria a racionalidade se o estudo moderno da sociologia considerasse as ações da sociedade contemporânea? O homem habituou-se em destruir a natureza, utilizando da racionalidade dita convencional, através de hábitos enraizados em sua cultura. Uma cultura que muitas vezes se mostra errônea, despida de sensatez, despida de lógica. Mas, será convencional destruir a natureza, fonte de tudo o que temos e do que somos?

Não posso nem devo generalizar o tipo de racionalidade dos homens, pois a racionalidade em cada ser é diferente. Alguns, através da ação social tradicional, pauta suas ações consoante costumes vividos pela sociedade na qual está inserido, agindo de forma metódica e calculista, utilizando de meios para atingir fins muitas vezes não justificáveis. Outros, agem orientados por alguma crença ou valor, motivos intrínsecos ao seu papel, ou mesmo que constitui a sua essência, seja ela boa ou ruim, certa ou errada, própria ou impropria.

Concordo com Philip Johnson-Laird e Ruth MJ Byrne, quando dizem que seres humanos são racionais em princípios, mas que ao se tratar da prática, erram constantemente. Que são seres competentes para serem racionais, mas que por fatores diversos tem seu desempenho limitado. O filósofo e pensador Jesús Mosterín, fez uma distinção paralela entre a racionalidade teórica e prática, onde considerou a razão como uma faculdade psicológica e a racionalidade uma estratégia de otimização.

Diante de tudo o que estamos presenciando, fica a pergunta: Há uma estratégia de otimização para a razão de o homem estar destruindo tudo de mais importante e rico que possui?

Questionamentos como: “Posso destruir a natureza?”, “O que isso vai trazer para mim, para a natureza e para as gerações futuras?”, são ignorados, assim como a Máxima de Kant, pois muitos seres humanos, não estão interessados em descobrir se deve ou não agir da forma como tem agido, tampouco nas consequências de seus atos.O ser humano tem agido de forma egoísta, de maneira particular, seguindo uma lei própria, uma lei que não é aplicada de forma universal como deveria ser. Quem põe fogo numa floresta, jamais quer que a plantação em seu quintal, por menor que seja, seja queimada.

Os homens deveriam exercitar mais a sua consciência e optar por escolhas morais, obedecer às leis, ainda que por obrigação. As leis precisam ser cumpridas e devem ter força para obrigar os indivíduos a obedecê-la. Os hábitos, os costumes e a cultura de um povo fundamentam a organização de uma sociedade, mas não podemos deixar de refletir com racionalidade e consciência.

Por mais que o homem queira desfazer-se de tudo aquilo que adquiriu da natureza, isso seria impossível, pois mesmo longe de tudo, colocando-se em pleno vazio, despido de seus interesses e de todos os bens adquiridos ao longo da vida, ainda assim, não se desligaria da natureza porque é parte dela. As suas ações é que o define o quanto são enquanto natureza. Segundo a psicologia, por definição os humanos são racionais, mas, podem pensar e agir racionalmente ou não.

Pode haver alguma razão humana para justificar atos como esses incêndios que estão ocorrendo em nosso país, mas com certeza não há racionalidade. Como pode haver racionalidade na destruição da natureza que provê matéria prima pra tudo o que o ser humano necessita para sobreviver. Uns dizem que a culpa é da mudança climática, outros dizem ser diretamente provocado pelo homem. Mas, qual dessas razões exclui o homem de sua culpa? Certamente nenhuma! Pois seja ação direta, seja mudanças climáticas, o homem é o verdadeiro responsável e nenhuma desculpa o isenta da responsabilidade, ou melhor dizendo, da irresponsabilidade.

Mais uma vez e sempre, o ser humano se achando tão superior, destruindo tudo o que acha pela frente. Nunca ouvi dizer que um animal dito “irracional” tenha ateado fogo na floresta, poluído as águas, o ar, desmatado, dizimado outras espécies de forma inconsequente. A natureza sempre trabalhou para os seres humanos obedecendo seus ciclos, cumprindo os seus papeis na cadeia da vida. O homem esquece que faz parte desse ciclo, dessa sinfonia, que ele faz questão de desafinar, pagando à maior parte da natureza numa moeda totalmente diferente, uma moeda de destruição, de morte, de irracionalidade, de ganância.

A racionalidade baseia-se na capacidade de tomar decisões de forma adequada. A natureza em sua inocência e benevolência com o ser humano, está sofrendo consequências de decisões tomadas de forma inadequada, com resultâncias catastróficas e quase sempre irreversíveis. Muitas espécies da fauna e da flora estão sendo extintas e desconsideradas, acarretando um desequilíbrio ambiental, uma desarmonia no ciclo da natureza.

A ganância por dinheiro e poder, tem levado os humanos a cometerem atitudes cruéis, que dão início a uma avalanche de prejuízos e perdas, uma verdadeira catástrofe, a qual o homem vem se acostumando ao longo do tempo. O ser humano não consegue enxergar quão grandiosa é a recompensa em cuidar, preservar e amar a natureza. A preservação dos recursos naturais tem a sua importância, e qualquer interesse por mínimo que seja é relevante.

Penso que é tarde para mudarmos nossas atitudes, o tempo passou e junto a ele a oportunidade de entrarmos em ação. O que antes parecia simples, hoje atinge dimensões incalculáveis. O ser humano, cada vez mais envolvido com as questões não urgentes do mundo, continua classificando as questões ambientais como não urgentes. Não sei se o nosso Brasil ainda poderá ser classificado como um dos países mais biodiversos do mundo. Do jeito que vai, o máximo que conseguirá será o título de país com mais biodiversidade em extinção ou extinta do mundo.

Fico sem entender e sem aceitar que seres vivos inocentes paguem com sofrimento e morte por ações humanas. Todos aqueles seres que de repente são surpreendidos pelas chamas ardentes, postos para fugir de forma desesperada, assustados por algo que não sabem o que é, nem como surgiu, mas que sentem a dor, vivenciam o desespero e percebem a dizimação de espécies.

Uma natureza linda, inocente e benevolente, que até então, convivia em harmonia no restinho de espaço deixado pela espécie que mais disputa entre si por recursos, e que nessas disputas envolvem de forma injusta, egoísta e irracional outras espécies que vivem harmonicamente, dizimando-as sem piedade, para suprir suas necessidades não necessárias nem urgentes, de forma parasitaria, praticando uma antibiose desnecessária para sua cadeia alimentar, seres críticos, ditos inteligentes, dotados de racionalidade, seres que compõem a espécie humana.

Lya Tatiana Ramos, ambientalista, graduanda em letras, e atualmente trabalhando com educação ambiental.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 29/09/2020

 

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