A segunda onda da Covid-19 em Cuba, na Jamaica, na França e outros países

 

A segunda onda da Covid-19 em Cuba, na Jamaica, na França e outros países

O cansaço do isolamento, a confiança excessiva no controle da pandemia e o relaxamento das medidas preventivas possibilitou um novo surto pandêmico em diversos países.

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

[EcoDebate] O padrão de uma curva epidemiológica subindo rápido e caindo rápido, como aconteceu com o surto da covid-19 na China, não está ocorrendo na maioria dos países. De modo geral, a parte direita da curva tem sido muito maior do que a parte esquerda. Ou seja, a pandemia cresce rapidamente, mas a queda ocorre de maneira mais lenta.

Mas um outro padrão está começando a se generalizar que é o surgimento de uma segunda onda pandêmica. Os países que fizeram lockdown efetivo (quarentena bem restritiva) conseguiram controlar a propagação do coronavírus. Contudo, o cansaço do isolamento, a confiança excessiva no controle da pandemia e o relaxamento das medidas preventivas possibilitou um novo surto pandêmico em diversos países, de diferentes partes do mundo.

Depois de um semestre de grande recessão e aumento do desemprego e das diversas formas de desocupação, a necessidade da retomada das atividades econômicas garante um campo propício para a contaminação do vírus. O fato é que a pandemia continua fazendo vítimas em todos os continentes.

Na França, o primeiro pico da média móvel de 7 dias do número de pessoas infectadas ocorreu em 31/03 com 4.261 casos. Em seguida, o número de contaminados caiu até uma média de 272 casos em 27/05. O número continuou baixo até o final de julho. Mas a curva voltou a subir em agosto e a média móvel chegou a 6.850 casos em 07 de setembro. Portanto, o segundo pico francês já é bem maior do que o primeiro, conforme mostra o gráfico abaixo.

Na Espanha, o pico da média móvel de casos ocorreu em 20/03, com 8.992 casos. A média caiu para 389 casos em 10/05 e se manteve neste patamar até meados de julho. O pico da segunda onda ocorreu em 26/08 com 7.435 casos. Assim, o segundo pico espanhol foi menor do que o primeiro, mas assim mesmo bastante significativo.

Em Israel, o primeiro pico ocorreu em 03/04 com a média de 628 casos. A média caiu para cerca de 15 casos entre os meados de maio e junho. Voltou a subir e a média móvel teve um segundo pico em 28/07 com 1.750 casos. Os números voltaram a cair até meados de agosto, mas voltaram a subir para um terceiro pico em 07/09 com a média de 2.482 casos. Ou seja, Israel já apresenta um terceiro pico muito maior do que os dois anteriores. No dia 07 de setembro o número de casos chegou ao recorde absoluto de 3.331 casos em 24 horas.

Na Austrália o primeiro pico ocorreu em 30/03 com a média móvel de 368 casos. Nos meses de maio e junho a média ficou em torno de 15 casos. Mas o número de pessoas infectadas voltou a subir e atingiu um segundo pico em 05/08 com 552 casos. Portanto, na Austrália, o segundo pico também foi maior do que o primeiro.

Em Cuba, o primeiro pico ocorreu em 23/04 com média móvel de 54 casos. O surto diminuiu até uma média de somente 2 casos em 21/07. Mas em agosto o número de pessoas infectadas aumentou e ocorreu um segundo pico em 03/09 com 59 casos. O segundo pico foi também maior do que o primeiro em Cuba.

número acumulado de casos de covid-19

Na Jamaica o primeiro pico ocorreu em 01/05 com uma média de apenas 23 casos. Os números caíram para uma média de cerca de 5 casos nos meses de junho e julho. Mas em agosto o surto pandêmico aumentou bastante e atingiu um segundo pico em 04 de setembro com 146 casos. Ou seja, o segundo pico jamaicano foi 6 vezes maior do que o primeiro.

Cuba e Jamaica são os países da América Latina (com mais de 1 milhão de habitantes) menos impactos pela pandemia. Mesmo assim, passam por dificuldades, após imaginar que tudo parecia controlado.

número acumulado de casos de covid-19 em Cuba e na Jamaica

O gráfico abaixo, do jornal Financial Times, mostra a média móvel do número de casos dos 6 países analisados, mas ponderado pela dimensão demográfica (novos casos por milhão). Nota-se que em todos os casos houve uma segunda onda, que em geral foi maior do que a primeira.

mostra a média móvel do número de casos dos 6 países analisados, mas ponderado pela dimensão demográfica

Estes casos – assim como de outros países – servem de alerta para o Brasil, que tem flexibilizado o isolamento social sem tomar os devidos cuidados de prevenção. Aqui também pode ocorrer um repique do número de casos e um espalhamento ainda maior da pandemia.

José Eustáquio Diniz Alves
Colunista do EcoDebate.
Doutor em demografia, link do CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

Referências:

ALVES, JED. A pandemia de Coronavírus e o pandemônio na economia internacional, Ecodebate, 09/03/2020

https://www.ecodebate.com.br/2020/03/09/a-pandemia-de-coronavirus-covid-19-e-o-pandemonio-na-economia-internacional-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ALVES, JED. A América Latina responde por mais de 40% das mortes da covid-19 há mais de 2 meses, Ecodebate, 24/08/2020

https://www.ecodebate.com.br/2020/08/24/a-america-latina-responde-por-mais-de-40-das-mortes-da-covid-19-ha-mais-de-2-meses/

ALVES, JED. A Argentina ultrapassa o Chile e ocupa o 10º lugar no ranking global dos casos da covid-19, Ecodebate, 31/08/2020

https://www.ecodebate.com.br/2020/08/31/a-argentina-ultrapassa-o-chile-e-ocupa-o-10-lugar-no-ranking-global-dos-casos-da-covid-19/

Financial Times. Coronavirus tracked: the latest figures as countries start to reopen. The FT analyses the scale of outbreaks and the number of deaths around the world

https://www.ft.com/content/a26fbf7e-48f8-11ea-aeb3-955839e06441

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 09/09/2020

 

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