Ecologia dos Saberes segundo Boaventura Santos, Parte 4/4 (Final), artigo de Roberto Naime

 

artigo

 

[EcoDebate] SANTOS (2007) relaciona que a ecologia de saberes é basicamente uma contra-epistemologia. O impulso básico resulta das novas emergências políticas de povos do outro lado da linha como parceiros da resistência.

Em termos geopolíticos, trata-se de sociedades periféricas do sistema-mundo moderno onde a crença na ciência moderna é mais tênue, onde é mais visível a vinculação da ciência moderna aos desígnios da dominação colonial e imperial, onde conhecimentos não-científicos e não-ocidentais prevalecem nas práticas cotidianas das populações.

Também ocorre proliferação sem precedentes de alternativas, as quais porém não podem ser agrupadas sob a alçada de uma única opção global. A ecologia de saberes procura dar consistência epistemológica ao pensamento pluralista e propositivo.

Na ecologia de saberes cruzam-se conhecimentos e também ignorâncias. Não existe uma unidade de conhecimento, assim como não existe uma unidade de ignorância. As formas de ignorância são tão heterogêneas e interdependentes quanto as formas de conhecimento.

Devido a essa interdependência, a aprendizagem de certos conhecimentos pode envolver o esquecimento e em última instância a ignorância de outros. Desse modo, na ecologia de saberes a ignorância não é necessariamente um estado original ou ponto de partida. Pode ser um ponto de chegada.

Pode ser o resultado do esquecimento ou da desaprendizagem. Num processo de aprendizagem conduzido por uma ecologia de saberes é crucial a comparação entre o conhecimento que está sendo aprendido e o conhecimento que nesse processo é esquecido e desaprendido.

A ignorância só é uma forma desqualificada de ser e de fazer quando aquilo que se aprende vale mais do que aquilo que se esquece. A utopia do inter-conhecimento consiste em aprender outros conhecimentos sem esquecer os próprios.

O princípio da prudência que fundamenta os pilares da ecologia de saberes convida a uma reflexão mais profunda sobre a diferença entre a ciência como conhecimento monopolista e a ciência como parte de uma ecologia de saberes.

Como produto do pensamento abissal, o conhecimento científico não se encontra distribuído socialmente de forma equitativa e nem poderia estar.

SANTOS (2007) assinala que as intervenções no mundo real propiciadas tendem a servir aos grupos sociais que têm maior acesso a esse conhecimento.

Enquanto as linhas abissais continuarem a ser traçadas, a luta por uma justiça cognitiva não terá êxito, caso se apoie apenas na ideia de uma distribuição mais equitativa do conhecimento científico.

Na ecologia de saberes, a busca de credibilidade para os conhecimentos não-científicos não implica o descrédito do conhecimento científico.

Trata-se de explorar a pluralidade interna da ciência, as práticas científicas alternativas que têm se tornado visíveis por meio das epistemologias feministas e pós-coloniais, e de promover a interação e a interdependência entre os saberes científicos e outros saberes, não-científicos.

SANTOS (2007) aduz que uma das premissas básicas da ecologia de saberes é que todos os conhecimentos têm limites internos, referentes às intervenções no real que eles permitem, e externos, decorrentes do reconhecimento de intervenções alternativas propiciadas por outras formas de conhecimento.

As formas de conhecimento hegemônicas só conhecem limites internos, de modo que o uso contra-hegemônico da ciência moderna só é possível mediante a exploração paralela de seus limites internos e externos como parte de uma concepção contra-hegemônica de ciência.

É por isso que o uso contra-hegemônico da ciência não pode se limitar à ciência. Só faz sentido no âmbito de uma ecologia de saberes, assegura SANTOS (2007).

Para uma ecologia de saberes, o conhecimento como intervenção no real e não como representação do real atinge credibilidade cognitiva, mensurada pelo tipo de intervenção no mundo que ela proporciona, auxilia ou impede.

Atualmente ninguém questiona o valor geral das intervenções no real propiciadas pela ciência moderna por meio de sua produtividade tecnológica. Mas isso não deve nos impedir de reconhecer intervenções propiciadas por outras formas de conhecimento.

Em muitas áreas da vida social a ciência moderna tem demonstrado uma indiscutível superioridade em relação a outras formas de conhecimento, mas há outros modos de intervenção no real que hoje nos são valiosos e para os quais a ciência moderna em nada contribuiu.

É o caso da preservação da biodiversidade possibilitada por formas de conhecimento camponesas e indígenas, que se encontram ameaçadas justamente pela crescente intervenção da ciência moderna.

E não deveria nos impressionar a riqueza dos conhecimentos que lograram preservar modos de vida, universos simbólicos e informações vitais para a sobrevivência em ambientes hostis com base exclusivamente na tradição oral.

A ecologia de saberes expande o caráter testemunhal dos conhecimentos de modo a abarcar igualmente as relações entre o conhecimento científico e o não-científico, ampliando assim o alcance da intersubjetividade como inter-conhecimento e se apropriando dos saberes conforme SANTOS (2007).

SANTOS (2007) observa que num regime de ecologia de saberes, a busca de inter-subjetividade é tão importante quanto complexa. Uma vez que diferentes práticas de conhecimento têm lugar em diferentes escalas espaciais e com diferentes durações e ritmos, a inter-subjetividade requer a disposição para conhecer e agir em diferentes escalas e com diferentes durações.

Muitas das experiências subalternas de resistência são locais ou foram localizadas e assim tornadas irrelevantes ou inexistentes pelo conhecimento abissal moderno, o único capaz de gerar experiências globais.

A resistência contra as linhas abissais precisa ocorrer em uma escala global, é imperativo desenvolver algum tipo de articulação entre as experiências subalternas por meio de ligações entre o local e o global. Desse modo, a ecologia de saberes tem de ser trans escalar.

SANTOS (2007) observa que a ecologia de saberes não concebe os conhecimentos em abstrato, mas como práticas de conhecimento que possibilitam ou impedem certas intervenções no mundo real.

Um pragmatismo epistemológico é justificado acima de tudo pelo fato de que as experiências de vida dos oprimidos lhes são inteligíveis por via de uma epistemologia das consequências. Em seus cenários de mundo, as consequências vêm sempre antes das causas.

A ecologia de saberes assenta na ideia pragmática de que é necessária uma reavaliação das intervenções e relações concretas na sociedade e na natureza que os diferentes conhecimentos proporcionam.

Existem relações entre saberes, que geram hierarquias, uma vez que nenhuma prática concreta seria elevada a condição de conhecimento empírico e possível sem estes enquadramentos.

Mas em vez de subscrever uma hierarquia única, universal e abstrata entre os saberes, se estabelecem hierarquias em conformidade com o contexto, conforme os resultados concretos pretendidos ou atingidos pelas diferentes formas de saber.

Hierarquias concretas emergem do valor relativo de intervenções alternativas no mundo real. Entre os diferentes tipos de intervenção pode existir complementariedade e contradição.

Sempre que há intervenções no real que em princípio podem ser orientadas por diferentes sistemas de apropriação, as escolhas concretas das formas de conhecimento a privilegiar devem ser informadas pelo princípio da prudência.

Que no contexto da ecologia de saberes consiste em dar preferência às formas de conhecimento que garantam a maior participação possível dos grupos sociais envolvidos na concepção, execução, controle e fruição da intervenção, segundo SANTOS (2007).

O exemplo a seguir ilustra bem os perigos de substituir um tipo de conhecimento por outro com base em hierarquias abstratas. Nos anos 1960, os milenares sistemas de irrigação dos campos de arroz da ilha de Bali, na Indonésia, foram substituídos por sistemas científicos promovidos pela Revolução Verde.

Os sistemas tradicionais se baseavam em conhecimentos hidrológicos, agrícolas e religiosos ancestrais e eram administrados por sacerdotes de um templo hindu-budista dedicado a Dewi-Danu, a deusa do lago. Foram substituídos precisamente por serem considerados produtos da magia e da superstição, daquilo que foi depreciativamente designado como “culto do arroz”.

Só que a substituição teve resultados desastrosos para a cultura do arroz, cuja colheita decresceu nos anos subsequentes. Diante disso, os sistemas científicos tiveram de ser abandonados e os sistemas tradicionais restaurados. Esse caso ilustra a importância do princípio da prudência quando se lida com uma possível complementaridade ou contradição entre diferentes tipos de conhecimento.

A suposta incompatibilidade entre dois sistemas de conhecimento (o religioso e o científico) para a realização da mesma intervenção (a irrigação dos campos de arroz) resultou de uma má avaliação (má ciência) provocada precisamente por juízos abstratos, baseados na superioridade abstrata do conhecimento científico.

Depois da desastrosa intervenção técnico-científica, a modelagem computacional veio demonstrar que as sequências da água geridas pelos sacerdotes da deusa Dewi-Danu eram as mais eficientes possíveis, portanto mais eficientes do que as do sistema científico de irrigação.

SANTOS (2007) assegura que o que está em jogo é a criação de uma previsão ativa baseada na riqueza da diversidade não-canônica do mundo e de um grau de espontaneidade baseado na recusa a deduzir o potencial do factual.

Dessa forma, os poderes constituídos deixam de ser destino, podendo ser realisticamente confrontados com os poderes constituintes, segundo SANTOS (2007).

SANTOS (2007) denota que a ecologia de saberes é uma epistemologia desestabilizadora, na medida em que se empenha numa crítica radical da política do possível, sem ceder a uma política do impossível.

O papel de uma ecologia de saberes é o de identificar as condições que maximizam a probabilidade de uma ocorrência e definir o horizonte de possibilidades.

A ecologia de saberes é ao mesmo tempo constituída por sujeitos desestabilizadores, individuais ou coletivos, e constitutiva dos mesmos.

A construção epistemológica de uma ecologia de saberes não é tarefa fácil. São identificados conjuntos principais de reflexões.

Inicialmente se identifica os saberes e se levanta uma série de questões como a partir de qual perspectiva é possível identificar diferentes conhecimentos. Como se pode distinguir o conhecimento científico do não-científico. Como distinguir entre os vários conhecimentos não-científicos.

Depois se levanta as questões referentes aos procedimentos que permitem relacionar os diferentes saberes entre si. Como distinguir incomensurabilidade, contradição, incompatibilidade e complementaridade.

E finalmente a natureza. Como avaliar das intervenções no mundo real possibilitadas pelos saberes.

SANTOS (2007) assevera que é próprio da natureza da ecologia de saberes se constituir mediante perguntas constantes e respostas incompletas. Nisto reside sua característica de conhecimento prudente.

A ecologia de saberes nos capacita a uma visão mais abrangente tanto daquilo que conhecemos como daquilo que desconhecemos, e também nos previne de que aquilo que não sabemos é ignorância nossa e não ignorância em geral.

A vigilância epistemológica requerida pela ecologia de saberes transforma o pensamento pós-abissal num profundo exercício de autorreflexividade.

SANTOS (2007) cita que os pensadores e atores pós-abissais se vejam num contexto semelhante àquele em que Santo Agostinho se encontrava ao escrever suas “Confissões”, as quais expressou desta forma de forma prosaica. “Converti-me numa questão para mim”.

A diferença é que o tópico deixou de ser a confissão dos erros passados para ser a participação solidária na construção de um futuro pessoal e coletivo, mesmo sem nunca ter a certeza de não repetir os erros cometidos no passado conforme assevera SANTOS (2007).

De qualquer forma, em meio ambiente desconhecer a ecologia dos saberes é negligenciar boa parte do conhecimento humano sobre a natureza, acumulado até hoje.

 

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Aposentado do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

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Referência:

SANTOS, Boaventura de Sousa, Para além do pensamento abissal: das linhas globais a uma ecologia de saberes, Novos estud. – CEBRAP n. 79 São Paulo nov. 2007, http://dx.doi.org/10.1590/S0101-33002007000300004

 

Nota da redação: para acessar as partes anteriores deste artigo clique nos links

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in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 19/09/2019

Ecologia dos Saberes segundo Boaventura Santos, Parte 4/4 (Final), artigo de Roberto Naime, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 19/09/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/09/19/ecologia-dos-saberes-segundo-boaventura-santos-parte-44-final-artigo-de-roberto-naime/.

 

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