Em busca de novos rumos, por Othon Henry Leonardos e Suzi Huff Theodoro

artigo

EM BUSCA DE NOVOS RUMOS

Othon Henry Leonardos1 e Suzi Huff Theodoro2

1 – Professor Emérito da Universidade de Brasília. E-mail: othonleonardos@gmail.com

2 – Professora do Programa de Pós-graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento Rural da Universidade de Brasília (PPG-MADER/UnB)

Parte da espécie humana está em busca de novos caminhos para escapar da cilada em que se meteu (criada a partir de sua própria insensatez) e que está destruindo a teia da vida, da qual é parte. O que está em risco é a sobrevivência da própria espécie e, junto dela, de outras tantas espécies que, com ela, vivem em sinergia. Esse grupo, que busca novas possibilidades, percebeu que a Natureza, da qual depende, está sendo destruída para além do seu nível de resiliência. Ao se dar conta do risco, procura por novas formas de convivência com os elementos que garantem sua permanência e replicação. Idealiza novas fórmulas de um desenvolvimento que agregue princípios e práticas mais moderados de uso dos recursos naturais e, no extremo, agarra-se à crenças mais holísticas, na esperança de encontrar saídas, esquecendo-se que o poder da mudança não está em um Deus onipresente que passou a adorar, mas em seu íntimo e na própria natureza que consome hedonisticamente. Pouco percebe que para mudar é preciso rever princípios, objetivos e ações desta rota de desenvolvimento predatório. Então se questiona: quais caminhos poderão colocar novamente a espécie humana em uma rota evolutiva, onde para além do discurso, possa-se praticar os anunciados, e não executados, princípios paradigmáticos de nossa conveniente sustentabilidade? E, em sua busca por respostas, põe a mão na própria consciência, e percebe que o tal discurso propagado desde o final do século XX tinha sido vazio, porque as propostas não ecoavam igualmente na mente e nos corações de uma sociedade desigual, que, ou não entendia o nível de risco do uso desmedido da natureza, ou não se preocupava com tais riscos, uma vez que ao considerá-los, perderia o poder conquistado por vias nem sempre justas e éticas.

Apesar dessa conscientização e, ainda repleto de sonhos para um bem-vivir, percebeu que o discurso da sustentabilidade foi apropriado e transformado em uma prática oposta ao conceito inicialmente formulado e oportunamente capitaneado pelo chamado capitalismo selvagem. O resultado dessa apropriação facilitou e ampliou o processo de enriquecimento acelerado de uns poucos às custas dos mais pobres, concentrando, de forma imoral, a renda e a destruição do meio ambiente, o que demonstra que vivemos de forma absolutamente insustentável, em qualquer dimensão que se queira considerar.

Partindo dessa percepção, precisamos discutir o avanço dos problemas ambientais e humanitários, que indicam um fim trágico para o modo de vida que pretendíamos mudar desde que os temas ambientais ganharam relevo no final dos anos de 1970. O que conseguimos fazer, como cidadãos, cientistas e gestores públicos, ao longo desse quase meio século? Nossos esforços têm servido de alerta em nossos campos de ação? Obviamente, não temos a pretensão de ter as respostas para salvar o planeta. Portanto, esse trabalho, elaborado como um ensaio de livre pensar, não se propõem a apresentar resultados, mas, questões orientadoras para a construção de novos rumos.

Tal anseio baseia-se nas evidências de que o processo de expropriação que hoje continuamos a perceber tanto na Mama África quanto na Madre Tierra – cada vez mais empobrecidas pela pilhagem colonizadora – não foi estancado e está a cada dia mais intenso e selvagem. A ambição desmedida pelo controle dos recursos naturais indica que o prazo de reversão ou de resiliência da Terra está cada vez mais curto, o que nos conduzirá ao que se chama de Apocalipse. Então, precisamos nos perguntar, qual deve ser o porte da mudança e se ela seria suficiente para evitar nosso fim? Até quando o nosso comportamento continuará sendo controlado pelas imposições do mercado, presentemente travestido em uma outra forma mais sutil de colonização?

Antes que seja tarde, é preciso que busquemos novos horizontes! Ou, quiçá, a oportunidade de um novo recomeço, que nos realinhe com a teia materna, antes de uma inevitável tragédia. Mas, quais seriam esses novos horizontes? Temos muito mais perguntas que respostas em relação aos tempos por vir e aos novos modos de vida que teríamos que internamente assumir. Ao constatarmos que a teia da vida que nos sustenta está sendo destruída mais intensamente a cada dia, devemos reconhecer que teremos que repensar qual é a sustentabilidade que precisaremos adotar – o modo de organizar nossa casa, nosso habitat – para muito além da noção do estrito indicador de desenvolvimento humano mostrado pelos índices de PIB (Produto Interno Bruto) ou de IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). Precisamos atingir não somente o meio do caminho entre o chamado bem-estar humano e o teto ecológico de pressão planetária (Raworth 2017) mas, chegar ao ponto onde a Natureza, que foi destruída e vilipendiada, possa se recompor. Para tanto, teremos que respeitar muito além dos limites de resiliência ecológica, impostos por legislações nacionais e acordos internacionais, os quais são, muitas vezes perfeitos do ponto de vista jurídico, mas impraticáveis pelas pressões impostas pelo livre mercado do capital, que é comandado por apenas 1% da população – os chamados donos-do-poder. Como vencer este impasse é a questão fundamental de nossa busca. Vale se questionar se de fato, poderíamos ser realmente livres para decidir? Especialmente nesses tempos, onde é possível se controlar toda e qualquer forma de pensamento ou organização. Onde impera um sistema de vigilância virtual que controla o mundo real. Onde os fins justificam os meios, mesmo que isto custe a soberania e a independência dos povos.

Devemos partir do princípio que a salvação não é dependente só da parcela da população que acordou, que se questiona e que tenta encontrar alternativas. Pragmaticamente, é necessário aceitar que é a humanidade, como um todo, é quem tem que buscar estes novos horizontes. Mas, ainda que não tenhamos mando de representação da totalidade da população planetária, sem dúvida alguma podemos fazer a nossa parte e esperar que nosso exemplo seja seguido. Podemos sim, conscientizarmo-nos uns aos outros em todos os espaços de representação ou de diálogo e, em um “trabalho de formiguinha”, alertar, resistir e lutar por mudanças. É sabido que o processo não será fácil. Não importa quem tome a iniciativa nem quem apresente os trabalhos mais eloquentes e geniais, pois o mais importante é conseguirmos alertar quem ainda não foi despertado, para que um movimento de grandes proporções amplie o eco do grito de socorro do nosso Planeta.

É fundamental, também que busquemos alcançar as esferas políticas e de decisões, de forma que as nações que possuem o domínio econômico hegemônico, não usem da cobiça e do poder para continuar a se apropriar dos bens naturais, levando sociedades inteiras a padecer e perecer.

Obviamente, devemos sonhar com um mundo mais justo e preservado, mas, também, precisaremos ser pragmáticos, uma vez que reverter a exploração contínua dos fartos recursos disponíveis em países como o Brasil, e de outros tantos expropriados da América Latina e África, não será uma tarefa fácil, porque este mecanismo de dominação e cobiça faz parte do próprio processo de desenvolvimento da civilização humana. Mas é necessário plantar a semente desta cruzada. E precisamos tomar a iniciativa e sermos propositivos. Devemos começar um movimento que estimule outros grupos no sentido de buscar mecanismos de como poderemos reingressar na teia da vida e nela permanecer e evoluir.

A principal bandeira deverá ser a busca de nossa permanência na teia da vida e não somente a sustentabilidade ambiental. Teremos que perseguir novos rumos, novos horizontes, novos itinerários. Pois ao abandonarmos definitivamente a teia da vida, veremos muito rapidamente que o futuro pode ser o ocaso humano – nossa própria extinção!!! Precisaremos alertar que além de evoluir, como é inerente à vida, deveremos trilhar caminhos que realmente nos levem a evoluir como espécie.

Poderemos, então, voltar a nos perguntar: quais os obstáculos que estão a nossa frente? Como convencer as grandes potências da necessidade de interromper, ou ao menos minimizar, a destruição generalizada em todos os locais? Precisaremos de porta vozes, como o Papa Francisco, que em sua encíclica Laudato Si, reconhece o óbvio, de que fingimos ignorar que são os mais ricos os que destroem a Natureza. Precisamos de mais Julian Assange, do Weakleakes que divulga que todos estamos sendo vigiados pela CIA. Precisamos de milhares de Marielles Franco vivas, para gritar e lutar contra injustiças de toda ordem. Precisamos, enfim, que nosso grito, seja um novo grito da Terra e da própria humanidade, dos animais e das plantas que o acompanham, pois, os sinais do desequilíbrio, tanto homeostático quanto homeorrético, estão em toda parte. Exemplos de animais em perigo de extinção, como os ursos polares que invadem vilas de pescadores no Alasca mostrando o desequilíbrio de animais que perderam seu habitat; como a Palanca africana, que é caçada ao extremo, como as onças pardas, pintadas, jaguatiricas, gatos-do-mato, todos em extinção, continuam a serem mortas nas últimas matas das grandes fazendas do Centro-Oeste brasileiro onde o agronegócio é pop e lidera a exportação de grãos que são transformados em ração para alimentar animais na Europa, China e EUA a partir do porto de Rotterdam.

Para além da perda da biodiversidade, as mudanças no clima já mostram que os riscos de tragédias humanas, não são mais suposições, mas fatos percebidos nos quatro cantos do Planeta. Secas e inundações estão deslocando ou suspendendo a produção de alimentos em grandes áreas, anteriormente produtivas. Temperaturas além do suportável batem novos recordes a cada ano. Precisamos acordar ou não seremos capazes de encontrar uma saída.

Finalmente, é preciso reconhecer que perdemos o tempo de somente alertar. Agora precisamos agir, sair dessa armadilha e voltar para a Teia da Vida. As gerações futuras pedem clemência. Gente, bichos e passarinhos…

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 06/08/2019

Em busca de novos rumos, por Othon Henry Leonardos e Suzi Huff Theodoro, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 6/08/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/08/06/em-busca-de-novos-rumos-por-othon-henry-leonardos-e-suzi-huff-theodoro/.

 

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2 comentários em “Em busca de novos rumos, por Othon Henry Leonardos e Suzi Huff Theodoro

  1. Belo artigo,, vou ajudar divulga-lo
    A luta pela conservação ambiental somente será exitosa se associada intimamente com a luta pela mudança dos paradigmas existenciais pregados e cultivados pela atual ordem econômica mundial.
    Parabéns Othon e Suzi..

  2. A excelência do artigo, do meu ponto de vista, está no fato de deixar claro o quanto é grave as condições em que se encontra o nosso planeta, e quanto é urgente que algo seja feito para reverter esse processo de destruição das condições de vida na Terra.
    Mas não há tempo para a realização do trabalho de formiguinha.
    O poder dominante não vai contribuir nem permitir;
    O predomínio das crenças religiosas também não vai permitir;
    Quanto à igreja católica e as demais igrejas, todas vivem do engodo, portanto, são todas avessas a qualquer transformação que desabone o capitalismo e conduza ao socialismo, pois sabem que, se o capitalismo sucumbir, elas sucumbirão junto.
    Sem socialismo não há salvação.
    Tudo está perdido. (Parabéns aos autores).

Comentários encerrados.

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