Encerrada a COP24, manga arregaçada e mão na massa, por André Ferretti e Juliana Baladelli Ribeiro

 

COP24

 

O Brasil tem ocupado um papel de protagonismo e liderança técnica e diplomática desde que as Conferências da ONU foram criadas na Rio-92. Essa visibilidade nos maiores fóruns globais sobre desenvolvimento e sustentabilidade se dá muito por sermos considerados a maior potência mundial em biodiversidade e água potável, donos da maior área de floresta tropical úmida, um dos maiores produtores de alimentos do planeta e proprietários do maior programa de biocombustível do mundo.

Temos muito a ganhar mantendo o Brasil nessa posição de destaque e consolidando nossa liderança em Meio Ambiente e Sustentabilidade. Entre nossos principais desafios está o fim do desmatamento, o que equivaleria a cerca de um bilhão de toneladas de carbono a menos na atmosfera anualmente. Uma missão que depende de esforços e trabalho compartilhado de atores públicos e privados.

O Brasil também pode se posicionar diante de outras nações como o maior produtor de alimentos sustentáveis do mundo. O caminho é implementar uma agropecuária de baixo carbono, que já conta com tecnologia disponível para agregar maior valor aos produtos brasileiros, área suficiente para duplicar a produção, política pública definida – como o Plano ABC – e programa de financiamento estabelecido – o Plano Safra, que disponibiliza R$ 200 bilhões por ano. Outro caminho é despontar como grande potência global em biocombustíveis e energias alternativas.

É necessário dar o primeiro passo nesse caminho o quanto antes. Na COP24, encerrada no último final de semana, na Polônia, aprendemos que quem quer faz. Ao falar sobre Adaptações Baseadas em Ecossistemas (AbE) – ou seja, uso de recursos naturais como parte da estratégia de adaptação aos impactos da mudança do clima –, países como Holanda, El Salvador e as ilhas africanas de Seicheles se destacaram.

Entre as novidades apresentadas por Seicheles está o Bluebond, iniciativa que angariou U$ 15 milhões do setor privado para investir em iniciativas de Blended Finance (ou financiamento misto, público e privado) voltadas para projetos de capacitação das comunidades litorâneas e empreendimentos locais, visando uma transição para a pesca sustentável e a proteção dos oceanos adaptação, desenvolvendo assim uma “economia azul”. Além disso, um novo mecanismo legislativo determina que, antes de investir em engenharia cinza – como são denominadas as ações de engenharia convencional –, deve-se buscar alternativas de AbE.

Na mesma linha, El Salvador provou que é dez vezes mais barato o custo da adaptação do que o da inação. O país criou indicadores de avaliação de sustentabilidade e colocou, assim como o Brasil, AbE em sua Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC), as metas voluntárias de cada país para o Acordo de Paris. Ao cumprir as metas, serão restauradas 50% das áreas naturais do país, provando que é possível reverter situações de risco usando a natureza como parte da solução.

A Holanda, país conhecido pelos diques e estruturas de contenção de enchentes, também está investindo em Soluções Baseadas na Natureza para aumentar a resiliência territorial aos impactos da mudança do clima. A implantação de parques nas margens de rios em áreas urbanas permite o contato das pessoas com a natureza, resguarda a infraestrutura de possíveis danos e serve de habitat para a biodiversidade.

Esses são apenas alguns exemplos que foram apresentados na última COP do Clima e que mostram o quão viáveis são as ações para frear o aquecimento global e lutar contra as mudanças climáticas. Ao analisar todas as metas dos países para o Acordo de Paris, verifica-se que 66% delas trazem algum tipo de iniciativa de adaptação baseada em ecossistemas, indicando que esse é um caminho possível para diversos tipos de ecossistemas em todo o mundo.

No entanto, ao final da COP24, muitas expectativas não foram superadas. As regras para adoção de mecanismos de mercado de carbono, por exemplo, não tiveram consenso entre os países envolvidos na discussão. Assim como outros que serão discutido no Chile, país sede da próxima Conferência, no ano que vem. Cabe ao Brasil e a nós brasileiros decidirmos se também queremos ser exemplo para as demais nações. Diante de uma resposta positiva, basta arregaçarmos as mangas e colocar as mãos na massa.

* André Ferretti é gerente de Economia da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário, coordenador geral do Observatório do Clima e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza.

* Juliana Baladelli Ribeiro é bióloga e analista de Soluções Baseadas na Natureza da Fundação Grupo Boticário.

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 27/12/2018

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