‘Expertise’ e governança ambiental, Parte 3/6, artigo de Roberto Naime

 

artigo

 

Governança Ambiental

[EcoDebate] LÉTORNEAU (2014) manifesta que a inteligibilidade dos discursos especializados e de seus saberes e métodos é limitada para terceiros, pois o pleno sentido do discurso qualificado do especialista somente é acessível dentro de um círculo fechado, mesmo quando seus resultados pretendam-se comunicáveis a ponto de permitir informar as decisões.

Terminologias especializadas são exigidas por todas as “expertise”, elas são em alguma medida “caixas pretas” cujo mecanismo é desconhecido pelos não iniciados. Especializações se fazem necessárias com o aumento da complexidade social, mas não devem ser empregadas em mistificações e diversionismos.

Há uma dificuldade de acessibilidade que corresponde a um relativo fechamento do discurso, que conserva uma boa dose de heterogeneidade para os não “experts”. Existe pouca acessibilidade dos discursos especializados quando se está no meio de uma conversa de uma confraria ou irmandade da qual não se compartilha o “expertise”.

Uma das questões que se colocam na tradução do saber especializado para a pessoa leiga é a de saber até que ponto o “expert” pode pressupor um saber comum a propósito do domínio da “expertise” entre os usuários.

Médicos, advogados e engenheiros criam expectativas generalizadas a seu respeito. O especialista supõe certos conhecimentos e certas ignorâncias em seus destinatários, e compreende de forma deficiente a natureza da competência, ou do conjunto de competências. Essas avaliações podem ser fontes de atritos ou manipulações.

LÉTORNEAU (2014) observa que os diversos domínios de objetos empíricos são estudados, decodificados e interpretados em termos específicos, mas sem as linguagens especializadas, que são muito desenvolvidas e têm necessidade de alto nível de precisão e de formalismo e permitem explicar o conhecimento.

O processo não é orientado nem linear, não mais que a melhoria dos conhecimentos é necessária, mas ocorre que estas observações não esgotam, no assunto do conhecimento, que está constantemente em construção.

Quanto mais a ciência se torna abstrata e quanto mais a “expertise” se refere a elementos que não são mais visíveis e diretamente perceptíveis, tanto mais somos dependentes delas para conhecer e operar sobre a matéria.

O fato de que os “experts” têm discursos especializados pode torná-los insensíveis a muitas outras dimensões das situações, aquelas que não são cobertas por sua “expertise”.

LÉTORNEAU (2014) assevera que ampliando as considerações sobre certas dimensões dos problemas, a “expertise” oculta outras. O que se ganha em extensão é perdido em compreensão, esse risco é possível e muito empregado.

Como a acessibilidade aos discursos especializados é difícil, isso faz com que o controle da validade e da justeza assim como da exatidão do discurso especializado por terceiros e não “experts” seja difícil, o que representa uma importante questão.

O recurso a especialistas para avaliar a “expertise” dos outros é bastante comum e representa custos suplementares para os não especialistas. Essa dificuldade de controle é uma proteção para o especialista e seu discurso e sua diferença o valida e o torna socialmente necessário.

Frequentemente se gera hermetismo, manipulação e desqualificação do discurso e do conhecimento leigo. Não se pode, contudo, evitar o fato de que certas sutilezas podem ser perdidas no caminho.

A tradutibilidade das linguagens especializadas tem outros limites, mais sociais e políticos. A “expertise” seria tão difundida que não seria mais necessária ou útil. Fato que pode não ocorrer, pois as “expertises” estão também em desenvolvimento contínuo, pelo menos elas dão a aparência disso pela renovação de seus métodos, jargão e instrumentos.

Os problemas da acessibilidade das “expertises” são evidentes diante de tudo o que é similar a uma linguagem matematizada ou expressa em termos técnicos, que bem poucas pessoas dominam.

Certas “expertises” são menos fáceis do que outras. Encontra-se esse tipo de problema quando se utilizam palavras usuais e difundidas, como a palavra “governança” ou “comunicação”.

No entanto, usos aparentemente inocentes de certas palavras escondem sentidos técnicos que estão ligados a comunidades de “experts”, que as entendem em sentidos muito diferentes.

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

 

Nota da redação: Sugerimos que leia, também, a parte anterior desta série de artigos:

‘Expertise’ e governança ambiental, Parte 1/6

‘Expertise’ e governança ambiental, Parte 2/6

 

Referências:

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in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 06/11/2018

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2 comentários em “‘Expertise’ e governança ambiental, Parte 3/6, artigo de Roberto Naime

  1. Minha regra básica é pedir a uma pessoa que não seja da área para ler o documento, e perguntar se ela entendeu, e O QUÊ ela entendeu. Torna necessário pedir a pessoas diferentes para não viciar o sistema, mas funciona. E fotos e gráficos. Imagens normalmente transmitem o que está se dizendo melhor que palavras.

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