Caatinga: beleza e diversidade reveladas, artigo de Ana Cecília da Cruz Silva

Caatinga: beleza e diversidade reveladas

Ana Cecília da Cruz Silva
Biológa e mestre em Ecologia e Conservação pela Universidade Federal de Sergipe
Professora de Ciências e Biologia do Colégio Estadual Armindo Guaraná em Sergipe

Resumo
A Caatinga tem sido descrita nos livros como um bioma com poucas espécies e de moderado valor biológico. Porém, estudos recentes mostram que existe uma impressionante quantidade de espécies da flora e da fauna, adaptadas as condições adversas do clima, inclusive com espécies que vivem apenas nesta região e que devem ser consideradas como um patrimônio biológico de valor inestimável.

Solos rachados e pedregosos, árvores poucas, pequenas, sem folhas e com galhos secos e retorcidos, mandacarus e palmas na paisagem sob o sol de rachar. Esse é o falso retrato que muitos têm da Caatinga. Uma imagem obtida da antiga crença, não mais aceita pelos estudiosos nesse assunto, que esse bioma é o resultado da degradação de outras formações vegetais, como a Mata Atlântica ou a Floresta Amazônica, e que apresenta uma vegetação homogênea, com poucas espécies. Apesar de estar muito alterada, estudos indicam que a Caatinga (figura 1) possui uma grande riqueza de espécies, inclusive sendo muitas endêmicas, ou seja, com plantas ou animais que ocorrem naturalmente somente nessa região. Além disso, ainda guarda remanescentes vegetacionais relativamente conservados e foi considerada um bioma extremamente frágil.

Caatinga no MONA Grota do Angico, em Sergipe

Caatinga significa na língua indígena mata (caa) clara (tinga). Abrange uma área de 844.453 Km2, está presente nos oito estados do Nordeste e no norte de Minas Gerais e é considerado o único bioma exclusivamente brasileiro. Não apresenta uma vegetação uniforme, uma vez que em algumas regiões se assemelha à florestas, com muitas árvores próximas, altas e com maior diâmetro, já em outras, as árvores são muito esparsas e mais baixas, caracterizadas como caatinga arbustiva. Na verdade, é uma região fitogeográfica diversificada, em paisagens e tipos vegetacionais, ocasionada pelas variações do clima, da geomorfologia e topográfica, o que acaba influenciando a riqueza, a diversidade e a distribuição de suas espécies. A variação na altura e na densidade do estrato arbóreo dessa comunidade está relacionada principalmente com a precipitação e em menor proporção com as características químicas e físicas do solo.

A região do semiárido que abrange esse bioma possui temperaturas elevadas, com baixa umidade relativa do ar e com precipitações em torno de 250-800 mm por ano. Nos seus três ou quatro meses de inverno acontece o período chuvoso (figura 2A), o qual ocorre de maneira bastante irregular. Já na estação da seca (figura 2B), a Caatinga fica “dormindo” por sete a nove meses. Os rios, em geral, secam, a não ser o Rio São Francisco, que é perene, com água sempre fluindo em seu leito. Contudo, logo que as primeiras chuvas caem firmes, tudo revive rapidamente. A vegetação torna-se verde, surgem belas e perfumadas flores e os rios e riachos passam a correr.

Caatinga no período chuvoso (A) e seco (B).

Figura 2. Caatinga no período chuvoso (A) e seco (B).

Devido à falta de água na maior parte do ano, as plantas da Caatinga possuem várias adaptações. A principal se deve essencialmente a perda das folhas, que permite às plantas economizar água durante a estação seca. Do mesmo modo, o murchamento de suas folhas durante as horas mais quentes do dia é um mecanismo que algumas espécies dispõem para reduzir a transpiração. Outras modificações são, em geral, cascas grossas, folhas pequenas, que no caso das cactáceas, transformam-se em espinhos, e acúmulo de água e substâncias nutritivas nas raízes, como no umbuzeiro (Spondias tuberosa), na mandioca-brava (Manihot glaziovii) e na embira (Pseudobombax marginatum), e também no caule, a exemplo da barriguda (Ceiba glaziovii), ou até nas partes verdes, como em todas as cactáceas.

O mais impressionante é que, lutando contra as condições impróprias de sobrevivência no período seco, algumas plantas permanecem com as folhas, como o juazeiro (Ziziphus joazeiro), o pau-ferro (Libidibia ferrea) e feijão-bravo (Cynophalla flexuosa). Além do mais, sempre há alguma árvore ou arbusto em floração ou frutificação durante todo o ano, os quais garantem recursos para fauna local.

Dentre as espécies vegetais da Caatinga (figura 3), destacam-se as cactáceas e as bromélias. Os cactos revelam-se na paisagem pela sua predominância, pelas formas curiosas, muitas vezes de aspecto majestoso, e por estarem comumente associados à imagem que se faz desse bioma. São famosas três espécies: o xique-xique (Pilosocereus gounellei), emaranhado que se ramifica perto do chão; o facheiro (Pilosocereus pachycladus), alto, com seus ramos apontando para o céu; e o notório mandacaru (Cereus jamacaru), ereto e com menos espinhos. Há ainda os de menores tamanhos, como o quipá (Tacinga palmadora), no formato de palma, e a coroa-de-frade (Melocactus sp.), semelhante a uma bola cheia de espinhos. Das bromélias, a macambira é a espécie mais difundida, com as variações macambira-de-preá (Bromelia laciniosa) e macambira-de-flecha (Encholirium spectabile), mas existem certos locais em que o caroá (Neoglaziovia variegata) é mais numeroso, sendo muito importante economicamente pela utilidade de suas fibras.

Já com relação às árvores, as espécies mais frequentes na maioria dos trabalhos de levantamento florístico realizados em áreas de Caatinga, são a catingueira (Poincianella pyramidalis), a imburana-de-cambão (Commiphora leptophloeos), o pereiro (Aspidosperma pyrifolium), a pata-de-vaca (Bauhinia cheilantha), o pinhão-bravo (Jatropha mollissima), o angico-de-caroço (Anadenanthera colubrina), o bom-nome (Maytenus rigida), o umbuzeiro (Spondias tuberosa) e o juazeiro (Ziziphus joazeiro). Também são comuns a braúna (Schinopsis brasiliensis) e aroeira (Myracrodruon urundeuva), que estão ameaçadas de extinção. Dos arbustos destacam-se as diferentes espécies de velame e marmeleiro (Croton sp.), o pinhão (Jatropha sp.), ou ainda o cansanção e a faveleira (Cnidosculus sp.), com suas folhas e frutos cobertos de espinhos urticantes.

Já a flora herbácea da Caatinga surge esplendida no curto período chuvoso, formando um tapete de diferentes cores e formas, como as malvas (Sida sp. e Piriqueta sp.), jitiranas (Ipomoea sp.) e o feijão-de-gado (Centrosema sp.). Com o aumento na intensidade das chuvas, algumas delas atingem até um metro de altura e se ramificam de tal modo que torna a vegetação fechada e de difícil acesso. Apesar da riqueza e importância das ervas nos processos ecológicos, têm sido pouca estudadas. Lembrando que as plantas nativas da Caatinga oferecem muitos produtos para uso humano, como frutos comestíveis, mel de abelha, forragem, madeira, algumas partes são medicinais, dentre outros.

Figura 3. Plantas da Caatinga. (A) Xique-xique com fruto comestível; (B) A perfumada flor do mandacaru; (C) Moita de macambira-de-preá; (D) A famosa catingueira; (E) o juazeiro, árvore que permanece com folhas mesmo no período seco; (F) a vistosa herbácea.

Figura 3. Plantas da Caatinga. (A) Xique-xique com fruto comestível; (B) A perfumada flor do mandacaru; (C) Moita de macambira-de-preá; (D) A famosa catingueira; (E) o juazeiro, árvore que permanece com folhas mesmo no período seco; (F) a vistosa herbácea.

As particularidades da Caatinga resultaram em uma fauna diversificada (figura 4), formada por mais de 800 espécies animais. Os anfíbios, como o sapo cururu (Rhinella jimi), a perereca verde (Phyllomedusa nordestina) e as rãs (Leptodactylus sp.), também chamadas de caçote, além das cobras-cegas e salamandras, vivem ambientes úmidos e possuem adaptações na morfologia e na fisiologia do organismo que lhes possibilitam sobreviver vários meses sem água. Algumas das estratégias desses animais são: escavar e enterrar-se nos solos e só sair após as primeiras chuvas, procurar abrigo em bromélias e reprodução rápida, logo após o período chuvoso. Os répteis, grupo que englobam as cobras, lagartos, cágados e jacarés, possuem uma fisiologia e a reprodução mais independente da água. Alguns desses animais, muito conhecidos, são a iguana (Iguana iguana), o camaleão (Chamaeleo chamaeleon), o teiú (Tupinambis merianae), os calangos (Propidurus sp.), o jabuti-piranga (Chelonoidis carbonaria), a jararaca (Bothrops erythromelas), a jiboia (Boa constrictor) e a cobra-verde (Philodryas sp.).

As aves representam o grupo animal com maior número de espécies registradas. Muitas delas constroem o ninho após a época chuvosa, quando os frutos, as sementes e os insetos estão mais disponíveis no ambiente. Algumas aves muito difundidas entre a comunidade nordestina são o cancão (Cyanocorax chrysops), que vive em bandos, chorozinho-de-papo-preto (Herpsilochmus pectoralis), asa-branca (Patagioemas picazuro), o bacurauzinho-da-caatinga (Caprimulgus hirudinaceus) e beija-flor-verde-branco (Amazilia vesicolor). Infelizmente, cerca de 13 espécies estão ameaçadas de extinção, como a arara-azul-de-lear (Anodorhynchus lear) e ararinha-azul (Cyanopsitta spixii), uma das aves mais raras do mundo.

Entre os mamíferos típicos estão a cutia (Dasyprocta aguti), o gato-do-mato (Leopardus tigrinus), mocó (Keredon rupestris), preá (Cavia aperea), gato-maracajá (Leopardus wiedii) e veado-catingueiro (Mazama gouazoupira), além do tatu-bola (Tolypeutes tricinctus) e do guigó-da-caatinga ou sauá (Callicebus barbarabrownae), que estão ameaçados de extinção.

No que diz respeito aos peixes doce que ocorrem nesse bioma, apesar do pouco conhecimento destaca-se o integrante ciclo de vida especializado dos peixes rivulídeos, os quais depositam ovos resistentes nas lagoas durante a estação seca e eclodem apenas no período chuvoso.

Os invertebrados, como as abelhas, formigas e besouros, compõem um dos maiores grupos e ainda é pouco conhecido. Eles são a base da cadeia alimentar, polinizam as plantas e são fundamentais para a manutenção dos processos ecológicos desse bioma.

Figura 4. Alguns animais típicos da Caatinga, como as rãs (A), bacurauzinho-da-caatinga (B) e o camaleão (C).

Figura 4. Alguns animais típicos da Caatinga, como as rãs (A), bacurauzinho-da-caatinga (B) e o camaleão (C).

Atualmente são conhecidas 923 espécies de plantas, 153 de mamíferos, 510 de aves, 167 anfíbios e répteis e 240 de peixes. Esses números certamente são maiores, devido a Caatinga ser um dos biomas menos estudados e por possuir sua diversidade biológica subestimada, já que 41% da sua área não foi amostrada e 80% está subamostrada. A situação torna-se mais preocupante devido ao baixo conhecimento sobre qual é o real número e quais são as espécies que estão ameaçadas de extinção nesse bioma, já que as listas de flora e fauna ameaçadas de extinção estão desatualizadas e limitadas.

Em face de significativa parte não ter sido ainda amostrada, precisamos de inventários multidisciplinares, de modo a amostrar a real diversidade biológica nesse bioma. Também devem ser tomadas providências urgentes no combate ao desmatamento e queimadas e na diminução do ritmo de substituição de espécies vegetais nativas por pastagens, práticas que ainda acontecem.

Assim, percebe-se que há muito a ser feito para resguardar essa extraordinária biodiversidade. O primeiro passo é conhecer a nossa Caatinga.

“Campo branco minhas penas que pena secou

Todo o bem qui nóis tinha era a chuva era o amor

Num tem nada não nóis dois vai penano assim

Campo lindo ai qui tempo ruim

Tu sem chuva e a tristeza em mim…”

(Primeira estrofe de Campo Branco, música de Elomar Figueira Melo (www.elomar.com.br). Campo branco ou mata clara, como os índios chamavam esse bioma, pela sua coloração cinza, na época da estiagem).

Sugestões de leitura

LEAL, I. R.; TABARELLI, M. & SILVA, J. M. C. (Org.). Ecologia e conservação da Caatinga. Recife: Editora da UFPE, 2003. 804 p.

MAIA, G. N. Caatinga: árvores e arbustos e suas utilidades. 1ª. ed. São Paulo: D&Z, 2004. 413 p.

SILVA, A. C. C.; PRATA, A. P. N. & MELLO, A. A. Guia de campo: flores e frutos da Caatinga no Monumento Natural Grota do Angico. Perse: Aracaju, 2014. 170 p.

SILVA, J. M. C.; TABARELLI, M.; FONSECA, M. T. & LINS, L. V. (Orgs.). Biodiversidade da Caatinga: áreas e ações prioritárias para a conservação. Brasília: Ministério do Meio Ambiente, Universidade Federal de Pernambuco, 2003. 382 p.

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 31/10/2018

Caatinga: beleza e diversidade reveladas, artigo de Ana Cecília da Cruz Silva, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 31/10/2018, https://www.ecodebate.com.br/2018/10/31/caatinga-beleza-e-diversidade-reveladas-artigo-de-ana-cecilia-da-cruz-silva/.

 

[CC BY-NC-SA 3.0][ O conteúdo da EcoDebate pode ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, à EcoDebate e, se for o caso, à fonte primária da informação ]

Inclusão na lista de distribuição do Boletim Diário da revista eletrônica EcoDebate, ISSN 2446-9394,

Caso queira ser incluído(a) na lista de distribuição de nosso boletim diário, basta enviar um email para newsletter_ecodebate+subscribe@googlegroups.com . O seu e-mail será incluído e você receberá uma mensagem solicitando que confirme a inscrição.

O EcoDebate não pratica SPAM e a exigência de confirmação do e-mail de origem visa evitar que seu e-mail seja incluído indevidamente por terceiros.

Remoção da lista de distribuição do Boletim Diário da revista eletrônica EcoDebate

Para cancelar a sua inscrição neste grupo, envie um e-mail para newsletter_ecodebate+unsubscribe@googlegroups.com ou ecodebate@ecodebate.com.br. O seu e-mail será removido e você receberá uma mensagem confirmando a remoção. Observe que a remoção é automática mas não é instantânea.

Um comentário em “Caatinga: beleza e diversidade reveladas, artigo de Ana Cecília da Cruz Silva

Comentários encerrados.

Top