Perda de biodiversidade e funcionalidades dos ecossistemas, Parte 3/3 (Final), artigo de Roberto Naime

 

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Perda de biodiversidade e funcionalidades dos ecossistemas, Parte 3/3 (Final), artigo de Roberto Naime

[EcoDebate] Micael Jonsson, do Department of Ecology and Environmental Science, da Umea University, da Suécia, conclui a base da pertinente reflexão sobre as funcionalidades ecossistêmicas apresentada e comentada, que se finaliza.

Explorar os mecanismos por trás dos efeitos da perda de biodiversidade é fundamentalmente importante se houver objetivo de compreender as consequências da rápida perda de biodiversidade atual.

A complementaridade de nicho é frequentemente utilizada como a explicação mais provável para os efeitos de biodiversidade modificada, principalmente se tanto a “diferenciação de nicho” como a “facilitação” estiverem incluídas na definição (LOREAU e HECTOR, 2001).

As características de uma espécie determinam como, quando e onde ela utiliza os recursos ou “o nicho”. Embora todos os indivíduos de uma mesma espécie compartilhem essas características, eles geralmente se diferenciam entre espécies.

Portanto, a diferenciação de nicho permite que as espécies coexistam, evitem uma forte concorrência e desempenhem um processo com eficiência (VOLTERRA, 1926, LOTKA, 1932 ou JONSSON e MALMQVIST, 2003a).

A perda de espécies pode reduzir o número de nichos utilizados, aumentar a concorrência e baixar a velocidade do processo, afetando negativamente o funcionamento do ecossistema. As interações positivas entre espécies, como a facilitação são potencialmente muito importantes no funcionamento do ecossistema.

Embora vários estudos tenham comprovado a facilitação entre alguns pares de espécies (SOLUK e COLLINS, 1988, KOTLER et al., 1992, SOLUK, 1993, SOLUK e RICHARDSON, 1997, CARDINALE et al. 2002 e JONSSON e MALMQVIST, 2003a), não se sabe bem até que ponto tais interações são comuns ou importantes nos ecossistemas naturais.

Contudo, tanto a diferenciação de nicho como a facilitação provavelmente são importantes para manter a velocidade do processo e o funcionamento do ecossistema. Assim, no caso de perda de espécie, o funcionamento do ecossistema poderia ser afetado negativamente seja pelo aumento da competição, pela lacuna de nicho ou pela perda de interações facilitadoras.

Para testar realmente os efeitos da biodiversidade, um estudo deve utilizar espécies escolhidas aleatoriamente em um amplo grupo de espécies. A maioria dos estudos, contudo, utilizou determinadas espécies, ou composições de espécies aleatórias, colhidas em grupos menores e, portanto, não conseguiu tirar conclusões sobre os efeitos da biodiversidade propriamente dita.

Em vez disso, os resultados podem ser relevantes somente para as espécies utilizadas no estudo. Embora possa ser interessante investigar se existe algum efeito geral da perda de biodiversidade no funcionamento do ecossistema utilizando-se espécies escolhidas aleatoriamente, a extinção de espécies muitas vezes segue padrões previsíveis, dependendo da espécie do sistema e do tipo de perturbação.

Portanto, a melhor maneira de estudar os efeitos da perda de biodiversidade seria sujeitar uma comunidade natural a uma perturbação (PETCHEY et al., 1999), ou utilizar uma ordem de extinção previsível (JONSSON et al., 2002).

Isto limita a aplicabilidade geral dos resultados, e ao mesmo tempo fornece resultados mais realistas e um conhecimento específico dos efeitos da perda de espécies no sistema estudado.

É preciso que a civilização tenha outra abordagem deste cenário. Esta mudança deve começar logo, juntando lutas singulares, os esforços diários, os processos de auto-organização e as reformas para retardar a crise, com uma visão centrada numa mudança de civilização e uma nova sociedade em harmonia com a natureza.

Não é preciso esperar catástrofe ecológica ou hecatombe civilizatória para determinar nova autopoiese sistêmica.

A persistência dos efeitos da biodiversidade observados em experiências controladas e de curta duração foi questionada (SYMSTAD et al., 2003).

A maioria dos estudos foi realizada durante períodos relativamente curtos de tempo, e não se sabe ao certo se os efeitos são transitórios ou persistentes e se são relevantes quanto aos efeitos sobre a biodiversidade nos sistemas naturais. Mas é impossível reproduzir tempo geológico tanto para biodiversidade quanto para transgenia.

Entretanto, constatou-se num longo estudo de pastagens que o efeito inicial da biodiversidade persistiu ao longo do tempo, embora os mecanismos subjacentes tenham mudado (TILMAN et al., 2001).

Até hoje, os estudos têm demonstrado que a biodiversidade é importante para a velocidade dos processos do ecossistema e para o funcionamento do ecossistema.

Além do mais, foram encontradas evidências de mecanismos por trás dos efeitos da biodiversidade. Assim, o desafio para os estudos no futuro será expandir em espaço, tempo e complexidade, de forma que os resultados obtidos sejam mais relevantes para os sistemas naturais.

A pergunta se e como a biodiversidade é importante para o funcionamento dos ecossistemas é uma das questões mais importantes. Uma vez que a atual perda de biodiversidade ameaça seriamente os serviços que um bom funcionamento dos ecossistemas presta à humanidade (LUCK et al., 2003), preservar a biodiversidade também pode ajudar a preservar a humanidade.

Não se pode reduzir as persistentes crises hídricas do sudeste brasileiro a mero problema de tubulações ou barragens. E nem de gestão ou consciência, embora estes sejam procedimentos fundamentais. É uma crise civilizatória.

* Nota da redação: Leia, também, as partes anteriores desta série de artigos:

Perda de biodiversidade e funcionalidades dos ecossistemas, Parte 1/3

Perda de biodiversidade e funcionalidades dos ecossistemas, Parte 2/3

Referências:

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JONSSON M 2011 Perda de Biodiversidade e Funcionamento dos Ecossistemas. ECOLOGIA.INFO 30.

http://www.ecologia.info/biodiversidade.htm

 

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 25/01/2018

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