Percepção ambiental da agroecologia, artigo de Roberto Naime

 

artigo

 

[EcoDebate] SCHMITT et al (2013) avaliam a percepção de consumidores, produtores e dirigentes pertencentes às cooperativas de agricultura familiar de cinco municípios da microrregião de Santa Rosa/RS. O instrumento de pesquisa utilizado foi a entrevista, onde houve preocupação em determinar o tempo percebido como necessário para a depuração do solo e suas percepções sobre o uso de metodologia agroecológica ou convencional.

Os dados obtidos revelaram que, metade dos entrevistados, julgaram necessário no mínimo cinco anos para depuração do solo. O desequilíbrio ambiental e os danos causados à saúde humana que são associados ao uso de agroquímicos, fez com que a percepção dos atores sociais evidenciasse a relevância das relações entre o meio antrópico e o meio ambiente, para a conservação da biodiversidade.

A agricultura familiar tem por base a produção de gêneros alimentícios de primeira necessidade, cultivados por membros da própria família e comercializados para o sustento (MARAFON, 2006). Esta modalidade de produção é caracterizada por apresentar estabelecimentos relativamente pequenos ou médios, com gestão e trabalho muito ligados.

SCHMITT et al (2013) assevera que visando produzir gêneros alimentícios com maior margem de segurança alimentar, surge a necessidade de cultivos menos agressivos ao ambiente. Desta forma algumas propriedades rurais iniciam processo de conversão da agricultura convencional para a agroecológica.

De acordo com a instrução normativa nº 64/2008 do Ministério da Agricultura, para o período de conversão, é necessário um plano de manejo orgânico específico, contemplando os regulamentos técnicos e todos os aspectos relevantes do processo de produção. Este sistema de produção tem por filosofia a preservação do meio ambiente, consistindo em um modelo de agricultura que resulta na chamada “produção limpa”, de características ecológicas, “alternativas” aos produtos da “Revolução Verde” (NETO, 2006).

A percepção ambiental tem se destacado como fenômeno que associa a psicologia com a sociologia e a ecologia, auxiliando na compreensão das expectativas, satisfações e insatisfações da população no tocante ao meio ambiente e aos ecossistemas, relacionados à qualidade de vida e bem-estar social (OKAMOTO, 1996).

Neste sentido, o objetivo do presente estudo foi avaliar a percepção ambiental de consumidores, produtores e dirigentes pertencentes às cooperativas de agricultura familiar da microrregião de Santa Rosa/RS, relacionado ao processo de conversão do sistema convencional de produção para o agroecológico.

No entendimento dos sujeitos pesquisados o sistema convencional foi definido como sendo de produção com uso de agrotóxicos ou de qualquer outro produto químico, plantio com sementes geneticamente modificadas, produção mecanizada, cultivo de produtos contaminados, sistema de cultivos que geram poluição ambiental e malefícios a saúde humana e produção que visa somente fins econômicos em escala.

Há relatos que este sistema gera maior praticidade, facilidade, agilidade e rentabilidade, tendo a venda garantida por se tratar de cultura adaptada aos modelos tecnológicos oferecidos pelo mercado. A maioria dos atores do cenário investigado conceberam o sistema agroecológico, como sendo a prática agrícola sem uso de qualquer produto químico ou agrotóxicos. Que respeita e preserva o meio ambiente, e promove a cultura viável em pequenas propriedades de caráter familiar e sem uso de sementes geneticamente modificadas.

Segundo CAMPANHOLA e VALARINI (2001), a agroecologia enfoca as relações ecológicas existentes no campo cujo objetivo é entender a forma, a dinâmica e as funcionalidades das relações, considerando a interação com o homem, cujas ações estão pautadas na sua cultura, hábitos e tradições. Para os entrevistados a cultura agroecológica gera produtos de melhor qualidade, mais saudáveis e de fácil comercialização, por serem produtos de alta segurança alimentar, conforme SCHMITT et al (2013).

Utilizar a prática orgânica ou agroecológica está associado com a consciência ecológica, a qual garante sustentabilidade e manutenção das propriedades produtivas por longo prazo, em sistemas harmônicos e equilibrados, e com a preservação dos saberes populares, concebendo alimentos como fonte de vida.

SCHMITT et al (2013) questionam sobre o intervalo de tempo julgado necessário para ocorrer a depuração do solo após a última aplicação de agrotóxico, para iniciar a modalidade de produção agroecológica.

Os dados demonstram não haver diferença estatisticamente significativa entre as opiniões expressas pelos grupos de atores sociais estudados. Na concepção dos investigados são necessários 5 anos ou mais para que ocorra a depuração do solo. Muitos entrevistados estão conscientes e afirmam que, dependendo do defensivo químico aplicado, o período para a depuração do solo poderá ser superior a 10-20 anos.

Segundo a Instrução Normativa 64/08, o período de conversão será variável de acordo com o tipo de exploração e a utilização anterior da unidade de produção, considerando a situação ecológica e social. Alguns deles estão convictos que é incipiente apenas a conversão do sistema de produção agrícola, sendo necessária a aplicação de maiores critérios com relação ao uso do ambiente. A manifestação de um dos atores pesquisados é sintomática. Declara que “é preciso iniciar proibindo a fabricação dos venenos”

O uso indiscriminado de agrotóxicos pode gerar efeitos nocivos à saúde e ao ambiente, seja através da contaminação das comunidades de seres vivos que o compõem, ou de sua acumulação nos segmentos bióticos e abióticos dos ecossistemas (PERES e MOREIRA, 2007), conforme mencionado e citado por SCHMITT et al (2013) “o veneno acaba com tudo, destrói em geral. As próprias árvores estão morrendo”.

O produtor rural tem a liberdade de decidir sobre a quantidade de agrotóxico a ser aplicada em sua lavoura, ao avaliar a relação entre o custo e o beneficio, entretanto esta relação poderá desprezar os efeitos que estes causam à saúde humana e aos ecossistemas, não contabilizando assim, o real impacto associado ao uso destes agentes, uma vez que desconsidera a natureza do produto e a forma de aplicação, burlando muitas vezes a legislação (SOARES e PORTO, 2007).

Os protagonistas investigados revelam ter conhecimento sobre os riscos do uso de agroquímicos e agrotóxicos em geral, estando os mesmos conscientes sobre a importância do sistema de produção agroecológica. As investigações revelam a existência de inúmeras dificuldades enfrentadas para abraçar a modalidade agroecológica, principalmente relacionada à escassez de mão de obra, segundo SCHMITT et al (2013)

A real demonstração da necessidade de mudanças de hábitos e atitudes não é evidente para todo o universo investigado. Contudo um número expressivo aderiu ao processo de conversão da modalidade convencional para agroecológica ou orgânica. Esta ação é descrita como medida necessária a ser incorporada para prevenção e defesa da dinâmica dos ecossistemas. Mas principalmente remete a uma reflexão que precisa ser isenta, sobre o tipo de mundo que se deseja ajudar a construir e legar para as gerações futuras.

Referências:

CAMPANHOLA, C.; VALARINI, P. J. A agricultura orgânica e seu potencial para o pequeno agricultor. Cadernos de Ciência e Tecnologia, Brasília, v. 18, nº 03, p. 69-101, Set-Dez. 2001.

INSTRUÇÃO NORMATIVA Nº 64/2008- Diário Oficial da União nº 247. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Diário Oficial da União de 19/12/2008, sec. 1, p. 21.

MARAFON, G. J. Agricultura Familiar, pluriatividade e turismo rural: reflexões a partir do território fluminense. Revista de Geografia Agrária, Uberlândia, v.1, n.1, p.17-60, fev. 2006.

MORAES, R; GALIAZZI, M. C. Análise Textual Discursiva. Ijuí: UNIJUÌ, 2011, 2 ed. 224p.

NETO, C.C.; COUTINHO, J. Agroecologia Orgânica e soberania (e Segurança) Alimentar. Resumo do I CBA. Revista Brasileira de Agroecologia, v.1, n 1, p. 911-914, nov. 2006.

OKAMOTO, J. Percepção Ambiental e Comportamento. São Paulo: Plêiade, 1996. 200p. PERES, F; MOREIRA, J. C. Saúde e ambiente em sua relação com o consumo de agrotóxicos em um polo agrícola do Estado do Rio de Janeiro, Brasil. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, 23, p. 612-621, jan. 2007.

SOARES, W. L; PORTO, M. F. Atividade agrícola e externalidade ambiental: uma análise a partir do uso de agrotóxicos no cerrado brasileiro. Revista Ciências e Saúde Coletiva . v.12, n.1 , p. 131-143, Jan-mar. 2007

SCHMITT, Lezita Zalamena; BORGES, Ana Cláudia Piovezan; GONÇALVES, Itamar Luís e VALDUGA, Alice Teresa Percepção ambiental com relação ao processo de conversão do sistema convencional de produção de alimentos para o agroecológico. Resumos do VIII Congresso Brasileiro de Agroecologia – Porto Alegre/RS – 25 a 28/11/2013. Cadernos de Agroecologia – ISSN 2236-7934 – Vol 8, No. 2, Nov 2013

 

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

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in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 30/11/2017

Percepção ambiental da agroecologia, artigo de Roberto Naime, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 30/11/2017, https://www.ecodebate.com.br/2017/11/30/percepcao-ambiental-da-agroecologia-artigo-de-roberto-naime/.

 

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2 comentários em “Percepção ambiental da agroecologia, artigo de Roberto Naime

  1. Aos interessados pelo tema “percepção ambiental e social de produtores rurais” sugerimos acessar www,nepas.com.br (grupo sem fins lucrativos) e conhecer pesquisa realizada com produtores rurais no Estado do Espírito Santo.
    Roosevelt
    Núcleo de Estudos em Percepção Ambiental e Social / NEPAS
    roosevelt@ebrnet.com.br

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