Hermenêuticas do meio ambiente, Parte 2/3, artigo de Roberto Naime

 

artigo

 

[EcoDebate] A sociedade se desenvolveu a custa da natureza, retirando seus recursos e em seu lugar construindo a civilização humana. Entende-se aqui, como tudo que há no planeta como pertencente ao ser humano, sendo, portanto, o meio ambiente nosso lar, onde se pode usufruir. Mas os novos conceitos de sustentabilidade determinam preocupação com o futuro e as próximas gerações.

Com esta forma de concepção presente fortemente na sociedade até o século passado, o ser humano consumia os recursos naturais e provocava sérios desequilíbrios ambientais. São inúmeros os contrastes e desequilíbrios na população humana, onde para cada novo evento tido como avanço, melhoria ou desenvolvimento, cria-se uma nova situação paradoxal (CÓRDULA, 2010 e LOVELOCK, 2006).

Este é o perfil do meio ambiente humano, com a sociedade sustentáculo de um modo de vida, premiado pela ciência e tecnologia para aumentar nossa qualidade de vida.

O meio ambiente ecológico é considerada a integração harmoniosa dos organismos com o ambiente no qual estão inseridos, mantendo relações de dependência intrínseca, com necessidades de matéria e energia, que passam de um ser vivo para outro através do que é chamado de cadeia alimentar. Nesse contexto, têm-se os principais conceitos como nicho, hábitat, ecossistema e cadeia alimentar para explicar o frágil equilíbrio que se mantém na natureza (ODUM, 1988).

Na realidade a base do ambiente natural é o próprio ecossistema.

Ecossistema é um sistema ecológico natural constituído por seres vivos (componente biótico) em interação com o ambiente (componente abiótico), onde existe claramente um fluxo de energia que conduz a uma estrutura trófica, uma diversidade biológica e uma ciclagem de matéria, com uma interdependência entre os seus componentes (GRISI, 2001, p. 105).

Como vemos, não há uma ligação harmoniosa entre o Ambiente Humano e o Natural, ainda. A natureza está perdendo espaço e sendo constantemente agredido. Para termos o Ambiente Total, teríamos que passar a interagir de modo responsável, fazendo parte da totalidade que impera em nossa mãe Terra, tendo relação equilibrada (VERNIER, 1994).

A concepção de meio ambiente como intersecção surgiu após algumas décadas da adoção internacional do termo meio ambiente (“environment”), em virtude da designação “meio”, foi logo interpretada como interseção entre dois locais, ou seja, passou a ser considerado lugar entre o ambiente natural e o ambiente humano.

Em outras palavras eram localidades urbanas que teriam contato direto com a natureza. Esta interpretação não conquistou adeptos, em virtude de sua redução a bolsões verdes dentro das cidades ou no entorno delas, porém, vislumbrou o caminho para uma concepção e entendimento mais abrangente, situando o ser humano nem de um lado nem do, mas dentro do sistema ambiental.

O Meio Ambiente planetário, para TANNER (1978), mais importante que encontrar a epistemologia do termo é compreender sua real importância planetária. Entende-se, portanto, como Meio Ambiente o planeta e todos os seus constituintes, ou seja, um Meio Ambiente Global.

O ser humano, parte integrante deste, há muito insiste em permanecer de fora dessa complexidade, se colocando como manipulador e modificador.

A história mostra que um dia, o ser humano era um membro integrante do meio ambiente, o qual não ditava o seu modo de vida e sim, participava ativamente na sistêmica que integra a vida planetária, mas ao evoluir rapidamente, passou a se situar externamente a ele, razão pela qual possui ainda hoje um comportamento anti-ambiental, porém, não consegue manter-se distante dele, e busca frequentemente entrar em contato contemplativo com a natureza buscando o equilíbrio (VERNIER, 1994).

Uma definição mais esclarecedora do termo, incluindo o ser humano, está presente nos Parâmetros Curriculares Nacionais, nos Temas Transversais (BRASIL, 1997).

O termo meio ambiente tem sido utilizado para indicar espaço (com seus componentes bióticos e abióticos e suas interações) em que um ser vivo vive e se desenvolve, trocando energia e interagindo com ele, sendo transformado e transformando-o. No caso dos seres humanos, ao espaço físico e biológico soma-se o espaço sociocultural.

Interagindo com os elementos do seu ambiente, a humanidade provoca tipos de modificação que se transformam com o passar da história. E, ao transformar o ambiente, os seres humanos também mudam sua própria visão a respeito da natureza e do meio em que vive.

A melhor definição para Meio Ambiente Planetário é mais simples do que já foi apresentado, podendo defini-lo com uma única palavra, adjetivando-o como sendo TUDO, e epistemologicamente, incluindo como sinônimo do planeta Terra, onde cada ação gerada em qualquer parte corresponde a uma reação, integrando a natureza, suas forças e seres, e a sociedade humana com todas as suas virtudes e crises (CÓRDULA, 2010).

O Meio Ambiente holostêmico, surgiu na busca da formação de um pensamento universal, que contemple toda a complexidade planetária, da vida e coloque definitivamente o se humano como integrante deste sistema.

Para que a humanidade mude suas concepções e atitudes. A holostemia é onde o todo e as suas partes interdependentes, com suas relações externas e internas através de sua ritmicidade contínua na manutenção do equilíbrio, pulsam fluindo em trocas e entrelaçamentos energéticos vitais permitindo e mantendo a existência planetária.

Esta concepção permitiria encontrarmos meios de acomodação mais rápidos aos novos paradigmas socioambientais, compreendendo profundamente o planeta, para mudarmos nossa percepção ainda antropocêntrica, para, finalmente, incorporamos em nossa essência a preservação da vida, um bem até o momento único em nosso sistema solar (CÓRDULA, 2010).

A concepção “holostêmica” enfatiza a essencial vital de tudo no planeta, buscando a manutenção do estado de harmonia suprema entre todos os fenômenos naturais, espirituais e físicos que regem a Terra.

Esta concepção da vida e do ser humano, busca a condensação entre a concepção sistêmica, holística, espiritual e afetiva, onde estas duas últimas estão sendo fragmentada da essência humana, que se torna incompleta. Por isso, a explicação para uma crise global social e ambiental.

A holostemia visa reintegrar o ser humano a sua essência completa, como entidade biológica, evolutiva, espiritual, natural, cultural, social, política, filosófica, histórica e antropológica (CÓRDULA, 2010).

Referências:

ABÍLIO, F. P.; GUERRA, R. A. T. Educação Ambiental na Escola Pública. João Pessoa: Gráfica Fox, 2006.

BRANCO, S. Educação Ambiental: metodologia e prática de ensino. Rio de Janeiro: Dunay, 2003.

BRASIL. Educação Ambiental: as grandes orientações de Tbilisi. Brasília: IBAMA/UNESCO, 1997.

CÓRDULA, E. B. de L. Educação Ambiental na Escola. Cabedelo, PB: EBLC, 2010.

DIAS, G. F. Educação Ambiental: Princípios e Práticas. 5ª ed. São Paulo: Gaia, 1998.

FELDMAN, F.; MACEDO, L. V. Mudanças climáticas: da ação local ao impacto global. In: BRASIL. Ciclo de Palestras sobre Meio Ambiente. Brasília: MEC, 2001, p. 37-40.

GRISI, B. M. Glossário de Ecologia. João Pessoa, PB: Ed. Universitária da UFPB, 2001.

GUATTARI, F. As Três Ecologias. Tradução de Maria Cristina F. Bittencourt. Campinas, SP: Papirus, 1990.

GUERRA, R. A. T. O Meio (?) Ambiente. In: GUERRA, R. A. T. et al. [Orgs.]. Formação Continuada de Professores. João Pessoa, PB: Ed. Universitária da UFPB, 2007, p.59-80.

JOHNSON, A. G. Dicionário de Sociologia: guia prático da linguagem sociológica. Tradução Ruy Jungmann. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997.

LIRA, L.; FERRAZ, V. Psicologia Ambiental: uma relação de equilíbrio entre o homem e a natureza. In: SEABRA, G. [Org.]. Educação Ambiental. João Pessoa, PB: Editora Universitária da UFPB, 2009, p.53-68.

LOVELOCK, J. A Vingança de Gaia. São Paulo: Intrínseca, 2006.

ODUM, E. P. Ecologia. Rio de Janeiro: Guanabara, 1988.

OLIVEIRA, E. M. Educação Ambiental: uma possível abordagem. Brasília, DF: IBAMA, 1998.

SOUZA, A. K. Pereira et al. Conservar é Preciso. In: GUERRA, R. A. T. [Org.]. Educação Ambiental: textos de apoio. João Pessoa: Editora Universitária da UFPB, 1999, p. 13-15.

SOUZA, A. K. P.; GUERRA, R. A. T. A Educação Ambiental e o Homem Civilizado. In: GUERRA, R. A. T. [Org.]. Educação Ambiental: textos de apoio. João Pessoa, PB: Editora Universitária da UFPB, 1999, p. 99-101.

SAUVÉ, L. Educação Ambiental e Desenvolvimento Sustentável: uma análise complexa. Revista de Educação Pública, v. 6, n. 10, 1997, pp.72-102. Disponível em: Acesso em: 19 out. 2012.

TANNER, T. R. Educação Ambiental. Tradução George Schesinger. São Paulo: Summus, 1978.

VERNIER, J. O Meio Ambiente. 2ª ed. Tradução de Maria Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1994.

CÓRDULA, Eduardo Beltrão de Lucena e NASCIMENTO, Glória Cristina Cornélio do A HERMENÊUTICA DO MEIO AMBIENTE: CONCEPÇÕES, PERCEPÇÕES E PROBLEMAS. Educação Ambiental em ação, número 49, ano XIII
http://www.revistaea.org/artigo.php?idartigo=1848

 

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

 

* Sugerimos que leiam, também, a parte anterior desta série de artigos:

Hermenêuticas do meio ambiente, Parte 1/3

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 23/11/2017

Hermenêuticas do meio ambiente, Parte 2/3, artigo de Roberto Naime, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 23/11/2017, https://www.ecodebate.com.br/2017/11/23/hermeneuticas-do-meio-ambiente-parte-23-artigo-de-roberto-naime/.

 

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2 comentários em “Hermenêuticas do meio ambiente, Parte 2/3, artigo de Roberto Naime

  1. O melhor conceito para meio ambiente foi dado por Eistein que disse: MEIO AMBIENTE É TUDO AQUILO QUE NÃO SOU EU

Comentários encerrados.

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