A indução da crise na sustentabilidade agrícola de Cuba, artigo de Roberto Naime

 

artigo

 

[EcoDebate] BUENO (2015) assevera que um modelo de agricultura que maximiza o uso de produtos ecologicamente corretos, minimiza o uso de agrotóxicos e pesticidas químicos, recicla os compostos orgânicos, promove o uso adequado de biofertilizantes e enfatiza o uso sustentável dos recursos biológicos, parece utopia. Mas não é.

Este é o modelo de produção agrícola adotado em Cuba desde meados da década de 1980, quando o país teve que modificar suas concepções, após uma grave crise econômica, que colocou em risco a segurança alimentar da população, cuja ingestão de calorias chegou a cair quase 65%.

BUENO (2015) assinala que o governo cubano buscando formas alternativas para aumentar a produção de alimentos, incentivou o cultivo em qualquer espaço vazio nas cidades como pátios, praças e casas abandonadas, que passaram a ser tomados por hortas. O governo ainda permitiu que famílias ou cooperativas utilizassem terrenos públicos de graça para produzir técnico, sementes e ferramentas a um custo mínimo.

Também incentivou as instituições públicas a se envolverem na agricultura, e escolas, hospitais, asilos e até fábricas passaram a plantar hortas. Foi assim que surgiram os “organopônicos”, hortas em espaços públicos produzidas por cooperativas e famílias.

Se deseja que não precise ocorrer uma situação de ruptura como em Cuba, para que se possam ter alimentos com menos agrotóxicos e a “venenama” no Brasil. Mas o povo cubano obteve está situação ainda que por descaminhos causados por crises econômicas.

Entretanto, por conta do embargo econômico imposto pelos Estados Unidos a Cuba, essas hortas urbanas não podiam contar com insumos como agrotóxicos ou fertilizantes para garantir sua produtividade. Como se evidenciou, não se deseja ruptura deste tipo, nem hecatombes ambientais para que os modelos sejam alterados.

Restos de alimentos são usados para produzir compostos que alimentam minhocas usadas para produção de húmus. O controle de pragas é feito utilizando recursos biológicos. Algumas cooperativas criam joaninhas e louva-deus e até utilizam bactérias para combater alguns insetos, além de produzir inseticidas naturais extraídos do alho e da cebola para controlar fungos e doenças das plantas.

As hortas chegam a produzir mais de 50 tipos de produtos, entre vegetais, frutas, plantas medicinais e ornamentais. Hoje, há mais de 10 mil hortas urbanas em Cuba.

BUENO (2015) manifesta que as mudanças não ocorreram apenas nas cidades. O campo também teve que mudar seu modo de produção. Os agricultores tiveram que diminuir a utilização de insumos químicos e buscar agentes de controle biológico integrados, desenvolver procedimentos para recuperar energia e melhorar a disponibilidade de espécies de planta.

Todas essas mudanças foram deflagradas pela crise que atingiu o país em meados de 1980. Até então, Cuba copiava o modelo soviético na agricultura. Os sistemas agrícolas no país estavam fortemente “industrializados”. A ilha caribenha estava entre os países que mais utilizavam tratores e fertilização nitrogenada no mundo. Como sempre se relata. São melhores alterações planejadas e em regimes de abundância, do que alterações forçadas por situações limite derivadas de cataclismos econômicos ou ambientais.

A maior parte dos insumos agrícolas e produtos alimentícios eram importados. Com a debacle da União Soviética, principal fornecedora de alimentos, combustíveis e insumos agrícolas, a crise se agravou e tanto a produção agrícola como a disponibilidade de alimentos caíram a níveis alarmantes.

A crise econômica somente agravou um cenário extremamente vulnerável, cujo modelo de produção agrícola já vinha dando sinais de impacto negativo na economia, na sociedade e na natureza, atestados pelo alto nível de desflorestamento, salinização, erosão e perda da fertilidade dos solos. Realidades muito conspícuas ao Brasil atual.

BUENO (2015) assinala que estava cada vez mais evidente que aquele modelo de agricultura não gerava autonomia ao país e que a dependência de insumos importados devia ser reduzida. Paralelamente, a pesquisa agrícola também foi incentivada. Centros de pesquisa, capacitação e fomento foram criados e o governo criou o Grupo Nacional de Agricultura Urbana, composto por pesquisadores e produtores, com o papel de elaborar estratégias produtivas calcadas nos princípios da agroecologia.

Uma década depois do início da crise, a agricultura cubana duplicou sua produção e a disponibilidade de alimento retornou a níveis aceitáveis. Com isso, Cuba deu um passo importante rumo à soberania de seu sistema de produção e fornecimento de alimentos. Dá para imaginar o potencial do Brasil com outro modelo agrícola, que não seja fundamentado na superada, iníqua e esclerosada conceituação de revolução verde. As vezes e com certa razão, se imagina que apenas o comodismo e o conservadorismo humanos, apegado ao que já opera, não fomentam que ocorra esta revolução no país.

A recuperação econômica de Cuba e a abertura comercial, no entanto, podem ameaçar esse sistema. Muitas empresas já demonstraram interesse em se estabelecer na ilha ou reatar as relações comerciais, o que pode influenciar o retorno às práticas intensivistas e industrializadas e todo setor agropecuário.

Não faz sentido exercer qualquer condenação prévia e apriorística da biotecnologia ou de qualquer substância química caracterizada como agrotóxico. Isto seria uma apropriação dogmática. Qualquer inovação tecnológica teve como estimulação, os benefícios que podem ser gerados, embora possam ter trajetória tão diferenciada quanto são as intenções e predisposições de toda humanidade. Assim, todos os procedimentos merecem isenção e avaliações em cada caso, e não condenações gerais de qualquer natureza, que respondam a anseios políticos.

Conforme já se referiu, mesmo que não se apregoe qualquer restrição às evoluções científicas que inegavelmente são representadas por incrementos na transgenia ou por aprimoramentos de moléculas na indústria química, não custa nada admoestar a todas as partes interessadas que é preciso ter um pouco de humildade.

Mecanismos de proteção que podem até interferir na seleção natural, e moléculas que podem gerar desequilíbrios no organismo humano são temerárias, sem compreender todas as relações implícitas ou explícitas, e não lineares ou cartesianas da homeostase dos ecossistemas. Assim, parece um pouco pretensioso na atual fase de conhecimentos da civilização humana, implementar estes incrementos sem considerar os princípios de precaução e sem mobilizar tentativas mais sistêmicas e holísticas de se apropriar da realidade.

Referência:

BUENO, Chris. Crise impulsionou criação de modelo sustentável na agricultura de Cuba. Cienc. Cult. vol.67 no.2 São Paulo Apr./June 2015

 

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 23/10/2017

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